domingo, 29 de dezembro de 2013

ESTRADA VELHA

Nesta velha estrada do porto,
tenho sempre dado passagem,
quase nunca vazão.

Ando, portanto, contido,
o que às vezes me rende escritos,
às vezes "não!".

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

EX QUE SIDO

Acho que um dia poderei dizer,
na hora quase de cruzar a ponte:

nascido,
crescido,
amadurecido e
esquecido

fodido em Belo Horizonte!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

LIÇÃO

Para Mariana Diniz


Às vezes, na segunda-feira
(às vezes acho que as vezes todas!),
estou diante da vida como de um trabalho.
E não invejo o infante ocupado
em distrair-se da futura função.

Tenho ímpetos de permuta
com o velho cansado da praça,
que parece em estado de graça,
por já ver o descanso assomar.

Vejo os dias como dias de luta,
a que não se ajusta minha conduta,
pacifista por vocação.

Tenho ganas de deixar a peleja,
e vejo tomarem profundas tristezas
meu combalido coração.

Mas vem-me de repente uma consciência,
dessas que a gente nem sente que pensa,
a me dizer que a vida é uma escola!

Uma escola das mais competentes,
porque, por mais que me indisponha,
as lições impõem-se à gente.

Então vou-me deixar errar por estas ruas
e feliz, sem entrega às agruras,
eu aceito a minha missão.

Que momentos também os há doces,
e onde a vida os suprima, qual foice,
vou viver da recordação!

sábado, 30 de novembro de 2013

CENTRO

Eu queria morar num desses prédios do centro mais despretensioso, de nome "Cannes" ou "Mediterrâneo", ou qualquer outro que leve ao contraste de sua deselegância com o presumível charme do originalmente abrigado pelo nome. Ali a efervescência dos dias de feira me soterraria sob seu movimento quando também eu mais funcionasse. E o domingo alçaria a uma perturbação a ninharia do ganido de um cachorro velho; no domingo, quando também eu me sinto vencido.

Eu me sinto centro para além da obviedade de ser o centro de mim. Eu também tenho picos de vida, e também malvivo o ostracismo, quando meus dias não são úteis. Eu também sou mais colorido e agitado quando é assim a gente que me passeia e sou cinza, ou cinzas, quando a maré já não está cheia. Eu também sou num dia o espanto por as ruas serem tão largas e no outro o espanto por não bastarem a tanta tristeza.

E fico sem entender por quê os prédios são tão altos, quando estamos tão rebaixados, e os produtos tão novos, quando estamos tão defasados. Do que se faz um centro, e por que se oferece a todos quando é tão exclusivo o que o orbita? Por que outra gente, aqui tão perto, não sabe o que é estar aflita?

Mas eu sou só uma rua do centro, o que não falta é tribo! Eu sou só ruas do centro, não chego a prédio. Eu sou só ruas do centro, sou tédio. Vou de esquinas a viadutos. A garota-propaganda nunca usa o produto.

domingo, 24 de novembro de 2013

AO SUL DO REAL (FENÔMENOS)

"Com" Carlos Maltz

Mortais e mortíferos,
meus sonhos soníferos
me levam além.

Ou também os sonho acordado,
quando o com muita força sonhado
o sono já não o detém.

Disse-me Maltz que do que precisava
era de fazer atenção ao real.
E que não é que não seja real
o que está na minha cabeça,
mas é que há o mundo dos fenômenos...

(Mas e se a minha cabeça é fenomenal!?)

Minha cabeça está ao sul do real,
onde tudo está sem norte.
Onde é tudo de tal porte
a não o confinarem lestes e oestes.

Eu o que quero é seduzir o mundo!
E quando ser tão mundano

me tornou a seus olhos tão imundo?
Não sou, Carlos, Raimundo,
mas tenho, sim, sonhos fecundos.

E nos meu sonhos fecundos,
em se plantando tudo dá!
Que terra mais fértil
a dos meus desejos estéreis!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

UM INSTANTE (!)

A cidade está cheia de drogarias;
24 horas! 
Que maravilha!

