quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sem meias palavras


Entrei na Sabinão. Sabinão, sô! Aquela padaria aqui do bairro. Sabe não? Enfim... Estava de camisa do Iron Maiden. Comprei seis pães de queijo e mistura para capuccino. Deu R$ 6,66. Ri muito alto, como o babaca que sou!



É muita adolescência nesse meu Brasil!!




terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Valete, Frates!

Chegou 2010, já não há fugir-lhe! É o primeiro ano que adentro balzaco, e com pouco saco, perdão da rima pobre e xula! Assim que, irmãos, sendo uma Pessoa bem Helder, é já hora de deixar a casinfância! Bons ventos me levem. Algum corretor a me ler?


Vento quem vem das esquinas
E ruas vazias
De um céu interior
Alma de flores quebradas
Cortinas rasgadas
Papéis sem valor

Vento que varre os segundos
Prum canto do mundo
Que fundo nao tem
Leva um beijo perdido
Um verso bandido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar
Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

Vento que dança nas praças
Que quebra as vidraças do interior
Alma que arrasta correntes
Que força as batentes
Que zomba da dor
Vento que joga na mala os móveis da sala
E a sala também

Leva um beijo bandido
Um verso perdido
Um sonho refém
Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar
Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Desaspeáveis aspas da aflição 2

"...havia uma boîte no sopé da colina onde não corria o risco de tropeças em pessoas que o conhecessem: envergonhava-o ser visto na companhia daquela mulher demasiado ruidosa, com pelo menos o dobro da sua idade, lutando contra a decrepitude e a miséria através de uma encenação absurda ao mesmo tempo ridícula e tocante, que o fez ter vergonha de sua vergonha: no fundo não eram diversos um do outro, e em certo sentido os seus frenéticos combates aparentavam-se: fugiam ambos à mesma solidão impossível de aguentar, e ambos, por falta de meios e de coragem, se abandonavam sem um gesto de luta à angústia da aurora como mochos aterrados. O analista lembrou-se de uma frase de Scott Fitzgerald, tripulante aflito do barco em que seguiam, deixado em terra numa viagem anterior, de coração exausto alimentado pelo oxigénio amargo do álcool: na noite mais escura da alma são sempre três horas da manhã. Estendeu a mão e afagou a nuca do dinossauro numa ternura sincera: salve, minha velha, atravessemos juntos estas trevas, declarava o seu polegar subindo e descendo ao longo do pescoço dela, atravessemos juntos estas trevas que só há saída pelo fundo consoante nos informou o Pavia antes de abraçar o seu comboio, só há saída pelo fundo e talvez que amparando-nos mutuamente lá cheguemos, cegos de Brueghel a tactear, tu e eu, por este corredor cheio dos medos da infância e dos lobos que povoam a insónia de ameaças."

sábado, 26 de dezembro de 2009

Desaspeáveis aspas da aflição 1

"- Para a semana que vem faço trinta e cinco anos, informou ela com descaro. Se prometeres pôr um smoquingue e levar-me a jantar a um restaurante decente o mais longe possível dos Caracóis da Esperança, convido-te; desde que o Mendes foi embora tenho um vazio no coração.

E apalpando-me o ombro:

