segunda-feira, 24 de julho de 2017

TRIUNFE (Luísa)

com Clarice

Ele não está, Luísa!
É inútil essa busca.
Seus timbres,
seus papéis timbrados.

Tudo está anulado!
Foi-se!

Foi buscar outro espaço,
foi ambientar-se.
Retirou sua ausência,
já antes tão presente.

Luísa, se contente!
Ouça o jardim lá fora.
O mundo é todo seu
e excede esta sala.

Luísa, 
o mundo não se compara!
Viver não tem paralelo!

Luísa,
um Jorge não vale!
Não vale um Marcelo.
Um Túlio tolo, Ladislau, 
nada Luísa!

Nada será igual!

Luísa, não procure agora!
Luísa, ele não está lá!
Ache-se, Luísa!
Luísa, você é que está!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SÓ EM JOÃO PESSOA

Na maior parte do tempo
estou só em João Pessoa.
E bem por estar só.
É uma conquista!
Foi trazer para o litoral
minha solidão esquisita.
A mesma que já passeara por São Paulo.

Mas São Paulo,
sempre grande e outra,
já era um pouco conhecida.

Minha solidão é entrecortada
por alguma companhia.
De vão em vão me vêm à mão
meus amigos da Paraíba.
Os que só aqui encontrei
e os que já entretinha.

É um amor.
São amores!
Como disse um guru,
sorrirei de cada dia em que despertar.
É um renovado privilégio
o de se melhorar.

Na maior parte do tempo
estou só em João Pessoa.
Mas quando estou mais só
é quando fito o mar.

Imenso, cálido, convidativo,
recebe-me com sinceridade,
mas fica claro que não posso ficar.
Não sem arranjos:
nadadeiras, barbatanas.

O mesmo para João Pessoa:
recebe-me, afaga-me,
mas me mostra o caminho para o Castro Pinto.

Ela tem os paraibanos,
tem os pernambucanos incorporados.
E o mar tem sempre o céu bem junto.

Na maior parte do tempo
estou só em João Pessoa.
Mas quando estou mais só
é quando avisto um casal,
num pedaço só deles de mar.

Abraçados, molhados,
ela dando pinta de que sem ele iria afogar-se,
mesmo se ali dá pé.

Eu quero apenas dar pé,
dar pé antes de partir.
Emprestar ao humano, 
aos homens,
toda esta minha fé.

Haverei de amar tão só
quanto como em João Pessoa. 


João Pessoa, 27/5/2017.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

LIMA (Candeia)

Existe um belo,
mais belo que um verso,
que diz que uma vela acesa
acende outras mil sem se apagar.

Não se envergonhe de se escorar,
um pouco, em quem está bem.
Não há mal algum nisso!

(Talvez estejamos até
saldando algum compromisso!)

Tudo que nos foi dado,
foi-nos dado por empréstimo,
e tudo em atenção aos outros.
Se o seguirmos, está dito,
o mais nos virá por acréscimo.

Toda fortuna,
o dinheiro ou a alegria,
é destinada a seu irmão.
Esta é uma escola de fraternidade,
não há outra destinação.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CABO BRANCO (Mar e Amar)

Vou lembrá-los,
antes que o tempo me acabe,
de que mar e amar
são milagres!

Ambos são a verdade,
e são ambos imensos.
Ambos serenidade,
em ambos às vezes tormento.

Ambos nos ensinam, 
portanto,
que é preciso ter confiança.
Ambos revelam em nós
o nobre dom da esperança.

Estão ambos sempre vivos,
ambos nos atingem.
E quando nos acostumamos
nenhum deles nos aflige.

Penso que em tanta alma
está a assinatura de Deus.
Porque há um encanto dado
que nunca se prometeu.


João Pessoa, 24/5/2017

terça-feira, 27 de junho de 2017

SORRI, PEQUENA!

Para a triunfante Letícia M. Pizato
 
Distraiu-se o anjo,
ficou enferma a pequena.
Sempre um susto pros pais
(só um pai sabe o que pena...)

Correm médicos com exames,
testam a medicação.
E a pequena nem se dá conta
de tamanha comoção.

Desconhece perigos,
ela é toda coragem.
Basta ver mamãe ou papai
e se instaura a tranquilidade.

É uma pequena Alegria,
que guarda alegria imensa.
Eu, quando vi que sorria,
vi que a felicidade compensa.

