sábado, 18 de novembro de 2017

JAMBO PITANGA (Olga)

Estou em vigor
e o girassol aflora,
chamando-me à luz emanada
de uma distante Olga.

Qual distante!,
se estou ao pé de si,
brilhando o melhor sol que posso
do que há dentro de mim?!

Não foi à toa que o poeta
decretou ser arte o encontro.
Porque quando assoma sou inteiro,
na reunião dos escombros.

Já ninguém lembra a dor do recesso.
A doída morte de ontem
hoje compõe a semente
de um aprazado sucesso.

De mais não se faz o sucesso
que de uma bem aproveitada
chance de ser feliz.

Nutrindo-se de caule e pólen
da mais bela flor
que o inconsciente sempre quis.

Exsurge a pela escura,
o coração dourado,
o ideal vermelho.

Não sou chefe de nada,
pois me perdura a infância
de tudo em que sou escoteiro.

Tateio nas sombras benditas
em que a surpresa não espanta,
apenas desanca a desdita.

Pois onde o coração palpita
ela não se contém.
E é a fé que me dita
a hora do "amem!"

E amém!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

PRA MAIS UM POUCO

Cubo de gelo ao sol,
sou pra só mais um pouco.
Nutriu-me um sorriso estranho
a lágrima que desceu pelo rosto.

Você me ensinou o que fazer,
mas eu fui feito o oposto.
E não pude mais me fazer
a matéria do meu desgosto.

Pois tenho estado comigo
pelos séculos sem fim.
E sei que não há acaso
no terem-me feito assim.

E me destino a voos altos,
pelos céus de onde os vejo.
E o que pra mim é assombro
pra você é "não percebo!"

Percebo o que não realiza,
faço por prosseguir.
Sinto falta dos seus beijos,
mas meu desejo é conseguir

altear-me além dos desejos,
completar a contento a etapa.
E talvez alcançar um tempo
em que você não faça falta.

Não por ter sido nula,
que o quanto me empenho não o permite,
mas por ser época de pura
sorte que não nos limite.

Nem nos aparte,
cada um crescido a seu modo.
Eu agora me sinto completo,
meus defeitos não ignoro.

Mas sei que farei deles
a plataforma do meu impulso.
E traga de volta seus beijos,
que já não me vejo sem seu concurso.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

OUTRO TANTO (Mais Esperanto)

Vem-me de novo Sabino,
sabido,
a me lembrar que ainda
o menino é o pai do homem.

Vem-me, assim, de longe,
a confirmação do que estou.
Cada vez sou mais o homem
que o menino ensinou.

De déu em déu a palmilhar,
o mundo que entrevejo
vai-se expandindo tanto,
que do "pequeno" nada percebo.

Não o digo do pequeno que somos,
deste que torno a ser,
mas daquilo de que se distraem
os que se põem a perder.

Nada valem as miudezas
que vidrados se disputam.
Tão nublados da luz que os guia,
que o que perseguem deles triunfa.

Fora do medo há o mundo,
a coragem vai-nos dar à Luz.
A luz vai-nos dar a nós mesmos,
livrar-nos do mundo-capuz. 

Cá pus eu o que entrevi,
num momento de meditação
com que pude, disse-me a moça,
poupar-me à perturbação.

Desejo-nos Paz.
A paz de um é a de outro.
Todo mundo é capaz,
é só tentar mais um pouco!

domingo, 22 de outubro de 2017

BAR TRISTE

Estou em um desses bares tristes
em que a televisão está ligada.
Rumino a vontade acesa
de não ter minha alma apagada.

Espero o transcurso de um tempo,
até a hora de um compromisso.
Um outro ostenta sofrimento,
num ar meio enfermiço.

Tenho vontade de abraçá-la,
toda essa gente distraída
que desperdiça com afinco o tempo,
sem saber que sangram vida.

O tempo não é de se matar,
ele é de se viver.
O tal "senhor tão bonito",
de que feitos eu e você.

Então lhe dê bom emprego,
como o que daria a um familiar.
E vai ver que as horas são joias
de nos fazermos brilhar.



Centro Oriente, 11/7/2017.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

SORRINDO (Trabalhe!)

Sorria, meu velho!
Você já não é tão novo,
mas é sempre oportuno!
Sorria do compreendido,
sorria do absurdo.

Sorria para o estranho
como para o conhecido.
Sorria pelo que lhe vem,
sorria pelo que tem tido.

