domingo, 30 de novembro de 2014

Valei-me, Ananadas!

Aos Ananadas, com amor.


Estou de volta à minha cela,
à minha parcela de mundo.
Escolhi as imagens nas telas,
escolho as canções de fundo.

Escolho que poesia me enleva,
meu "fiat lux!" faz-me trevas.
Tudo escuro, me descubro
bem próximo a mim.

Não há ninguém por perto,
e não estou bem certo
de que prefiro assim...

Recarrego as baterias,
mas sei que jamais teceria
a perpétua solidão.

O amor me espera é no mundo!
E é preciso enfrentar o tumulto
que as pessoas fazem no meu coração.

E quem disse que é melhor isolado?
Se o disse antes, me calo.
E me preparo para a comunhão.

"É impossível ser feliz sozinho",
e até o sabem os poetas tristinhos,
mas soa melhor na canção.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

DESPORTO

Os poetas jogam pérolas aos porcos,
são navios sem portos,
ou portos sem capitania.

"Larguem do meu braço!", disse um grande.
"Que maçada! Eu não sou da companhia!"
E não o sendo não entendo pra quem faz sua poesia.
Dizem que sempre resta a mãe,
ou, na sua falta, alguma tia...

Mas poesia não se faz porque se dá,
mas se faz porque se deu.
Não se sabe ao certo de onde sai,
e talvez saia mesmo de Deus!

Então não importa muito pra onde vá
depois que o distraído a leu.
Deus se derrama no que há,
mesmo que só haja ateus!

Então que seja feita com fervor,
ou só de dor, ou do nada!
E só quando não houver mais o amor,
só nesse dia a poesia acaba!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

ME ARRANJO

Todos os dias sou parido,
e pasmo: Que mundo é este que me tem acontecido?
E vêm-me dias surpreendentes:
"Nem tentes! Não há abrigo!"

Não há como proteger-se
dos efeitos da rotação da Terra.
E o dia se dá por inteiro,
numa conta que nunca erra.

São vinte e quatro horas, é certo.
São vinte e quatro horas, exceto
as horas que você durma.

Ou talvez nem adiante dormir,
porque os sonhos tidos assim
são um tempo vivido em penumbra.

Então crio forças pro dia
(Eu as crio, porque não as tenho!)
E porque forças puras não me rendem,
eu as ponho a serviço do engenho.

Porque trafegar pelo mundo
é pura decifração.
E a cada passo, atento, depuro
as notas da estranha canção.

Mas, em que pese o tumulto,
parece às vezes tudo tão perfeito,
que não me resta pensar sobre o mundo
senão que não é acaso, foi feito!

E já que do mundo não me evado,
vou trilhá-lo de pauta na mão.
Pra ver com que arranjos me conserto,
ou se me concerto com a composição.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

COSMOZINHO

O amor é um microcosmo da vida:
nasce, cresce, reproduz ou não, e morre.
(Às vezes suicida!)
É criança desvairada, de tutora infanticida.
Se alimenta do que vê,
come do que não precisa.
Não se joga pra vencer,
não precisa de torcida.
Seu destino é a expansão,
nasce mola encolhida.
Atinge o cético e o crente,
quem o sente não duvida!
E que pessoa em sã consciência
não sonha em ser atingida?
Não precisa de campanha,
não se vale de comícios.
Tem potencial pra guerra,
mas maior pro armistício.

O amor é a semente da paz,
só não sabe quem não faz!
E eu, o que faço?
Me consinto!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

AMATURUS II

Para Cintia Costa.
E para nós.

Amaturus, o futuro está maduro!
Colha a fruta do pé,
não a espere ser coisa chã.
(Não machuque as frágeis costas da anciã)

Amaturus, também a sorte é frágil,
é preciso que seja ágil!
E não é ágil o que espera.
(E a felicidade... é a da Terra!)

Amaturus, que tanto pensa?
O crime nem tentado não compensa.
Ninguém quer ser, é certo, condenado.
(Mas acaso não te tenta a recompensa?)


Amaturus, não hesite!
O futuro nem existe!
É vencida, há já muito, a infância!
(E também se abusa da esperança...)


Amaturus, já não há prazo!
Não há sentido em poupar o seu bocado.
E nunca se esqueça do que digo:
Só amando se é amado!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

#hodierno

Lá vai a moça, carente.
Coração na mão, 
como batata quente.
Oferece-o ao ateu,
oferece-o ao crente.
Mas não são tempos de fervor
(para nenhuma gente!)


O tempo é o da solidão,
mesmo aquela acompanhada.
Tem-se todos na mão,
e não se tem nada!

Tinham mais conexão
o vovô e as cartas.
Quando do Turcomenistão
não se sabia nada.

E quem entende os macetes
dos tempos modernos,
em que se está de longe
mesmo se estando perto?

Melhor era o desfile alegre
pelo passeio público,
que as moças tinham esperança
que as levasse ao púlpito.

Onde o padre, inspirado, proferiria,
ora escravidões, ora alforrias,
misturando (quase sempre) 
o lamento e a alegria.

Mas não esteja a moça combalida,
estes são tempos de festa!
Jamais antes se viu
tamanha oferta!

Muita gente estrepitosa,
num mercado em expansão.
(Há órgãos muito mais prementes
do que o coração!)

Adapte-se já! ESqueça o lamento!
Não há mesmo como voltar no tempo!
O que houve outrora já não existe,
e só nos resta perfilar a alegria triste!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

BELA ADORMECIDA (Ella 2)

Espetou o dedo na roca,
e quer dormir por cem anos.
E quem sabe pra mim não é melhor
que a moça me vá sonhando?

Se me sonha me conserta,
e fico super ser humano.
E protege seus frágeis ouvidos
dos concertos que dou se me banho.

Mas se não me ouve não me entende,
e nossos "nós" não desatamos.
E quem é alguém no mundo se não se desata?
Em riso, ou o tino, ou mesmo o nó da gravata?

O melhor é que esteja desperta,
pra de perto nos despertarmos
tudo aquilo que, sem coragem,
só haveria num mundo sonhado.

E o mundo é melhor pra quem o habita,
pra quem o fita e se dá por achado.
E talvez seu  mais fino segredo
seja saber o que deve ser procurado.

E se os olhos lancei
a cintilantes cinderelas,
nela devo tê-los pousado.

Rico mundo, fecundo,
o do sonhador profundamente acordado.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

BORBOLETREO

com Erick Leite


Borboletras, porque era preciso renovar.
Nenhum homem foi feito de barro,
mas de Barros até se pode pensar!
Viveu (vemos!) a forma plena;
agora vai, Manoel, ser poema!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

NEM BEM, NEM MAR

Olho e oro pro mar;
ora calmaria,
ora procela,
mas a próxima Ela
eu não deixo
(prometo!)
escapar!

Olho, oro e desatino:
"Quem não vai lá pro mar bravio,
não sabe o que vai achar".

= : )