Sorri sem freio, pequena!
O caminho é longo e as alegrias, muitas.
Confia que as mãos que a seguram
são as mãos dos seus velhos juntas.

Sorri à larga, pequena!
Que todo sorriso é um lume.
Faz, sem ver, favor ao mundo
e com que seus velhos se aprumem.

Sorri confiante, pequena!
Que o sorriso é o anúncio da vitória.
E desconfio que seja uma dica
para se compreender a Glória.

Sorri, pequena!

terça-feira, 20 de junho de 2017

EM JOÃO PESSOA

A noite cai, 
o sol se levanta,
e eu rio!

Eu, rio,
corro para o mar!

O mar é quente.
O mar é qual gente:
tudo questão de saber entrar.

Que defendam que mar é tudo igual,
vai-lhes doer.
O certo é doar-se.

Nesta quarta-feira
o verde quer ser azul,
elevar-se!

O azul quer ser verde,
aprofundar-se,
eternizar-se em marulhos.

As nuvens envolvem o horizonte
de fora a fora,
tarde adentro.
São um convite para a maciez
sabidamente salgada da espuma.

É uma dica para quem a recolha:
os matizes são mais delicados
do que os veem os ditados.
Eu já disse:
E quem gosta de ditados?!

A tarde é toda uma liberdade
e, do meu jeito próprio mas já tão divulgado
amo João Pessoa!

E não nego nada,
ainda que à tarde e sem testemunhas.
João Pessoa só tem uma!,
até que eu lhe volte.

Anote:
Até que eu lhe volte!

João Pessoa, 24/5/2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

SCRIPTOR

Quem escreve por necessidade
mas logo toma gosto
é tomado pelo medo de que a palavra lhe falte.

Medo de que nada o arrebate,
ou de que não lhe saiba dar expressão,
perdendo a chance do alívio.

O verso
(e também outras linhas)

é como um grito.
Dá eco à alegria,
dá fim a conflitos,
desvenda segredos,
ilumina a essência.
Protege do vazio
e nos alça à consciência.

E a consciência é um exercício.
Parece-me que seja algo que se pratique,
não algo que se seja.
Algo que desperta
mas às vezes boceja.

E se o sono é,
de certa forma e como já o disse,
uma morte interina,
a consciência  não resiste
ao que assim a elimina.

Mas se a morte é um transporte
o sono desdobra-se numa espécie de sorte,
numa forma de aprofundamento.
Ele é uma eternidade de diferente dimensão.

Cerram-se dois olhos
ou apenas olham para dentro,
como dizia o vovô Major.
Eu nem sei se se dava conta
da extensão do que dizia.

Dois olhos em compromisso
de olhar pra dentro,
e um terceiro, na testa,
bem aberto!

Abro-me pro manifesto:
nada termina onde tudo começa!


(CNF-JPA, 20/5/2017)
 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

À MULHER

Para a semana das mães/2017, do TRE-MG


A mulher não é da costela.
A mulher não é só do frevo.
Há mais razões na mulher
que qualquer razão que eu concebo.

Foi preciso uma mulher
pra que eu viesse a ser homem.
E também devo à mulher
se me chamam por meu nome.

Diziam que o feminino era o coração,
como se o coração fosse miragem.
Mas esqueceram que o coração
é o próprio centro da coragem.

O filósofo disse,
e disse como coisa patente,
que o homem nasce livre
e por toda parte depara correntes.

Esse "homem" é o ser humano,
pois foi sempre o mesmo com a mulher:
Assim que nasceu, forte e livre,
viu atarem-se-lhe os pés.

Impôs-se a força bruta,
a vantagem corporal.
A um ponto de ser impuro
estupro de sua moral.

Mas o forte nunca é vencido.
A coragem não se derruba.
E onde houve pilhagem
não tardou nascer a luta.

Mulheres feitas mulheres.
Mulheres de sua seita.
Mulheres indignadas,
e não apenas contrafeitas.

Mulheres desejosas
de assinarem seu contributo.
E de superarem a indecorosa
posição de apenas tributo.

Porque tudo que pode "o homem",
pode-o o ser humano.
Também pode, portanto, a mulher,
haurida do mesmo plano.

E se há (e há!) diferenças,
elas nos fazem complementares.
As cooperações e concertos
são medidas salutares.

Mulher, seu nome é luta!
Mulher, não se aflija!
A todo tempo a labuta
transmuta-se em conquista.