Sorria à larga,
que o sorriso (lembra?) é um lume.
E porque vai rumo ao novo
pode ser que lhe ajude.

Que lhe ajude a ajudar
a quem está a sua volta.
Essa em que estende a mão
é sempre a hora mais grata!

O mundo parece uma rede,
a vida, uma transmissão.
Multiplique essa espécie de peixe,
que a mais lauta refeição.

Seja tanto quanto possa
o arauto dos céus abertos.
Sem esquecer que, lá longe,
Ele está sempre por perto.

Trabalhe com sinceridade,
sobre esse ponto eu insisto.
Aquele feito com coragem
é o trabalho mais profícuo.

Faça render os frutos
para tudo de que temos fome.
E lembre-se: Nunca se esqueça
de que não trabalha em seu nome!


AMEMG, 7/6/2017

domingo, 8 de outubro de 2017

SÁBIOS

Não existem sábios que saibam que o são.

É TEMPO!

Sem notar que sofrer amedronta,
pus meu coração numa concha
e deitei-o no fundo do mar.

Num berço esplêndido.
Incogitável.
Intangível.
Inalcançável.

Para que não me pudesse encontrar.
Para que não me pudessem encontrar.
Para que seguisse selado.
Para que pudesse ocultar

os meus ouvidos precavidos
d'uma memória insurgente.
Uma memória polimorfa
de uma sereia que é gente.

O som não é tão veloz
quanto a Luz que me cegou.
Mas eis que agora me surge

e me parece melhor

que a memória que lhe tinha
e que a custo abafava.
Porque eu não a entendera,
e ela me machucava.

Como o tempo é senhor de tudo,
agora menos cego que mudo...
Mudo não digo, mas rouco,

pois chega de ouvidos moucos.

Vou abusar da garganta
e enviar-lhe um convite.
A você que já me encanta,
e chega do antigo alvitre.

Quero estar desembaraçado
do medo e outros freios.
Quero é ser alcançado
de novo por modos de frevo.

E boto meu bloco na rua,
com desculpas a quem se ofenda.
E votos de que aproveitem o exemplo,
que pode ser que lhes renda.

Eu me rendo ao amor,
imperfeitos como sejamos.
Tanto ele quanto eu,
e nos declaramos humanos.

Portanto perfectíveis,
como tudo que planejarmos.
E que Deus nos escute e ampare,
e quem sabe decida alar-nos.

Aos céus os prometidos.
Aos céus os alcançados.
E o tempo, não vou medi-lo,
mas é tempo de nos beijarmos!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

CABEÇA DO DRAGÃO (Sou Mar!)

Para Carlos Maltz, Jurubela e Nathalia Duarte

Sempre de olhos postos no mar
(de onde também nascem Sol e Lua
sem se perguntarem em que costa),
penso em sua generosidade.

Trabalha infatigável e a bem,
vinte e quatro horas por dia,
o dia inteiro, todo o ano,
pouco importa o ano em que estejamos.

(Ou se bissexto ou bisesdrúxulo...)
O mar é mais corpo que corpúsculo!

O mar abraça todo aquele
que se acerca sem o cercar.
O mar não conhece o medo,
porque sabe que é infinito.

Já o singraram glórias,
já o contaminaram conflitos.
Abençoou a tradição dos crentes,
deu naufrágios aos aflitos.

O mar não teme adiantar-se,
disputa o horizonte com o céu
sem deixar de beijar a areia,
que a areia é que é planeta.

Eu sou mar!
Embora um dia não o visse.
Sei que não vou me acabar
se buscar o que Deus me disse.

Penso na bússola que sei que ostentei,
sempre apontando pro Norte.
Porque me perdia em talentos do Sul,
distraído do nodo da sorte.

Que imensa Graça a dos encontros
que nos apontam pra onde ir.
Mar, você é o espelho!
Eu também vou servir!

sábado, 23 de setembro de 2017

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

DE FININHO

Como te afinas
com quem te confina?

Eu afino!

CANTA

Canta na minha janela.
Depois voa pra onde quiser,
livre pra voltar pra ela.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

BUSCA (Perdão)

Busca,
brusca,
minhas mãos.

Uma reconhece sua falta,
outra lhe outorga o perdão.
É quando estou mais liberto:
o perdão que ofereço está dado
(não precisa pedir acesso).


O perdão é um dom resplandescente,
nos eleva à condição
supra-animal de gente.

Fora do perdão, a guerra.
Aquém do perdão, a vingança.
O perdão não exercido
é o algoz da esperança.