- Sou uma pessoa muito afectuosa, chiça, não sei viver sem amor. Tu não deves ganhar mal, hã, os analistas esfolam, se te arranjasses, te penteasses, comprasses um fatinho na Avenida de Roma talvez ficasses jeitoso embora isso para mim, o dinheiro, o aspecto, não tenha importância nenhuma, são os sentimentos que me interessam, beleza da alma, não é? Um homem que me trate bem, me leve a passear a Sintra aos domingos e chega para eu andar feliz como um canário. Sou muito alegre, percebes?, muito sossegada, muito caseira. Eu cá meu filho pertenço ao gênero amor e uma cabana, o meu banho de espuma, a minha depilação das pernas, conta aberta na pastelaria, não exijo mais. Tens aí duzentos escudos com certeza, deves ganhar bem, és um cavalheiro, não aguento caramelos que não sejam cavalheiros, olha que gandulos sempre com a caralhada na boca puta que os pariu. Desculpa falar-te assim mas é que sou franca, não sou gaga, sei o que digo, a bem tudo a mal nada e ao depois simpatizo contigo, posso dar-te muitos gozos se gostares de mim, me compreenderes, me pagares a renda da casa, eu quero é dedicar-me, ter alguém que me leve ao cinema e ao café, me pague a renda da casa, me trate como deve de ser, goste do meu basset, me aceite. Por acaso podíamos ser felizes os dois, tu e eu, não achas, quando é que deslizas os duzentos bagos? Tens medo que isto seja conversa da fiada? Ó filho eu paixões é a primeira vista, não há nada a fazer, caíste-me no goto, deixa cá pôr os óculos para te observar melhor, te amar ainda mais."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Un jour, Ju (Gabriel disse...)











Bom...
Eu estou na beirinha do mapa; se meto n'água os pés, vejo-me a deixá-lo e, embora muito mais próximo do Brasil e, juridicamente, nele, sinto-me rumo à África.
É mar, que há sal, embora ondas não haja.
mas há já quem o curta,tudo igual; quanto menor, maior o proveito!
aqui veem-se a força e a vontade a concretizarem o que a chatice lógica bem gostaria de interditar.
assim que mesmo na falta de ondas tem-se escola pública de surf e estátua em homenagem aos surfistas...
é, se se lembra, a primeira capitania hereditária do Brasil, e até acho mesmo que me poderia tocar esta cota de cuja janela se avista o mar, do que me diz minha madrinha, sem que lho pergunte ou encoraje...
e embora o Brasil tenha começado aqui, pra mim, que venho de "dentro", é onde acaba; é onde o transcendo por metros, sentindo de pronto a irresistível atração que me incorpora, onde a sensação de pertencimento é tal que jamais encontrará paralelo, o que intuo, dada a quase nula chance de compravação que já me deparou.
aqui estoy lejos, aun que cerca, cerca de algumas centenas de quilômetros que me facultam pensar melhor antes do almoço sem recurso à cerveja ou ao que a valha.
aqui o tempo transcorre em blocos de só dois: está claro ou escuro, o chamado de mim não soa, que o celular não me acompanha, e não tenho como cruzar o tempo em ansiedade rodoviária de ilusória abreviação da distância cronológica.
tudo é cercado da ilusão de consumir-se, embora haja, subjacente, a certeza da facilidade do restauro de tudo, venha o feriado que for.
aqui como alhures azevedo, azevedo todo, e "fico pensando que por mais que eu ande, eu não consigo me afastar de mim!"

Mineiro a espera de gaúcho - pior que baiano!





Era janeiro de 1991, a quarta série ficara para trás, e com ela Tia Maria Luiza e quaisquer outras. Pela informação que tinha, esperava-me um batalhão de professoras, uma de cada matéria! Nada de tia, meu chapa! A chapa é quente!

Mas era janeiro, e o que quer que me viesse esquentar, não me pegaria antes de fevereiro. Na colônia de férias um guri me contava do quão perto chegara de ir ao Rock in Rio II, o evento da década, onde ele veria... uma pá de coisas cuja existência eu completamente desconhecia. Não, meu caro, não era possível chegar em casa e jogar no google, eu tardaria ainda para conhecê-los a todos, e de alguns gostaria que não me tivessem chegado sequer os nomes, que dirá seus "passo a passo", ou "step by step".