Toda força à mulher!
Toda força ao gênero humano!
Da hora de subir
até a hora de cair o pano!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

NERUDO

Viver é fácil:
Você começa com um choro agoniado
e termina com um sorriso suspirado
se deu-se conta,
no itinerário, 
que era de amor o tratado.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CABO BRANCO

Vou lembrá-los,
antes que o tempo me acabe,
de que mar e amar
são milagres.

terça-feira, 16 de maio de 2017

D'UM

Dispenso elites
e grupos seletos.
Quero ver gente mesmo!
(e de perto!)


Não sou favorito,
não sou o predileto,
mas sou seu amigo
dileto!

Não nos cingem louros,
não nos cercam muros.
(A luz só se nota

no escuro!)

Esqueça o janota,
é sempre obtuso!
E o esquema de castas,
confuso!

Seja sua lei.
Seja suas regras.
É tão vasto o mundo!,
e tão fortes suas pernas!

Perlustre-se e
se arquitete!
Esqueça o ilustre
perliquitete.

Apascente-se.
Aquiete-se.
Conheça-se 
e o mais

se esquece!

sábado, 13 de maio de 2017

CAETANO



Meu querido Caetano,
ouvia "O Quereres" no trânsito.
Vim pensando pro trabalho que
"Eu sou mesmo muito grato
por ser-lhe contemporâneo!"

Mesmo se apenas pela franja da encosta.
Mesmo se não por todo o meu tempo.
Meu tempo, senhor tão bonito!,
também é tempo que se esgota.

Não sou anjo.
Não sou mulher.
Não sou alegre, triste, poeta.
Mas em você sou o que eu quiser.
Pouco me importa ou afeta
o podre poder dos homens
que não nem são tão homens assim.

Caetano insano tão lúcido,
vejo disso o fruto em mim.
Faço o luto da lucidez
que não for fermento mas fim.

Caetano, te vejo o garbo
perigoso de ser leonino.
E o pratico com o cuidado
que em Santo Amaro aprendi menino.

Eu gosto do mesmo preto que você,
porque gostamos dos pretos todos!
São todos baianos, todos africanos,
todos as cores todas do humano!

Não há lobo que te fira,
nem se grande, nem se pequeno.
Caetano, você é do meu sangue.
Não se importe com os venenos!

Tão bom filho!
Tão bom irmão!
Reconvexo, recôncavo,
amor do tipo Vulcão. 

Caetano se nos ilumina,
e às moças, moços, poetas.
Alegria, Alegria, Alegria!
Caetano é a alma da festa!

Caetano viu o Carnaval,
deu seu aval ao bem.
Bem embalado, ladeira abaixo,
chuva, suor e cerveja também.

É cantar o sol que desce.
É cantar a lua que sobe.
E cantar o povo humilde,
canto do canto mais nobre.

Consagrar esquinas à eternidade,
louvar a beleza da mulher.
Apreciar também o surfista,
que toda onda tem seu revés. 

Caetano, eu nem tempo tenho
pra cantar o que você é,
mas aceite os beijos e abraços
deste que tão bem te quer!

Infinitivamente pessoal!




https://www.youtube.com/watch?v=h5ruY3Dt10c

sexta-feira, 5 de maio de 2017

TÂMARA

Aos mistérios...


Efêmera tâmara,
câmara do meu prazer.
Fugaz cintilação,
indelével permanecer.

Fui a terras longínquas
para tropeçar em você.
Encurtou a noite escura,
pra sempre prestes a amanhecer.

Tâmara!
é a flâmula do meu bem querer,
que desconhece tempo e espaço,
tudo no encalço de te conhecer.

Sinto uma alegria funda,
que contamina a superfície.
Tâmara, eu sei que você existe!
Só não tem nome,

como em Clarice!...

domingo, 30 de abril de 2017

BEL PRAZER

Belchior, meu Nietzsche, descansa em paz!
"Eu não tô interessado em NENHUMA teoria. Amar e mudar as coisas me interessa mais".

D'ONTEM D'AMANHÃ

Ó distante delivramento,
traz-nos nosso rebento!
A vida pode ser dura,

mas menos se em contentamento.

Esse futuro tão claro
terá anos de dependência.
Mas nos vem do passado,
iluminado em sapiência.

Alguma coisa escondida
no mais recôndito de mim
diz-me que vem em concurso,
pra que então eu entenda meu fim.