Se ao menos houvesse remédio,
se se comprassem remédios 
para a angústia e o tédio!

Catábase: desce-se à madrugada,
e como atravessar a noite
sem o açoite da vontade de não ser?

Palavras!

Se melhor me faltassem,
só me faltariam à formulação
de uns tais pensamentos...

Melhor seriam sendo nada!
Brisas, ventos, um refresco!
Mas falam mais do que me é dado ouvir,
mais do que o que posso ler!

(Nada como as coisas como vistas
no retrovisor de ao depois)

E era tudo apenas um instante.
Aguente-se sempre!
É tocar adiante!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

SÓ SENTADO NA CERCA

"I'm just sittin' on a fence.
 You can say I got no sense" - Rolling Stones


Anos sem que nos avistássemos,
e eis que ela irrompe e,
assim mesmo, in media res,
questiona com quem eu passara a lua de mel.

Mas de mel a quê?!
E eu só preparado para  saber onde.
(Só se sabe ao certo onde!)
Certamente não com quem eu conhecera.

Não há nada de mel,
apenas crateras e alguma poeira cósmica.
Ou talvez um coelho ou um homem a embalar uma criança,
talvez nem em 69 o tenham sabido bem...

Em assentir passar o resto da vida com alguém
há, no meu sentir, um resto de vida.
E o resto, aresta, 
o resto é sempre falsificação.

Só, para o momento.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

MUITO PRAZER

Mesa, plateia, viagens..
Que outras mais belas paragens
do que estas por que sei me perder?

Alimentam o corpo e a alma,
e unem os mais belos espíritos,
do cair da noite ao amanhecer.

E se as noites as viro tão plenas
da satisfação mais terrena
até a alma se presta a arder.

E os dias vão a meses e a anos,
e não sei fazer outros planos,
só me deixar entreter.

São todos meus convidados,
e não há tempo mais azado:
já está a areia a escorrer.

Olá! Muito prazer!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

BRUMAS

Gostava tanto de te abraçar!
Sentir o peito arfar contra o peito...
É meu pleito num jogo de azar,
para ser da sorte o eleito.

Acercar-me da moça morena
e era plena a minha fortuna!
Mas o que digo?!
Não é real o que vejo!

O que digo?! 
É anseio!
São brumas...

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

INFANTE

Se eu pudesse voltar atrás,
até quando voltaria?
Até resgatar a inocência
que não cabe nos meus dias?

Nunca me causou terror
a mão que balançava o berço,
mas a acidental anca adjacente
já me acendia o desejo.

E não sei se minha infância
foi a casa da branca ternura;
pode ser que a verdade
fosse outra bem mais dura.

Na esperança de que as moças bem feitas
fossem esperar por mim,
gastando em minhas bochechas
todo o seu batom carmim.

E de que me valeria
voltar na cadeia causal,
se sou um justo criminoso,
justo por ser animal?

Então interrompo a história
da pequena vilania.
Traga-me a moça, depressa,
sua rica sesmaria e

recuperado encetemos
hereditária capitania.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

UM INSTANTE

Ah, a beleza de um instante!
Olho essa foto, luz bruxuleante,
e me dou conta da impossibilidade
de ser de novo feliz como antes!

Porque um dia eu já lá estive,
bem antes de pra cá me mudar.
Pra esta vida, farto declive,
que me obriga a me embalar!

Vou ladeira abaixo, rápido,
e nenhum santo me ajuda!
Inclementes faça sol,
inclementes caia a chuva!

E eu, deportado,
o que fiz naquele instante?
Por que fui provar do fruto
oferecido em sibilantes?

Bastava uma negativa
e me pintava outra tela!
Mas sou Narciso e, oferecido,
me encantei da minha costela!

Agora não tenho saída,
de onde não dei entrada.
Saiba: não lhe vem o paraíso,
trate de aproveitar a estrada!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

LEVES

We all live.
We all leave.

We all leaves leves of a tree...

sábado, 26 de outubro de 2013

PASSA UM ANJO

Se aspiração fosse protagonismo,
eu não olhava nada de longe,
e mudava as coisas de nome
só pra não ter de esperar.