Tenha plena certeza:
ninguém nasce sabendo.
Apenas mais acostumado
com o que vinha aprendendo.

Não há inferiores,
não existe não ter salvação.
Qualquer planta, nutrida e regada
conhecerá floração.

Gente é tudo semente de anjo,
até o mais extraviado.
Quanto mais amor mais anjos,
menos anjos se mais penalizados.

Então deixe de sentir-se o eleito,
toda água brotou na fonte.
Só juntos seremos perfeitos,
nos deixe beijar-lhe a fronte.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ESCREVE!

Ainda se ninguém lê Poesia, escreve-a sem entrave. Sempre vale, se devolve burilado ao mundo o que do mundo te invade.


"Permita que o Amo invada sua 'casa-coração''

DESENHO HUMANO (Projetor)

Não venci na vida,
essa postura envaidecida
é coisa de quem não entendeu.

Vivo pelo seu triunfo,
e essa força me anima.
A vitória que me rege
vai de pequena a imensa.
Resplandece quando quer,
só existe se está propensa.

Depois que me libertei
as algemas se proibiram.
Derretem-se já no limiar.
A melhor gema, está claro,
é pedra cristalina e solar.

Florir-se, girassol,
nada sob a candeia.
Nada atirado ao irmão
(quem ama não incendia!)


Mas estar incandescente,
num mundo carente de Luz,
é uma postura fraterna,
que aprovaria Jesus.

Não existe pena de vida,
Vida vale a pena!
Entende-o quem perdoa,
perde-se quem condena.

Dias concatenados,
com o intervalo da noite,
que é descanso e não ocaso
(que o espirito não se alvoroce!)


A Alvorada está plantada
desde tempos imemoriais.
Confie mesmo na madrugada,
e a madrugada já ficou pra trás.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

NEM AVENTURADOS


  1. Um abraço forte e apiedado 
  2. a você,  do outro lado, 
  3. tomando café ruim requentado, 
  4. depois de ter-se justificado
  5. com o boato,  disparatado, 
  6. de que falta pó no mercado.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

SUPÉRSTITE

Você é um tipo forte.
Sobreviverá até à própria morte.

AUTOAJUDA DA INDEPENDÊNCIA

O espaço cheio de inconveniências
ocupa o espaço da oportunidade.

Alije-as,
antes que seja tarde.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

CAPITÃ RODRIGUES (Monodiálogo)

Para Amanda Rodrigues

Eu te participo que és muito minha
e me dizes que não,
que de ninguém.

Te digo que é uma amplidão,
bela e que não te retém.

És minha num sentido
em que poderias ser de quantos fosse,
sem deixar minimamente de ser tua.

É como uma medida de abrangência afetiva,
de que te quero muito bem e toda,
pouco importando teus arrufos e esquisitices,
ou os importando para os desmembrar,

para estar-me todo teu bom humor,
que mal aflora e se 'desatreve'.
O que me dá a delícia
disso que não sei se é timidez ou malícia.

Vou sendo só eu o mate
fumegante na escuridão,
até o dia em que me arremates
sem nem ter sabido do leilão.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

HÁ VERSO

Há poesia no meu verso
ou, ao inverso, 
averso em minha poesia?

domingo, 27 de agosto de 2017

ANOITECEU EM POA

Porto Alegre ferve
na noite suave.
Porto Alegre ferve
sem saber que me arde.

Nem cabelos castanhos,
nem sinal de nada.
Porto Alegre me ferve
na noite vaga.

Paralelas que se cruzam
em Belém do Pará.
Paralelas que se cruzam
sem levar-me pra lá.

Das capitais distantes
PoA é a de que estou mais perto.
É a deles mais minha,
porque Haurida de um berto.

Sob a propaganda do refrigerante
a juventude se grava.
A juventude é longeva,
mas não envelhece nem tarda.

Ao palco, num reencontro,
a confraria dos magos.
Sempre pode ser feito
o que pode ser sonhado.

Somos os verdadeiros gigantes
de que se faz a Terra.
Apaixonados pelo erro
que sabe que não se erra.

AS chaves estão perdidas,
mas põem fim ao cativeiro.
As chaves estão fornecidas
sob a bem soado desvelo.

E Porto Alegre lança luz
sobre o filho de que é plataforma.
De onde se lança aos atentos
todo tipo de aurora.

Já tanto se disse,
que cada um escolhe o mote.
eu, por falta de escolha,
sou livre pra ser Dom Quixote.