"A que estou destinado?",
dedico-lhe meditação.
Mas talvez só o enviado
saiba ver-me o coração.

Descenderá de mim,
que sou seu descendente.
É uma espiral complicada
(verdadeiro novelo de gente!...)


"O menino é pai do homem",
disse um dia o Sabino.
Quis dar-lhe outras cores,
e dou-lhe o mistério do destino.

Então até ontem!,
vou aproveitar a manhã.
Dedicar parte do presente
a me lembrar do amanhã.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

GRATO

Obrigado, Pai!
Por ter posto
em minha vida as pessoas certas!

(As certas certas
 e as certas erradas.)


Obrigado ela limonada,
e por poder ser adoçada.
Obrigado por ter tido tempo
de saber o que é um rancho.

Obrigado por ser este
que de tudo me encanto!

Obrigado por meu canto solto
desde meu canto que não me prende.
Obrigado por ser este ser,
eterno no que aprende.

Obrigado pelo sorriso,
e por poder distribuí-lo
sem que me alcance o juízo.

Obrigado pelo escorpião
que vê pessoas e ambientes.
Obrigado pelo aquário
de se nadar racionalmente.

Obrigado pelo Leão e o garbo
de um imenso coração.
Obrigado por ser obrigado
a perseguir a evolução.

Obrigado por tanta estrela,
tanto mar, tanto sotaque!
Obrigado até pelo que sou
sendo-o apenas de araque!

Obrigado pela música,
e por ser, de tudo,
o mais puro que se escuta!

Obrigado por ser viajante,
e por ser viajor.
Obrigado pelos anjos
me acompanharem em meu andor.

Obrigado por saber amar
mesmo onde o amor não chova.
Obrigado por me espalhar,
hoje sem que eu me exploda.

Obrigado por ser grato!,
grata surpresa da experiência.
Obrigado por ter despertado
para que nem tudo pode a ciência.

Obrigado por meu corpo
ter descoberto a tempo o espírito.
Obrigado! Obrigado!
"Obrigado!" para sempre eu repito!

segunda-feira, 10 de abril de 2017

C'ALMA

Namoros nunca os tive longos,
talvez justo porque intensos.
A água animada de vida passa,
a parada é repousado momento.

É como já ouvi dito,
perigosamente, sobre os roqueiros:
que "não vivem pouco mas rápido",
que escorrem sem qualquer bloqueio.

Não faço defesa da fúria
que lhe pode custar a vida.
Escolha bem a tertúlia,
a modalidade da alegria.

Tendo chegado intacto
a esta minha sobrevida,
recomendo algum recato,
o recato da calma bem-vinda.

Todo trajeto é ensino,
a senda é toda lição.
Mas consciência não é improviso,
é lenta dilatação.

Então faça por viver muito,
para ser de si o melhor.
Porque romantizar o tumulto
é coisa de fazer dó.

terça-feira, 4 de abril de 2017

ESCOLHO E COLHO

Já não quero o que me faltava.
Já não acho o que procurava.
O que procurava morri.
O que sobrevivo sorri.

Estou sequioso de poder.
Nada sobre os outros,
tudo poder!

À frente a imensidão!
Nenhuma âncora do que alcanço.
Apenas a necessária
a meu eventual descanso.

Tudo posso no que me fortalece!
Do que me enfraquece dou-me alforria.
Já cheguei ao futuro,
tudo claro, nada escuro.

Somente a sombra administrável.
Sou-lhe consciente mas amo sem travo,
sem travas.

(Uma redonda cara limpa
mesmo sob barba)


Escolho a direção,
e só elejo a que faz sentido.
A ninguém é dado fazer nada comigo!

Acompanham-me os que podem,
quando e se querem.
O amor só é se é nado,
não é nada por que se espere.

Impende viver o dia,
e o dia independe.
Se o dia foi tudo que pôde,
certeza que a noite é quente.

Ninguém fará inverno de mim,
ninguém me verá no inferno.
Frio só pra que me recolha.
Frio quando eu escolha.

Sei dos anjos que me acompanham,
que são de mim e serei eu.
Sei-os muito bonitos,
mesmo se o torto me esqueceu.

Hoje vejo que foi coisa boa,
não me predestinou a nada.
Sigo sendo a partir do mesmo,
no que já era minha estrada.

Minha estrada é esta.
A minha estrada foi feia!
Minha estrada foi refeita.
A minha estrada é bela!