Que o melhor presente é o futuro,
e o projeto nascido maduro
é o de já o experimentar.

Porque "quem espera sempre alcança",
mas o alcance é filho do esforço,
e eu quero o puro alvoroço
da fruta dada ao paladar.

Então me posto sob a macieira
e não precisa qualquer gravidade;
basta o desejo e a cidade,
e pode ser a daqui ou a de lá.

E só quem sonha em alta voz
levanta a bola ao anjo que passa,
que dirá "amém" e, num gol de placa,
nos desatará em nós!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

TARDES

Nada me enche tanto de alegria
como uma tarde vagabunda,
gasta no varejo de coisas chãs.

Não farejo castas, não diviso clãs.
Nutre-me apenas um desejo de fraternidade
com todos os araques do mundo!

Fazemos do nosso nada nosso rico latifúndio!
E tudo é plantação sem olhos postos na colheita,
ou no lucro que enceta.

A nós o que interessa
é poder inventar o poder de inventar!
Com que invento mais me contento
do que com o de nos refestelar?

Abrem-se caminhos infindos,
e qualquer errante é um familiar vizinho
se a nós quiser-se juntar.

E vamos! Nada de detença!
Só é a imobilidade a sentença
de quem não sabe brincar!

Vamos! Faz-se tarde!
Vamos que me arde a vontade
de a ti também contaminar!

E não te protege que a defesa é vã!
Te entrega a ser concidadã 
de um mundo tão solto e liberto!

Te entrega! Vem a nós!
Te entrega! Escuta a voz!
A felicidade é por perto!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

ENTRETIDOS

A vida é diversão da dor,
e sempre nos entreterá.
Faceta-se às vezes de guerra,
e nós, soldados a ela,
batalhamos...
tentamos...

A vida nos entrepossui,
e o que nela se imiscui 
não tem para onde correr.

Uns dos outros extravagantes,
e sem nos durar um instante,
já nos obriga a morrer.

No que estamos desde nascidos:
morremos crescentes,
morremos crescidos,
quem dera poder esquecer!

E se não me esqueço fico lembrança,
e às vezes exerço a criança
e me lembro de viver!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ATOR DOADO

O poeta não é autor.
O poeta porta a dor do poema,
que nele ancora,
que dele explora os desvãos
e é vã a defesa!

De pena na mão, é antena.
E apenas concatena
o que se deve escrever.

Irradia o mundo algo que impele,
e não é qualquer pele
que o pode absorver.

É então a água que bebe imantada,
e não há, de seu, nada
que possa, dado, oferecer.

Mas eu quero ver
é escrever
sem que lhe doa!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

GALARIM

Uma vontade tíbia
que se fez femúrica,
de aproveitar a chance,
a única, de vestir
em túnica o "sim",
despojada a toga do "não".

Tomar o trem, o avião,
dar-se pernas ao caminho;
colher a flor, ceifar o espinho,
que a vida exige prontidão.

E a escolha feita é escolha pronta,
e só vendo o que desponta
pode o sorriso sulcar a face.
E a ver que tanto é só fase,
que tanto é aquisição.

E ficamos combinados assim:
de gaivagem a galarim,
abre-se, vida!
Pisca pra mim!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

NUNCA DANTE

Eu tenho um mapa-mundi 
na parede do meu quarto.
Meio torto, assim tombado,
e é mesmo assim que perambulo:
meio de lado, olhando de soslaio,
ao diabo de "revesguê de olho",
como quis um gaúcho.

E o que é que tem?
Minha avó morreu há tempos
e já então me dizia que
o mundo andava mesmo virado!
E o que fazer? Desabitá-lo?
E eu lá tenho escolha? Que raio!
Que um raio me partisse 
antes que você me visse
escapado...

Sou eu que ando tombado,
nada de me dar o tombo!
Impende nos encontrarmos!
É cogente eu ser achado!
Urgente? Niente!

Nada urge neste mundo,
por mais que o tempo escape.
Por mais que se esvaia
é disfarce!
Nós o que temos é de urdir,
tramar...