Era noite e me fazia acompanhar da Nildinha, minha fiel escudeira, força motriz do doméstico. Eu esperava pela aparição do bom gaúcho, que também tomava parte do festival, aquela parte sem potência, de sons sabotados, eternamente reservada a tudo quanto fosse dali mesmo, do Pindorama. Uns putos! Enfim... Veio-me a esperada presença, cabeluda e chacoalhante, e até louvada pelo repórter, que lhe atribuia o recorde em decibéis vindos da plateia, no inigualável momento (se medido em termos da adesão popular) em que "Era um garoto..." fora executada. Mesmo desse show, mesmo do breve recorte que dele fizeram, não tinha o domínio, pois que só conhecia o que viesse do inexorável Pop, que a ninguém poupava, já que do quarteto de vinil que o antecedera ainda não tivera notícia.

Basta de intróitos e pré-história. O interesse da noite, sua novidade, veio-me d'alhures. Depois de ter visto um descabelado e simiano Prince, e ter-me perguntando em vão de onde viria o interesse por tão exótica e patética figura, eis que surge um camarada cheio de marra, com uma cueca estrelada de prepotência yankee, e manda um som abalador de estruturas, irresistivelmente impositivo do apostolato! Foi onde me perdi, e onde dei entrada na adolescência sem qualquer chance de dignidade visual, haha!

Fiquei sabendo pelas reportagens que abundavam, que aquele rock in rio era o II em razão do I, haha, que acontecera em 1985. Feitas as contas, rapida e porcamente, dei-me conta de que o III havia de ter lugar em 1997, quando já seria um muito cabeludo e livre terceiroanista, que não encontraria óbice a sua expedição ao Rio de Janeiro! Malogro. Como já bem sabem vocês, veio-nos o III em 2001, outra era, outras armas, rosas menos perfumadas. Tal como possível, fui ao banco Itaú, comprei meu ticket pro passado por 30 pilas, e fui ter à cidade do rock. Plena satisfação!

Então, amigo, é por isso que sou pior que um baiano, tão pior quanto melhor se possa ser! Enquanto o carnaval daquele começa antes e termina depois, meu natal já dura alguns dias, e não terminará antes de 10/03/10, quando a montanha retornará a Maomé, ainda que já muito vitimada pela mineração. Pouco se me dá!

Gunner é gunner! Você não gosta? "Foda-se, eu curto Guns n' Roses!" E, "if you're gonna die, die with your boots on", mas de tiros perfumados!

Welcome back to the Jungle, Mr. Rose! Rock on!






















quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Wood stock market!





Quando o atormentado mental (I've been there!) e portador de sofrimento estomacal (I'm there!) Kurt Cobain aportou no Brasil em 1993, recebeu da fifi traquinas João Gordo a provocadora notícia de que seus shows em solo tupiniquim eram um oferecimento dos cigarros Hollywood, "o sucesso", aqueles mesmos que Celso já não pita! O resultado disso foi um sabotado e horroroso show, em que pudemos contemplar, atônitos, até mesmo uma punheta live on stage! Pura degradação moral; quite grunge!


Por aqui, Cobain travou conhecimento com Arnaldo Baptista (the lokiest man alive) a quem deixou carinhosa nota (em livre tradução do jornalista que então a publicou): "Arnaldo, cuidado com o sistema, eles te mordem e depois cospem fora, como a um caroço de cereja marrasquino".


Venho do cinema, onde assisti à nova película de Ang Lee, que aqui se chama "Aconteceu em Woodstock". Bem se poderia chamar "Aconteceu Woodstock", ou "Woodstock aconteceu". O fio narrativo que serve à exploração do tema do histórico concerto traz-nos a vida patética de um jovem explorado por sua despótica mãe judia, dona de uma espelunca feita hotel, perdida entre propriedades agrárias. Um belo dia, diante da notícia de que grande festival fora "expulso" da cidade vizinha, onde se realizaria, o rapaz, que tinha em mãos uma licença da câmara de comércio local, de que era o presidente, para organizar um pacato festival de música, vale-se do documento para atrair os desabrigados promotores de Woodstock.


O arauto da confraternização era um bonito rapaz de cabelos encaracolados, naquilo que pra nós se eternizou como "feições angelicais" ( pra mim em tudo correspondentes à descrição de Dorian Gray). Atrás dele emergiam vorazes empresários em ternos bem cortados, que sugariam os preciosos dólares dos hippies anti-capital.