Eu escolho!
Não, não franza o sobrolho!
Não é apóstrofe a Deus!
É dado melhorar-me,

de mais a mais filho Seu!

Agradeço a companhia de vocês,
enquanto estamos em sintonia.
Mas meu pai disse e "a vida chama",
então até qualquer dia!

E lhes direi antes do féretro:
não chamem nada de seu.
É tudo apenas empréstimo
que Ele lhes concedeu...a vida!

Divida!

https://soundcloud.com/user-580381287/escolho-e-colho

domingo, 2 de abril de 2017

UM SÓ

Estou no escritório ouvindo o primeiro disco dos 1001 que se recomendam para ouvirmos antes de morrer. (É importante que seja antes, pois sem ouvidos dificulta-se a coisa...). Sente-se em Sinatra aquela tristeza já apropriada de quem separou-se de Ava Gardner. Bom disco! Sobretudo porque te poupa do sertanejo, que jamais penetraria esta sala ornada de Beatles, Drummond, gracejos poéticos de uma ou outra canção popular e uma ordem expressa para eu me expressar.
Venho de um show de rock familiar. Apenas os familiares da banda, que tocou em sua própria sala ( a sala da mãe de dois deles) e poucos amigos, entre os quais me contava. Muitos primos, muitos com suas próprias famílias, mulheres, maridos, filhos e filhas. Eu gosto desse ambiente, dessa atmosfera, mas percebo que não preciso que seja eu o responsável por ela. Sou diferente porque sou igual a todos aqueles que são diferentes. Somos iguais pra cá! A única coisa 24/7 (in english...), de perpétuo funcionamento que me atrai é o mar! E mesmo dele gosto de me despedir para o reencontrar. É!... Deixa tudo como está!

segunda-feira, 27 de março de 2017

LEVE (,) MERCÚRIO

https://soundcloud.com/user-580381287/leve-mercury

Queria gritar nesta madrugada,
só perturbada por um Freddie Mercury soft.
Queria gritar mas não tenho sorte!

Estas paredes de condomínio vagabundo
são como de papelão.
Mas não sou um ingrato,
prezo muito o abrigo que me dão.

Amanhã vem o marceneiro
tornar em móvel o que é estanque.
Vem Daniel por prateleiras
no quarto de visitantes.

Uma estante num instante de quatro horas,
jornada de estagiário 
em que lerei a vida de Rita Lee.

Mais uma amostra
(já tive tantas...)

de como o sucesso deve se sentir.

Eu, esquecido aqui,
nem meus amigos me dão o cartaz
que quer minha falta de humildade.

Salvo se o formal o pede,
que tampouco estou jogado às traças.
Traçam meu destino astros
de que pouco ou nada sei. 

(Dizem uns que sabem tudo
sobre como me comportarei...)

Eu me recuso a achar que Deus,

tão bom e bem humorado,
não me tenha deixado
lacunas para alguns cacos.

Eu improvisarei!
"Improvements, you know?"

Não posso reprogramar a coisa toda,
não saco nada dos numéricos programas.
Acho que já nem saco
dos programas que pedem cama.

Estou pesado!
(Isso também foi acertado?)

Tenho de estudar melhor os movimentos,
isso me torna um atento.

E me terá despertado?!,
dormente por todos os lados?
Dor mente e deve ser superada.

A verdade é uma conquista!

Amanhã meu móvel é a vista
do saber compartimentado:
poesia, obras em língua estrangeira,
o legado da Letras (melhor companheira!):
análise do discurso, teoria da argumentação...


Filosofia, espíritas,
biografias, musicais,
os herdados da mamãe
(a seção que mais me atrai!)


Dá pra fazer uma de obras completas,
troféu que nunca erguerei mas não lamento,
ninguém vai!

Muito nos falta ainda pra atingir a angelitude.
Decerto não partiremos
desta velha decrepitude.

Leio e escrevo tanto!,
e não me basta para alcançar...
O estatuto há muito está pronto:
amar, amar, amar!

Mar, terras,
tudo em equilíbrio.
Eu também ondulo e tremo.

Eu também devo estar vivo!

Então grito na madrugada,
pouco me importa o papelão!
Os vizinhos que gritem comigo,
não têm outra destinação.

Só no amor há abrigo,
não há mesmo outra opção.
"Under pressure", sublime,
alivia-me a pressão.


quarta-feira, 15 de março de 2017

DISTRIBUTIVA (Edital)

A Pepa Mujica, o sóbrio.