Lanço-me o da esperança.
Lanço-me de lança em punho.
Só falta o seu simples coração
para salvarmos o mundo.

Porto Alegre, foi tão rápido!,
mas não levo vazias as mãos.
Levo o por do sol e o poeta,
e até outra ocasião!


*Escrito no PepsiOnstage, em Porto Alegre, no dia 19/8/2017, durante a gravação do DVD Desdaquele dia, de Humberto Gessinger, em comemoração aos 30 anos do aclamado disco "A Revolta dos Dândis", dos Engenheiros do Hawaii, banda que capitaneou de 1986 a 2009.

Músicas diretamente referidas:

Longe Demais das Capitais (1986)
Anoiteceu em PoA (1990)
Parabólica (1992)
Terra de Gigantes (1987)
3 x 4 (1999)
Dom Quixote (2003)
Simples de Coração (1995)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

VIVO!

Colaborou Beatrice Mantovane

Saudosos são os mortos!
Eu estou é vivo!
O que há?!
Não vá a moça me dizer
que a distância vai-nos separar.

A distância é o que percorro,
tenho praticado o mister.
De aviões e estradas me socorro
se a moça me quiser.

Suas terras são distantes,
mas não oferecem perigo.
São o que o Brasil já era antes,
e há vidas que eu consigo

deslocar-me imperturbado
pelas vias até o amor.
E é muito mais fácil de carro
do que disfarçado de santo no andor.

Não me afasta o Sol,
não me arreda a chuva.
E nem se não as alcanço
faço que me desfaço das uvas.

Eu quero é que me desfrute,
tenho bem mais sabor do que imagina.
Eu quero é que Deus nos ajude,
ou vou à moça ou vem ela a Minas.


Porto Alegre, 19/8/2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

MANAUS (Sô-Baré)

Para Kédma Magalhães, Lorena Costa, Beatriz Barbosa e Isadora Liberato.

"Manauara...",
tá na cara!
Onde um gentílico mais gentil?

O que se aplica a uma gente quente,
como a terra em que se movimenta.
Orgulhosa de tudo que tem
e longe de modorrenta!

Paricatubas,
Anavilhanas.
Tantos nomes
no Amazonas!

423.
712.
E eu com esses números?
Deslumbro!

Rios imiscíveis,
mas que só andam juntos.
A solução pra humanidade
(Eu presumo!)

Larguem Paris de lado,
não tem nada a ver!
Paris, fresca e distante,
não sabe nada de vocês...

(Aliás, pouco sabe o Brasil,
mas precisa aprender).

Um estado gigantesco,
de cidades espalhadas.
Tanto rio caudaloso,
quem precisa de estradas?

Peixes de a gente se babar,
e nunca atingir a fartura.
Peixes de já nada esperar
dos peixes de parte alguma!

Pirarucu, Matrinxã,
Tambaqui, Tucunaré.
E sucos de tantas frutas,
dos mais variados pés.

Um teatro faustoso,
nascido da soberba,
mas hoje entregue ao povo,
sua real realeza.

Milhões de habitantes,
e a praça é de cidadezinha.
Tranquilidade nos bancos,
mas esperteza nas esquinas!

Tão afastada embora,
é ainda Brasil.
A mesma chaga que chora
o povo do azul anil.

Uma bela e grande arena
pra um futebol que ninguém viu.
Melhor o feito com o capricho
que um e outro boi garantiu.

Das terras do Cruzeiro do Sul
é a mais profunda que conheci.
E foi tão boa a acolhida
que me sinto Baré, daqui.

Ramos Ferreira,
entre Tapajós e Getúlio Vargas.
Dito o endereço
até sinto-me em casa.

Manaus, minha nau é boa
e irá sempre aportar
nas terras do Amazonas,
quando me convidar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

AQUI,

Paris nunca me viu,
nas vezes em que estive ali.

No Santa Inês,
toda manhã,
os bem-te-vis cantam pra mim.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

MEIO DO NADA

Para Beatrice

Fui-lhe positivo,
disse-lhe que sim.
Refutou-me em sua fé na descrença.
Disse que o futuro não era nossa pertença,
mas divina.

eu lhe disse "Menina,
quer ter a certeza de não chegar
é só não se por em marcha!"

Pareceu-me atônita,
como quem já não sabe o que acha.

A pessoa tem, muita vez,
uma capacidade de fé,
mas não sabe o que lhe faça.

(Às vezes não mais que pirraça...)

O meu sinal de fumaça diz "Sim!",
e minha fé é imbuir-me de propósito.