É muito triste crescer e dar-se conta da completa impossibilidade de contracultura. Não temos o poder de escapar a nada. Dos que escaparam, ninguém nunca mais ouviu notícia. Se chegou a nós, é que já foi devidamente digerido. NO começo dos anos de 1990 as flanelas xadrez invadiram as passarelas de Milão. Em vez de o verem como o estelionato do estilo sempiterno dos habitantes do gélido norte estadunidense, muitos reinterpretaram os músicos norte-americanos então em evidência à luz daquilo, dizendo-0s uns forjadores de estilo. Dai-me paciência, Pai!


Infelizmente, se não os pode vencer, é juntar-se a eles! Isso de vestir camisetinhas do Guevara em passeio pelos corredores da Fafich, até que sua ficha do PSTU (você, que jamais foi trabalhador, nem urbano nem rural!) torne-se-lhe vergonhosa diante dos colegas de emprego bem -remunerado, não tem nada a ver, né!


Enfim, do filme ficou-me a premente necessidade de extrair a poesia que e como se possa do que o interesse dos graúdos nos permite alcançar...


E aqui me despeço embalado pelas ardências de pimentas que habitaram as famigeradas reedições do inesquecível festival:


"Look at me

Can't you see

All I really want to be

Is free from a world that hurts me

I need relief

Do you want me girl to be your thief?@!"

Prefiro os chistes que nos abatem aos bacharéis!

"Ao descer as escadas para o Banco distinguiu ao longe, perto da penumbra de sacristia a cheirar a verniz de unhas do gabinete das assistentes sociais, criaturas feias e tristes a necessitarem elas próprias de assistência urgente, um grupo de delegados de propaganda médica estrategicamente ocultos nas ombreiras das portas vizinhas, prontos a assaltarem de enxurradas palavrosas e por vezes letais os esculápios desprevenidos ao alcance, vítimas inocentes da sua simpatia impositiva. O psiquiatra aparentavo-os aos vendedores de automóveis na loquacidade demasiado delicada de bem vestida, irmãos bastardos que se haviam desviado, na sequência de um obscuro acidente cromossómico de percurso, da linhagem dos faróis de iodo para as pomadas contra o reumático, sem contudo perderem a incansável vivacidade solícita original. Espantava-o que aqueles seres debitantes, sempre-em-pés da boa educação, donos de pastas obesas que continham dentro de si o segredo capaz de transformar corcundas raquíticas em campeões de triplo salto, lhe dedicassem em chusmas atenções de Reis Magos portadores de preciosas ofertas de calendários de plástico a favor dos preservativos anti-sifílis Donald, o inimigo público número um dos aumentos demográficos, suave ao tacto e com uma coroa de pelinhos afrodisíacos na base, de jogos de xadrez em cartolina gabando discretamente em todas as casas os méritos do xarope para a memória Einstein (três sabores: morango, ananás e bife de lombo), e de pastilhas efervescentes que rolhavam as diarreias mas soltavam as rédeas da azia, obrigando os doentes dos intestinos a preocuparem-se com as fervuras do estômago, manobra de diversão com que lucravam os quartos de água das Pedras bebidos a pequeninos goles terapêuticos nos balcões das pastelarias. Os doutores saíam-lhes das pinças ferozes a cambalearem sob o peso de folhetos e de amostras, tontos de discursos eriçados de fórmulas químicas, de posologias e de efeitos secundários, e vários tombavam exaustos trinta ou quarenta metros percorridos, espalhando em redor os perdigotos de pílulas do último suspiro. Um empregado indiferente varria-lhes os restos clínicos para a vala comum de um balde de lixo amolgado, resmungando baladas fúnebres de coveiro.