Ande distraída!
É já que lhe aplico o golpe
de sorte.
E este mesmo sinal que nos distingue,
cada um no seu corpo,
no mesmo lugar?
O mais de tudo é estarmos...
E aí? Vamos?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Cançãozinha (Pouco Ortodoxos)

                            Para Cris Baianinha e Milinha

Não penso muito longe
quando penso a alteridade:
quero que as amigas tenham
quem as mereça de verdade!

Quando as penso não me alheio,
e peço mesmo coisa pouca:
que quem as tenha, de felizes,
as deixe nada menos que loucas!

Quero mesmo que se estranhem
ao se verem tão risonhas,
tendo perto quem lhes deixe 
belas flores sobre a fronha.

Querer vê-las só sorrisos
é egoísmo (eu computo),
porque arquearem os lábios
é visão de que me nutro.

Também delas me benfaço,
de irradiarem felicidade,
e de vê-las dizerem à tristeza:
"Dê-se pressa, faz-se tarde!"

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

PROGRAMA

Não serei um jovem alto
de cabelos encaracolados.
Não serei moreno,
nem serei abastado.

Não serei um jovem pai
de filhos prodigiosos,
mas viverei os necessários
prévios momentos gozosos.

Não serei um jovem doutor
formado pela Sorbonne.
Não pintarei qualquer tela,
nem tocarei o trombone.

Não conhecerei os vinhos,
nem presentearei quilates;
mas navegarei muito,
mesmo não dispondo de iate.

Nada saberei dos outros,
do que façam, ou do que alcancem;
há um mundo dentro de mim,
a este pode ser que me lance!

domingo, 6 de outubro de 2013

sábado, 5 de outubro de 2013

À PORTA

E me esquivo com cuidado
das aldravas da loucura,
essa porta sempre escura,
que encostada sei que se fez para se abrir.

Não abro o presente antes do tempo,
e até antevejo o ressentimento
por ser brindado com o que eu  não escolhi.

E ninguém sabe o que surge,
se é liberdade o que ali se urde,
ou se com isso se abrevia o que se vive.

Paris, setembro de 2013.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

AMPLIAÇÃO (IN UTERO)

Orly, 18 de setembro de 2013.

Às portas da volta, olho fixamente o guichê de check in da companhia aérea portuguesa, que não abrirá antes de escoada a madrugada. Vão-me atender em português? A esta altura já desejo que sim. A esta altura o português luso já me soa poético, de uma poesia já doméstica. Pouco me importa que seu fuso esteja mais perto deste, francês. Vou voltar no tempo. Voltar no tempo...

Esta semana exibi uma foto de um inopinado arco-íris na Champs-Élysées, o que levou uma amiga a comentar que queria estar ali, longe não sei de quê. Pareceu-me claro que não era o desejo do destino, mas uma refutação da origem. Não sei se algum dia alimentou-me uma tal ilusão. Gosto de ir e, no entanto, hesito sempre. Não. Não gosto de ir. Gosto de "estar ido". E talvez do que tenha medo é do que descubro sobre mim, a meu desrespeito, estando longe. É sempre muito. É sempre sobre o mais vulnerável de mim, o mais indefeso de mim. E lá pelas tanta, abatido por ter andado comigo, nasce-me um desejo urgente de regresso. E volto contra o fuso e confuso. E não era mesmo fuga. Volto com mais de mim do que parti, tudo ampliado, tudo às escâncaras. E preciso logo me esconder no diuturno. 

Eu fujo é de volta!


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

INDIGÊNCIA

Paris, 17 de setembro de 2013.