Já quanto ao equinócio...

segunda-feira, 24 de julho de 2017

TRIUNFE (Luísa)

com Clarice

Ele não está, Luísa!
É inútil essa busca.
Seus timbres,
seus papéis timbrados.

Tudo está anulado!
Foi-se!

Foi buscar outro espaço,
foi ambientar-se.
Retirou sua ausência,
já antes tão presente.

Luísa, se contente!
Ouça o jardim lá fora.
O mundo é todo seu
e excede esta sala.

Luísa, 
o mundo não se compara!
Viver não tem paralelo!

Luísa,
um Jorge não vale!
Não vale um Marcelo.
Um Túlio tolo, Ladislau, 
nada Luísa!

Nada será igual!

Luísa, não procure agora!
Luísa, ele não está lá!
Ache-se, Luísa!
Luísa, você é que está!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SÓ EM JOÃO PESSOA

Na maior parte do tempo
estou só em João Pessoa.
E bem por estar só.
É uma conquista!
Foi trazer para o litoral
minha solidão esquisita.
A mesma que já passeara por São Paulo.

Mas São Paulo,
sempre grande e outra,
já era um pouco conhecida.

Minha solidão é entrecortada
por alguma companhia.
De vão em vão me vêm à mão
meus amigos da Paraíba.
Os que só aqui encontrei
e os que já entretinha.

É um amor.
São amores!
Como disse um guru,
sorrirei de cada dia em que despertar.
É um renovado privilégio
o de se melhorar.

Na maior parte do tempo
estou só em João Pessoa.
Mas quando estou mais só
é quando fito o mar.

Imenso, cálido, convidativo,
recebe-me com sinceridade,
mas fica claro que não posso ficar.
Não sem arranjos:
nadadeiras, barbatanas.

O mesmo para João Pessoa:
recebe-me, afaga-me,
mas me mostra o caminho para o Castro Pinto.

Ela tem os paraibanos,
tem os pernambucanos incorporados.
E o mar tem sempre o céu bem junto.

Na maior parte do tempo
estou só em João Pessoa.
Mas quando estou mais só
é quando avisto um casal,
num pedaço só deles de mar.

Abraçados, molhados,
ela dando pinta de que sem ele iria afogar-se,
mesmo se ali dá pé.

Eu quero apenas dar pé,
dar pé antes de partir.
Emprestar ao humano, 
aos homens,
toda esta minha fé.

Haverei de amar tão só
quanto como em João Pessoa. 


João Pessoa, 27/5/2017.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

LIMA (Candeia)

Existe um belo,
mais belo que um verso,
que diz que uma vela acesa
acende outras mil sem se apagar.

Não se envergonhe de se escorar,
um pouco, em quem está bem.
Não há mal algum nisso!

(Talvez estejamos até
saldando algum compromisso!)

Tudo que nos foi dado,
foi-nos dado por empréstimo,
e tudo em atenção aos outros.
Se o seguirmos, está dito,
o mais nos virá por acréscimo.

Toda fortuna,
o dinheiro ou a alegria,
é destinada a seu irmão.
Esta é uma escola de fraternidade,
não há outra destinação.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CABO BRANCO (Mar e Amar)

Vou lembrá-los,
antes que o tempo me acabe,
de que mar e amar
são milagres!

Ambos são a verdade,
e são ambos imensos.
Ambos serenidade,
em ambos às vezes tormento.

Ambos nos ensinam, 
portanto,
que é preciso ter confiança.
Ambos revelam em nós
o nobre dom da esperança.

Estão ambos sempre vivos,
ambos nos atingem.
E quando nos acostumamos
nenhum deles nos aflige.

Penso que em tanta alma
está a assinatura de Deus.
Porque há um encanto dado
que nunca se prometeu.


João Pessoa, 24/5/2017

terça-feira, 27 de junho de 2017

SORRI, PEQUENA!

Para a triunfante Letícia M. Pizato
 
Distraiu-se o anjo,
ficou enferma a pequena.
Sempre um susto pros pais
(só um pai sabe o que pena...)

Correm médicos com exames,
testam a medicação.
E a pequena nem se dá conta
de tamanha comoção.

Desconhece perigos,
ela é toda coragem.
Basta ver mamãe ou papai
e se instaura a tranquilidade.

É uma pequena Alegria,
que guarda alegria imensa.
Eu, quando vi que sorria,
vi que a felicidade compensa.