Aproveitando a protecção de dois polícias que escoltavam um velhote digno com cara de ajudante de notário embrulhado nas lonas confusas de uma camisola de forças, o médico atravessou a salvo o bando ameaçador dos propagandistas a aliciá-los com o canto de sereia dos sorrisos uníssonos, desdobrados como acordeões nas bochechas obsequiosas: uma manhã destas, pensou, afogam-me num frasco de suspensão antibiótica amigdal do mesmo modo que o meu pai possuía, nunca entendi porquê, guardado no armário da estante, o troféu de caça do cadáver de uma escolopendra num tubo de álcool, e vender-me-ão à Faculdade, encarquilhado como um aborto, para figurar no mostruário de horrores do Instituto de Anatomia, talho científico atravessado de Castelo Fantasma, com esqueletos pendurados de ferros verticais à maneira de craveiros murchos a ampararem o seu desânimo a pedaços de cana, olhando-se uns aos outros com órbitas vazias de militares na reserva."

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

"LOCUS MIRACULOSUS"


São Vicente, 22 de dezembro de 2009.



Estou aqui e, mais uma vez, confirmo o que nos disse Nando: "Quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor." ASsim, no melhor interesse da mineiridade, e sem necessidade do recurso bélico, por meio do qual anexaríamos o litoral capixaba; eu agora, com a ajuda da amiga Caró, já escolhi meu presente de Natal. Espero que caiba no saco, Klaus!



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natural que me ofenda a fenda!


Os que já se lançaram à árdua batalha do interesse e de sua expressão, sobretudo os que já nos deixamos estar à margem por longo lapso (estéril lapso!), sabemos todos que há garotas de aparência “dura”. São aquelas que atraem o interesse sem “inspirar confiança”. Não, leitor apressado, não as censure com o material que não lhe dou. Não é que não pareçam fiéis depositárias de nossa confiança, é que não nos inspiram o resgate da nossa em nós mesmos. É o caso do que o vulgo consagrou como “confiar no taco.” Há nisso o tom empregado por aquele compositor que dizia que “garotos como eu, sempre tão espertos, perto de uma mulher são só garotos”.
Outro dia mesmo confessava uma tal fraqueza a quem a recebia com choque desgostoso. Pusilânime? Talvez! Proteção de face? Quiçá! É içar velas e lançar-se ao mar, bravio e incerto como seja, com o risco da procela que, quando não nos “naufraga” nem nos“deriva”, deixa-nos muito mais satisfeitos em viver e atentos aos prazeres que se nos apresentam.
Não me refiro às doceiras. Estas, com aquela essência melíflua e sem essência subjacente, quando conseguem despertar-nos o interesse (qual de nós não foi jamais tolo?!), não conseguem mantê-lo. Seu prazer é deixar-nos com cara de tacho, e me perdoem se julgam que as tacho injustamente, mas considero-o a justa taxa da perfídia, haha!
Em conversa com uma dessas moças de ar inexorável (“você é daquelas que nos dão a impressão de que, seja o caso de nos “rachar”, há de nos rachar ao meio!”), obtive-lhe alguma explicação, idiossincrática embora, do fenômeno. Disse-me que só “encoraja” quando se vê “querida”.
É de se lhe louvar a estratégia econômica. Com efeito, ao não prodigalizar os sinais de seu interesse, poupa-se talvez daquele assédio pálido e sem convicção dos que a ele só se lançam pela aparência de fácil triunfo! Quem precisa desses! Ademais, a seleção natural (essa acidental, se captei bem) ainda a livra dos pusilânimes que, feitas as contas, talvez sejam os mesmos aventureiros, sem, contudo, a nota de interesse que a perspectiva de verdadeira aventura poderia lançar-lhes! Aventureiro sem colhões?! Qual o quê!
Bom, gurias, invistam na estratégia, que parece acertada! Quanto a mim, que já não posso rogar a mamãe que me restaure eventuais escoriações faciais, acho que ainda me protejo um pouco das fendas; mas não se ofendam!
É cantar:
"...meu coração galinha de Leão não quer mais amarrar frustração; Ó eclipse oculto na luz do verão!"