No meu dia de despedida da cidade passo, nas proximidades da Sorbonne, por um clochard que ignorava calmamente o seu copo de moedinhas, absorvido que estava pelo livro que parecia devorar. Nunca antes na vida pareceu-me tão próxima a indigência, nunca antes consegui ver-me tão bem num quadro tão supostamente distante. Ver-me bem? Mas é que não sei exatamente o que seja a indigência, e sei de grandes homens que investiram tanto tempo em integrar-se (entregar-se desintegrando-se em páginas) que não tiveram tempo de se locupletar. E o senhorzinho que lê diante do copo? Tão distraído que nem vê a indigência desfilar-lhe ante os olhos pejada de sacolas...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

TRIUNFO

Paris, 16 de setembro de 2013 - II

De onde estou sentado, só, vejo o Arco do Triunfo. Mas o que é isso? Não há na minha cidade, nunca se triunfou ali. Ou eu nunca me atrevi a vê-lo assim. Ali muito nos aturdimos, e memos quando sorrimos... Não sei o que há em mim que mesmo quando canta se molha e se salga. É coisa de dentro da alma, e não triunfo nem sobre mim! E o que importa? Do palhaço nunca se exigiu nada além de que estivesse alvi-rubro, estivesse de conluio ou não houvesse mais ninguém ali. Que riam os outros, que gargalhem mesmo se o desespero lhes chega a tanto! Eu nem seco o meu pranto, se for de tanto que me vou  nutrir. Mas do que lhes estou falando? Não se trabalha aqui!

domingo, 29 de setembro de 2013

Paris, 16 de setembro de 2013.

Calhou de eu estar sozinho em um café de Paris, esperando a sessão de cinema. É-se o mesmo em todo lugar. Pelo menos quando se está só de passagem. E onde é que se não está só de passagem? bom, pelo menos sou o mesmo em toda a parte, pelo menos se me grafo em português, e só me grafo em português, esta pátria portátil que nunca me abandonou nem me fez menos estrangeiro. As pessoas que passam são tão diversas quanto lá, mas de um diverso outro. Mas e o que comportam, importam-lhes os outros? Acho que Gessinger estava mesmo certo na cação: "O mundo é muito grande pra quem anda de avião, (mas) pra quem anda sem destino ele cabe na palma da mão".

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

METRÔ

Paris, 12 de setembro de 2013.

No metrô de todo o dia experimentei um inédito orgulho da diversidade  da terrinha, a partir da constatação boba de que todos ali, ou melhor, de que qualquer um ali poderia ser brasileiro. Depois, dentro disso, pareceu-me estranha, surpreendeu-me a dessemelhança que sentia em relação à porção do todo que mais me cativava a atenção. Não demorou muito para ter, num estalo, a percepção de que não era dos franceses que me distanciava, mas dos jovens.
E foi duro perceber que não duraria mesmo muito no chão duro do Champ de Mars, mesmo o vinho sendo francês, nem muito nos bancos duros da Savassi, mesmo muitos me tratando de "você".
É, envelhece-se!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

METRO

Exit
Ausgang
Sortie
Uscita
Cercam-me todas,
e não há
"saída".

Roma, 10/09/13

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

AROMA

Roma, 09 de setembro de 213.

Eu tenho dito que todos os caminhos levam aroma quando se está perfumado. E não poderia deixar de pensá-lo, na cidade eterna, onde recebendo instruções sobre como fazer como os romanos fica é mesmo patente que a essência que aqui exala é brasileira. O calor, mesmo forte, não é o nosso. O sorvete não é o nosso. A massa decididamente não é a nossa! Mas o meu jeito de os sentir, o meu jeito de os reunir sob a rubrica do diverso, é todo nosso! E aí nenhuma canção italianamente efusiva me ocorre, mas a calmaria do nosso Geraldo: "Fico pensando que por mais que eu ande, eu não consigo me afastar de mim." Que bom! Mas a Fonata Di Trevi é mesmo muito bonita!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

FLUXO


Paris, 06 de setembro de 2013.