Faz caridade!
Não é tarde!
Parece atrasar-te,
mas o que te adianta!...

Se almoço um pouco menos,
alguém ganha a chance da janta.
Não existe melhor maneira
de diminuir-me a pança.

Se compras um carro mais simples
(será preciso que tantos te olhem?!)

pode ser que descompliques
como outro se locomove.

Tudo o que desperdiçamos,
por preguiça ou vaidade,
pode ir a bom fogo se atiça
a chama santa da oportunidade.

Segundo disse o Senhor
ninguém vale pelo que tem.
Melhor valer pelo que sabe,
e nesse caso é melhor valer

por saber ser dado à fraternidade.

Todas as forças que conservas
por delas não seres doador,
podem ser forças de trevas
em que te internas como devedor.

Quem não tem dinheiro tem um abraço.

Quem não tem braços pode dar um sorriso.
E quem sorri (isso eu garanto!)
faz no mundo um mundo de amigos.

O poema é mesmo simples,
porque em simples intenção.
Espero que te seja um convite,
pois vai servir-me de inspiração. 


quarta-feira, 8 de março de 2017

MINHA MÃE (Uma mulher)

https://soundcloud.com/user-580381287/minha-mae-uma-mulher







Minha mãe era tímida.
Ou era "tímida nada!"
Ou talvez, como se disse Clarice,
fosse de uma timidez arrojada.

Minha mãe ia adiante
(era em tudo muito adiantada).
Minha mãe, no susto do encontro,
enchia a timidez de palavras.

Minha mãe era cética,
não tinha a certeza de Jesus.
Talvez, naturalmente ética,
pudesse prescindir da cruz.

Não estava certa nem de Tiradentes,
que dirá de Sócrates!
Platão podia tê-lo inventado
(que filosófica sorte!)

Minha mãe era grande leitora,
obras pequenas e grandes.
Até a menor grande obra:
era leitora de homens.

Até de seu pequeno filho,
rebelado contra a lucidez.
Minha euforia, meu enfado,
tudo via com nitidez.

Minha mãe era Flor que se cheirasse,
flor de nos deixarmos entranhar.
Se não entranhasse o cigarro
o câncer não a ia apagar.

Mas fica o lindo exemplo
do bem-viver a bem.
Essa é a vida mais plena,
pouco importa vivida com quem!

Minha mãe é daqui e de Galápagos.
Da África, França, Ásia.
Só me cobre a esperança,
nunca me cobriu a mortalha.

Seja-se!
E será verdade!
Ainda bem que esse exemplo eu colhi,
antes que fosse tarde!

quarta-feira, 1 de março de 2017

SAPUCAÍ

https://soundcloud.com/user-580381287/sapucai


Deixei a minha alegria corrente,
nas contentes Minas Gerais,
e fui achá-la diferente,
em uma terra que muito me atrai.

A alegria de estar no Rio,
tão já prenhe de lembranças,
mas tão rico de promessas
que é sempre nova infância.

Passei batido pelo velho Chico,
batente e batucado pelo Cartola,
e fui desencavá-lo, mais antigo,
o Noel, de tão boa história.

O Noel de cujo queixo fugi
para fazer-me mais vistoso.
mas é o Noel em que refulgi,
tomado de gosto pelo de seu povo.

Azul e branco, 
cores do céu.
Azul e branco
de Vila Isabel.

E cantando a música!,
o mais nobre enredo.
Cantando-a em música
de muito desvelo.

A concentração é pena,
as pernas ainda me ardem!
Mas é uma boa pena
se medida pelo que vale!

Tudo tão misturado!:
'macumba pra turista' e a comunidade.
Tudo tão misturado
quanto é misturada a fraternidade.

Portar fantasia que pesa,
ver assomar a curva
que revela luzes e arquibancada
faz clara a vista mais turva!

Quando a bateria clama,
quando o povo aplaude,
vemos que o que nos inflama
não nos inflama debalde.

Nenhum furação é o mesmo
quando visto de dentro, do olho.
Eu, que cismava, indisposto,
já não lhe posso franzir o sobrolho.

A Sapucaí é linda!,
porque é o Brasil visto do espaço.
À míngua de palavras e rimas
eu lhes suplico sentirem o abraço.

É como um abraço de Deus,
abraço-compasso-movimento.
Já intuo melhor o divino
tendo visto de perto o deslumbramento.