domingo, 20 de dezembro de 2009

Leituras da madrugada: Ex lupus

"O médico escreveu no bloco: cabrão, curtas, compridas, riscou um traço por baixo como se preparasse uma soma e acrescentou em maíusculas Caralho. A enfermeira, que lhe espreitava sobre o ombro, recuou um passo: educação católica à prova de bala, supôs ele medindo-a. Educação católica à prova de bala e virgem por tradição familiar: a mãe devia estar rezando a Santa Maria Goretti enquanto a fazia."

domingo, 13 de dezembro de 2009

Do casamento.








Veio ter-me às mãos o álbum de casamento dos meus pais, o que disparou algumas digressões, a que estive entregue boa parte do domingo. Lembrou-me que o adolescente que era, que vivia sob o ethos do roqueiro contestador, adorava proclamar-se contrário àquela "instituição falida", o pobre do matrimônio.

Durante a Faculdade de Direito, travando contato com os textos que o tratavam, sobretudo com o linguajar que lhe votavam, achei ocasião de reviver a fustigação ao enlace: "Contrair núpcias? E desde quando se contrai o bom?" Se não muito me engano, até já me vali da expressão em não muito antigos acessos de misogamia.

Essas coisas são das mais engraçadas. Confesso ter vertido uma lágrima discreta enquanto digitalizava o álbum, com o firme propósito de distribuir cópias aos muito justamente saudosos de minha mãe. Arrebatou-me de tal arte aquela arte simples, que cheguei a "publicá-la" no orkut, e agora não faço senão inscrevê-la aqui. Vai saber!

Aquele jovem Pádua que firma tão firme o livro da igreja, cujo nome desconheço, era mais jovem que sou, e não por pouco, por um lustro! A experiência abalou-me em minha misogamia, que já não lustro.

Recentemente tive o ensejo de "casar" uns cinco amigos; de dois fui padrinho, de um, simples conviva, de dois.... bom, de dois perdi foi o ensejo. Em justificativa e em galhofa do último ensejo desperdiçado, disse a alguém que não fui para não bancar o Ben Stiller de "Antes só do que mal casado": "Não há engano, senhor! Aquela não é a mesa das crianças, mas a dos solteiros!"

Caramba! Ao que consta isso de ser balzaco é meio estranho, hein! Mas não chega a ser o que parece ser "ser uma balzaca", das que se devotam ao "casamento ele mesmo", quiçá em detrimento da observação de circusntâncias que o poderiam tornar viável na longevidade.


Ah, mas vá lá! Minha relação com a coisa é conturbada. Acho que procuro a nascente e depois a aterro, aterrorizado! Acusam-me de sabotador de relacionamentos, colecionador das vicissitudes que se unirão em amálgama destrutiva do que se erigia. Será? Quando me debrucei sobre a coisa cismei: Mas por quê me entregaria à sabotagem, se crescido sob um tão encantador exemplo do conjugal? Ofereceu-se-me incômoda conclusão, a de que talvez eu procurasse a nascente justamente pelo feliz exemplo, e fosse a minha natureza, que a ele não se ajustaria, a força motriz do aterrorizado aterro! Não sei.

Encerro essa digressão com as desculpas de quem neste semestre não teve tempo para o analista, que não sei se conserva esperanças de rever-me. Ah, mas se sou analista de profissão e por empenho acadêmico (ah! Eleições e discursos!) talvez me possa bastar, né! Não acabamos de nos entender jamais! Já o sabia Kundera quando pôs na boca de Tomas a reflexão de que a vida não poderia valer muito, se o ensaio da vida já é a própria vida. Estamos condenados a queimar a largada! Ah, é largar!
Vou-me embora a cantar em eco do bom gaúcho:
"Sei que parecem idiotas as rotas que traço, sempre tarde da noite.
E se ando sempre apressado, e se nunca sei que horas são,
É porque nunca se sabe até que hora os relógios funcionarão.
Sem dúvida a dúvida é um fato.
Sem fatos não saem os jornais.
Sem saída ficamos todos presos
Aqui dentro faz muito calor
Sei que parecem idiotas as rotas que traço
Mas eu traço meus rumos eu mesmo, a esmo.
E se nunca sei a quantas ando, e se ando sem direção
É porque nunca se sabe, é porque nunca se sabe!
Nem sempre faço o que é melhor pra mim
Mas nunca faço o que eu não tõ a fim de fazer..."