A pressa, parece, é a mesma partout. Pas la paresse de ces jours! Há qualquer coisa sedutora na indolência dos franceses que desfrutam qualquer verde que se lhes depare. Estiram-se por todos os jardins, espraiam-se à margem do rio. É a alegria concentrada de quem sabe que a estação  não lhes dura nada. É um afã de perpetuidade. Não sei nada do eterno, mas o terno e simples espetáculo me fica, porque todos somos capazes disso. Pobre do maldito que, numa tarde de enguiço, não sabe desfrutar a alegriazinha besta de uma rede amarela; uma rede para pensar nela ou só para não se estar a trabalho. Uma rede para se estar ao agasalho do sonho, mesmo se desperto. Uma rede, uma tarde... A felicidade anda perto. Vagabundo aqui, vagabundo em Paris, vagabundo onde a sorte me quis. A sorte de andar à toa. Andar à toa é um pouco de infância, o tempo da Samoa. Alma que se expande e dilata. Alma que aquilata que nada atordoa. Só vago, tudo é vasto! Sem tramas, sem embaraços. Minha alma é amplidão!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Au Café

Estou num café parisiense,
e me convém escrever um poema.
Mas só tenho escrito versos de dor,
e nada aqui me faz pena.

Nem mesmo o não estar lá,
naquela terra prometida,
onde numa palmeira esquecida,
nunca cantou o sabiá!

Então deixo isso de dor
e vou andar entre a gente diversa.
É Paris num luminoso versão:
basta andar e já tudo é festa!

Paris, 6 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

NO AEROPORTO II

Lisboa, 02 de setembro de 2013.

Gosto do acento luso, gosto mesmo. Gosto de como canta esta gente de que estivemos tão próximos e em que por ora escolhemos não nos reconhecer. Menos para a leitura de poemas. Não os de Pessoa, pelo menos. Machuca-me saber que o fingidor fingia assim e não como o fingimos nós. Mas não há problema! Cá nós é que estamos com a razão! Afinal, o jeito mais fingido de entoá-lo nós é que o temos! Fingidos...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

NO AEROPORTO

Mais uma vez no aeroporto.Comecei tarde na brincadeira e nunca é completo o conforto. Viagens. O Quintana dizia que eram mudar a roupa da alma. Não é  pura alegria, calma!Há um breve receio. Pra mudar a roupa da alma é preciso despir a que se leva, e eis a alma desnuda. Se eleva? Vejo agora que sempre houve dois dedos de medo em tudo que estimo. Adoro andar por outras partes, mas há um receio em alcançá-las, ou em tentar alcançá-las. Memórias de soçobrado? Pode ser... A alma mesmo desnuda tem aí alguma coisa que a distingue, algum sinal. E às vezes me sinto como intuindo sinais de mais daquili,daquilo que me marcou. Viajar é mesmo um pouco como amar. Vai-se tecendo a viagem e sem ter nunca estado pronta vê-se um dia terminada. Mas há um impulso,e tenho que me lançar. Até mais!Até muito mais!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

TENTA!

Abortar a sessão desinteressante
ou descalçar o sapato apertado;
tudo isso que não se pode fazer com a vida,
a vida aguente-a calado!

Ou então impreque, moleque!
Há todo um leque de opções.
Mas eu respondo pela garota:
a estrada será uma prisão!

É então esta busca aflita,
ou uma busca apenas atenta,
por tudo que liberta;
amor, dizem ter dito o profeta...

Tenta!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

POEMA DO SEM DISFARCE

É certo que tenho
as palavras e o tempo.
Mas faltam-me certas mãos
(e o tal sentimento...)

E nenhum anjo,
torto ou reto,
me cingiu.

Então vou ser direto:
E agora?
Puta que pariu!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

PRRÉ PÁ RI

Paris estará a meus pés...
ou estarei aos pés de Paris!

(pouco importa a ordem os fatores...)

Não me acorre ser triste,
só me ocorre ser feliz!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

KINDER OVO

Muito "mar" no maracujá.
Muita "anja" (anja existe?) na laranja.
Muitos alpes no alpiste (comida só de passarinho).
Muito "amor" na amora (ou talvez apenas carinho)."

Muita "mão" no mamão.
Muito "mel" na melancia.
Aqui e agora no "cá já!",
e agora parei de brincar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

MUDA NADA!

Muda o rosto
e, um pouco,
muda a alma também.

Fala a alma;
muda nada!
Dá à voz outro alguém.

sábado, 17 de agosto de 2013

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

OLHAR

Não me toca a toga,
não me toca o morteiro.
Só me toca o que me toca
o corpo inteiro!