Sorri sem freio, pequena!
O caminho é longo e as alegrias, muitas.
Confia que as mãos que a seguram
são as mãos dos seus velhos juntas.

Sorri à larga, pequena!
Que todo sorriso é um lume.
Faz, sem ver, favor ao mundo
e com que seus velhos se aprumem.

Sorri confiante, pequena!
Que o sorriso é o anúncio da vitória.
E desconfio que seja uma dica
para se compreender a Glória.

Sorri, pequena!

terça-feira, 20 de junho de 2017

EM JOÃO PESSOA

A noite cai, 
o sol se levanta,
e eu rio!

Eu, rio,
corro para o mar!

O mar é quente.
O mar é qual gente:
tudo questão de saber entrar.

Que defendam que mar é tudo igual,
vai-lhes doer.
O certo é doar-se.

Nesta quarta-feira
o verde quer ser azul,
elevar-se!

O azul quer ser verde,
aprofundar-se,
eternizar-se em marulhos.

As nuvens envolvem o horizonte
de fora a fora,
tarde adentro.
São um convite para a maciez
sabidamente salgada da espuma.

É uma dica para quem a recolha:
os matizes são mais delicados
do que os veem os ditados.
Eu já disse:
E quem gosta de ditados?!

A tarde é toda uma liberdade
e, do meu jeito próprio mas já tão divulgado
amo João Pessoa!

E não nego nada,
ainda que à tarde e sem testemunhas.
João Pessoa só tem uma!,
até que eu lhe volte.

Anote:
Até que eu lhe volte!

João Pessoa, 24/5/2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

SCRIPTOR

Quem escreve por necessidade
mas logo toma gosto
é tomado pelo medo de que a palavra lhe falte.

Medo de que nada o arrebate,
ou de que não lhe saiba dar expressão,
perdendo a chance do alívio.

O verso
(e também outras linhas)

é como um grito.
Dá eco à alegria,
dá fim a conflitos,
desvenda segredos,
ilumina a essência.
Protege do vazio
e nos alça à consciência.

E a consciência é um exercício.
Parece-me que seja algo que se pratique,
não algo que se seja.
Algo que desperta
mas às vezes boceja.

E se o sono é,
de certa forma e como já o disse,
uma morte interina,
a consciência  não resiste
ao que assim a elimina.

Mas se a morte é um transporte
o sono desdobra-se numa espécie de sorte,
numa forma de aprofundamento.
Ele é uma eternidade de diferente dimensão.

Cerram-se dois olhos
ou apenas olham para dentro,
como dizia o vovô Major.
Eu nem sei se se dava conta
da extensão do que dizia.

Dois olhos em compromisso
de olhar pra dentro,
e um terceiro, na testa,
bem aberto!

Abro-me pro manifesto:
nada termina onde tudo começa!


(CNF-JPA, 20/5/2017)
 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

À MULHER

Para a semana das mães/2017, do TRE-MG


A mulher não é da costela.
A mulher não é só do frevo.
Há mais razões na mulher
que qualquer razão que eu concebo.

Foi preciso uma mulher
pra que eu viesse a ser homem.
E também devo à mulher
se me chamam por meu nome.

Diziam que o feminino era o coração,
como se o coração fosse miragem.
Mas esqueceram que o coração
é o próprio centro da coragem.

O filósofo disse,
e disse como coisa patente,
que o homem nasce livre
e por toda parte depara correntes.

Esse "homem" é o ser humano,
pois foi sempre o mesmo com a mulher:
Assim que nasceu, forte e livre,
viu atarem-se-lhe os pés.

Impôs-se a força bruta,
a vantagem corporal.
A um ponto de ser impuro
estupro de sua moral.

Mas o forte nunca é vencido.
A coragem não se derruba.
E onde houve pilhagem
não tardou nascer a luta.

Mulheres feitas mulheres.
Mulheres de sua seita.
Mulheres indignadas,
e não apenas contrafeitas.

Mulheres desejosas
de assinarem seu contributo.
E de superarem a indecorosa
posição de apenas tributo.

Porque tudo que pode "o homem",
pode-o o ser humano.
Também pode, portanto, a mulher,
haurida do mesmo plano.

E se há (e há!) diferenças,
elas nos fazem complementares.
As cooperações e concertos
são medidas salutares.

Mulher, seu nome é luta!
Mulher, não se aflija!
A todo tempo a labuta
transmuta-se em conquista.

Toda força à mulher!
Toda força ao gênero humano!
Da hora de subir
até a hora de cair o pano!