PARAGONANDO: Russo Mercury



"EACH MORNING I WAKE UP I DIE A LITTLE..."


"TODOS OS DIAS QUANDO ACORDO NÃO TENHO MAIS O TEMPO QUE PASSOU..."

sábado, 12 de dezembro de 2009

Médicos com fronteiras





Há não muito tempo conversava com meu irmão, que acabara de ser atendido por um médico. Acho que se quisesse reproduzir melhor o contexto segundo a visão do mancebo deveria ter escrito "atendido". Questionava a frieza da classe. "O cara nem colocou a mão em mim, não levantou a cabeça nem nada, pediu uns exames e pronto!".


Na semana seguinte, numa excursão dessas pra show em solo carioca, conversava com um médico jr., desses que só fazem plantões e "curtem a vida", postergando a chatice mal remunerada da residência, e ele reagiu: "Nossa, as pessoas são tão carentes, né! Querem que a gente toque nelas!"


Confesso que por um tempo estive mais propenso às opiniões fraternas, acusativas da pouca fraternidade médica. Não me mereceu muito crédito a fala do doutorzinho, em desdém afrescalhado.


Hoje, no entanto, conversava nos corredores pós-graduandos com uma colega, que me contava algo sobre outro fugitivo da residência. Não me lembro muito bem dos detalhes desse tópico, pois a importância de outros sobrelevava. Sei que lhe disse, já em defesa dos meus antigos alvos de trajes alvos, que não lhes podemos censurar a reputada frieza.


Ora, um médico que, diuturnamente, ocupa-se em transmitir diagnósticos sinistros aos entes queridos das vítimas da má fortuna física não pode ter elevados graus de empatia. Como disse o bom gaúcho em outro contexto, "quem não fica frio fica fraco". Aquelas famílias receptoras dos maus agouros vão plangê-los por dias, talvez semanas, talvez até meses, e superá-los. Já o empático médico que os distribuirá seguidamente, viverá para sempre as nossas chagas. Cada um com suas dores e eles com as inesgotáveis dores do mundo? Acho que não, violão!
Se bem que "que não sofra, mas dê um toque, ora!"

sábado, 5 de dezembro de 2009

EX LUPUS - "Chovendo por dentro, impossível por fora"

"Eu me lembro de você ter-me dito alguma coisa sobre mim.
E logo hoje tudo isso vem à tona e me parece cair como uma luva.
Agora, num dia em que choro, eu tô chovendo muito mais do que lá fora!
Lá fora é só água caindo,
Enquanto, aqui dentro, cai a chuva!"


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Da pena da galhofa e da tinta da melancolia. Dá pena da galhofa...

Segundo ROUANET, os autores clássicos concebiam dois tipos de riso: o patológico, sintoma de insanidade, e o medicinal, que poderia purgar o corpo e a mente dos humores melancólicos.
Hoje tive oportunidade de ver, e de tomar parte, pra ser sincero, no triste espetáculo do riso medicinal a zombar do patológico. Parecíamos ter todos feito o juramento de Hipócritas, que não é nenhum célebre grego. Não há nada de medicinal no nosso riso escarninho, que mais mata que cura. Purgamos nossos humores melancólicos contribuindo para prender alguém num purgatório que não se resolve entre o paraíso e o inferno.
A loucura, parece-me, tem sua cota de poesia e, como tal, de solidão. O poético não é o mais propriamente compreensível. O humano? Já ouvi falar...