Por sonhos sou absorvido,
habito seus campos incertos.
E mais não me ocupo, portanto,
do real que não está bem perto.

Sofro o real adjacente,
e sonho lonjuras e distâncias.
E desperdiço tantos pedidos
com o que não se obtém por instâncias.

Devo cessar de desejar e realizar,
tornar palpável o que só a mente sente.
Tornar concreto, certo, palatável,
aquilo a que aspiro: outra gente!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

PESSOA

Leio embevecido os versos de Pessoa,
e me censuro por estar feliz
de ter o moço estado triste,
por ter o moço andado à-toa!

Se tivesse amado a contento!
Se não andasse cismado!
Se não olhasse pra dentro!
Se não se tivesse ensimesmado!

Que versos nos ficavam perdidos!
E como nos teriam faltado!
E me alegro, confesso, com isso
de à vida não se ter entregado!

Tudo bem! Sou moço bom!
Era já tudo fato consumado!
Minha alegria com o produto
não concorreu pro resultado!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

SIMPLÓRIO

Sou poeta simplório,
que não domina artimanhas.
Por isso, vexado, lhe imploro
que me dedique as manhãs.

E eu lhe dedico as tardes,
sem que você mo suplique.
E a pouca arte que trago
pode ser que lhe aplique.

E à noite nos encontramos
em alegrias de portão.
E nunca o tempo investido
terá sido tempo vão.

E da madrugada já não digo
como a história se completa.
E já o tempo transcorrido
terá sido tempo de festa.

sábado, 10 de agosto de 2013

PASTOR

Nem um beijo hoje alcançou, Musa,
este pastor que por ti espera.
E sinto assim que a sorte me abusa,
e não tenho mais o que fazer na Terra.

Porque não gosto de entregar-me ao pranto,
nem a ninguém faz gosto que produza lágrima.
Melhor eu faço esquecendo-me em meu canto,
e escrevendo produzo, intruso, mágica.

E encantado eu te alcanço nas lonjuras,
e a surpresa te ilumina o rosto.
Então te entrega à alegria, criatura!
E me premia assim o ter bom gosto!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ANIVERSÁRIO (MINHAS CARAS CARAS)

Meu poema é um bilhetinho engarrafado,
lançado ao mar e deixado à deriva;
vai-lhe dentro um grito dobrado,
redobrando a vontade de vida!

Mas a solidão de náufrago é cena,
tenho uma vida assaz frequentada:
toda hora é um amigo que acena,
ou pro profundo, ou pra não dizer nada!

E quem se deixa estar sozinho
é quem de verdade naufraga;
a senda luminosa é o caminho do carinho,
que fazer fita que nada!

Então, no dia dos meus anos,
quero pôr a cara na rua,
e tê-la a iluminar-se, arrebatada,
vendo assomar-se-lhe a tua!

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

PESSOA E OFÉLIA

Prefiro viver e amar!
E, se o tempo me sobrar,
algum verso...

E ainda neles
amar é o que peço!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

GENTE

                              Para Jones-riso-frouxo

Nem vidas intervaladas,
nem vidas que se interfiram;
vidas que se intervalham
são as vidas que prefiro.

Nem gente contingente,
nem gente que atordoa;
prefiro esta outra gente:
a gente que ri à-toa.

Nem gente que plange a vida,
nem gente que no regaço chora;
a gente de abraço forte
é a gente que a gente adora!

sábado, 3 de agosto de 2013

SUGESTÃO (CARTA A PERNAMBUCO)

Moça, eu te convido:
Morde!
Morde ativa!
Morde e mata em pachorra
a modorra da minha vida!

Vem na raça!
Me abraça!
Me abrasa!

Há brasa de sorte
sorteando incêndio
entre você e tu.

Com te esquecer eu
não te contentes;
fosse ainda esse o meu querer,
és meu sonho recorrente!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

EM BELÉM DO PARA ALÉM

Queira vidas paralelas!
Vidas imbricadas são complicadas,
ainda quando belas!

Por que seria menos eu,
se foi a mim que quiseste?
Por que serias menos tu,
se foi a ti que me deste?

