"Assim, aos trinta anos, mais ou menos, este jovem fidalgo não só tinha passado por todas as experiências que a vida oferece, como verificara a inutilidade de todas elas. Amor e ambição, mulheres e poetas eram igualmente vãos. A literatura, uma farsa(...) Só duas coisas lhe restavam agora, nas quais pôs a sua fé: os cães e a natureza; um galgo e uma roseira. O mundo com toda a sua variedade, a vida com toda a sua complexidade, tinha ficado reduzidos a isso. Uns cães e uns arbustos eram tudo. Livre, pois, de uma vasta montanha de ilusão, e, por conseguinte, muito despojado...
...a lua nasce e o sol morre; a primavera sucede ao inverno e o outono ao verão; como a noite sucede ao dia e o dia à noite; como, depois de uma tempestade, vem o bom tempo; como as coisas permanecem como são por uns dois ou três séculos, apenas com um pouco de poeira e umas teias de aranha que uma velha pode varrer em meia hora; conclusão a que se podia chegar mais rapidamente, sem dúvida, dizendo: "o tempo passou e nada aconteceu".
Mas, desgraçadamente, o tempo, que faz florescerem e murcharem animais e vegetais com espantosa pontualidade, não tem sobre a mente humana um efeito tão simples. A mente humana, por seu lado, atua com igual estranheza sobre o corpo do tempo. Uma hora, instalada no estranho elemento do espírito humano, pode ser distendida cinquenta ou cem vezes mais do que a sua medida no relógio; inversamente, uma hora pode ser representada no tempo mental por um segundo(...)
Não defrontava apenas com os problemas que têm confundido os maiores sábios, como: "Que é o amor? Que é a amizade? Que é a verdade?", mas, logo que pensava nisso, todo o seu passado, que lhe parecia tão longo e múltiplo, precipitava-se naquele segundo prestes a cair, dilatava-o até umas dozes vezes o seu tamanho natural, coloria-o com mil cores e enchia-o com todos os resíduos do universo."
"Aja duas vezes antes de pensar." Haja dúvida! Há já tantas! Ajax nelas? Não! Aja nelas! À janela? Não! Lá isso não!