Não há sul sem que haja norte,
leste sem que haja oeste!
E porque estou meridional,
podes restar nordeste!

E a gente que faz diferente,
será que não percebe?
Não veem que o que disse 'inda agora
é a verdade inconteste?

Verdades! Tantas são boas...
Cada um tem a sua,
são a matéria da escolha!

E a vida? A vida juntos?
As vidas juntas e boas!

terça-feira, 30 de julho de 2013

APORTE (XIBOLETE 2)

                                  Para Chun-Li

Sinto, ao longo dia,
vontade compriiiiida 
de te ver.
 E só penso em fazê-la cumprida,
como se matá-la 
fosse dever.

E quem sabe não me alcança a sorte
de estar do lado 
de você?

Então chovo,
sou todo convites,
e faço figa para os receber.

E olha que quase
toca-me a sorte,
sorte do porte
de você.

Aporte!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

AJUDAI-VOS

                                                                                              aos promitentes

Gente de muita fé,
e viciada em barganhas.
Mas o que oferecer a Deus,
o incriado, vida ganha?

Deus não tanto mais ganha
quanto mais o fiel perde;
então é inútil a disposição
de renunciar ao Grapette

Deus não se dá a trocas,
é inútil teu apelo;
então não percas as rótulas
descendo escadas de joelhos.

Dizem que tu tudo podes
Naquele que te fortalece;
então põe reparo no que digo,
e faze reparo na tua prece.

Do que acho que Deus gostaria,
só o que acho que não tem à mão,
é olhar aqui para baixo
e ver ajudarem-se irmãos.

Se a isso nos lançarmos,
se deixarmos de pilhérias,
podemos resolver os casos
e a Deus, merecidas férias.

sábado, 27 de julho de 2013

SUCESSO

Eu gostava tanto de ser publicado!
Não sei porque ainda não fiz
nada para provocá-lo...

Mas provoco outro tanto:

vivo ternuras de portão.
E nos poemas diretos às musas
também há satisfação.

Mas tenho esta busca, confesso:

passar da sala aos salões
e arrebatar mais corações,
num ampliado sucesso!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

SENHOR

Senhor, 
diretor pleno de Si,
do Plenário.
Não sou boa criatura.
Melhoro, lento, a postura.

Sei que, a Ti,
não Te sirvo a nada!
Mas não me casses, Senhor,
a palavra!

Serei, de mim
(Te prometo!),
o perpétuo melhorador!
Dou-Te minha palavra,
e a tomo emprestada ao Senhor!

terça-feira, 23 de julho de 2013

XIBOLETE

                                                                                                      Para Chun-Li                                                                                               "Eu protegi seu nome por amor..."

  

Um xibolete é um convite ao deleite,
de uma dama sem camélias,
numa rua sem ramalhetes,
a um vagabundo erra-o-mundo
ávido por aceite.

É uma promessa de céu,
quando o céu no escuro se esconde.
E quando o dia dissipa o breu,
parte-se a não-sei-onde.

Enquanto os mais puros, dormidos,
recolhem-se, almas claras,
os que não as trazemos alvas
as lavamos na madrugada.

E com tanto lavar-se a alma
muito se ajuda o corpo,
que tanto mais vive quanto menos
passa a noite a fingir-se de morto.

O xibolete é uma intimação
à alegria pra que se apresente;
seja muda e  circunspecta,
ou alvoroçada e irreverente.

O xibolete é a prova mais clara
de que aqui se vive e se aproveita.
E a felicidade, com prévio anúncio,
põe-se logo, esperta, à espreita.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

ALMEJO

Almejo ter sempre a alma capaz
de assimilar a alegria da madeira,
mesmo sendo-o pela morta macieira
cujos frutos já há muito não apareciam.

Em nova vida surge,
em nau erigida,
em alegria esquecida de que
não vence nunca o que ganha o mar.

Mas não há fuga do destino
quando, ainda em desatino,
é toda nossa estrada.

E não gela o nascido pra arder,
nem se firma o nascido pra singrar.

Içar âncoras!
Alçar velas!
Expandir-se!

Enfrentar!