sexta-feira, 9 de março de 2012

Cravata Miséria

Sou sem vergonha burocrata
Se o fazes por necessidade, transige-o!
Mas não me deixo cair, isso me exijo
Na condição de burro de gravata

E não podendo mais me dar que pálio, abrigo
Saibas que não o digo por bravata
Mas pra verter a alma, o intestino
E evitar deixar-me em pólo, o que maltrata

Do que o real impõe não me dês pista
Que bem maior atinjo em radicar no sonho
E não no quadro que o mundo habita
Esse que vem pronto, tão medonho

E este palavrório, o que lanço
Não sei se o cunho ou se me alcança
Mas serve à expressão da esperança,
O bem que superá-lo não alcanço.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma Ideia Pangeia



Lá estávamos nós, na aurora dos anos 2000, matriculados em um curso de francês com ares de coisa oficial, todos animados e orgulhos do heroico esforço de nos despojarmos da cama, por conta própria, em plena manhã de sábado, para pagarmos tributo a Balzac, Voltaire, Descartes, Sartre, Rimbaud, Baudelaire, e companhia quase ilimitada, apesar de exclusiva, de um certo ponto de vista.

Sacrifício, sim, mas as aulas de sábado na Aliança, no entanto, têm um je ne sais quoi... Aliás, vírgula! Je sais! Têm um ponto social bacana, já que a aula é cindida, havendo um intervalo que superfavorece a socialização.E sempre me joguei...

E eu me apegara a isso! Tendo como tantos contemporâneos ido cedo bater à porta de um curso de inglês, adorava já esse tipo de ambiente. E já dali à Ibéria de Almodóvar e Cervantes para passar então a essa nossa boa empresa francófona.

E não era privilégio meu. Lembro-me bem desse cara, Juliano, que estudava por força do trabalho também o espanhol, e que não hesitava, muito positivo, a responder a todas as perguntas de Madame Suzana com um corajoso “Si!”. Só lhe faltava o “como no!?”. Tinha também a Grazi, que também cumpria pena em Faculdade de Direito (coisa endêmica naquela família) e que também já zanzara outras línguas.

Mas, como diria o Oswaldo, não era isso que queria falar!

Como bem mostrava meu exemplo, e o do tal Juliano, e tantos outros, lá estávamos nós, em meio à globalização feroz do virar do século, cumprindo uma sua suposta imposição, passo árduo-prazeroso do processo: a aquisição da língua do outro. Eu, já em vias de me tornar servidor público, não via utilidade imediata naquilo, privado que seria dos livres concorrentes, mas bem me aprazia então me lançar um dia ao em que agora me vejo metido, a leitura de originais.

O fato, cara, é que como sabemos, bem antes de aviões e internets e tais, já o povo perambulava por aí. E não pense o senhor que a Aliança veio dar aqui no navio que trouxe o Tomé de Souza. Atrevida gente zanzando o Globo!

E não é que já nas primeiras aulas lá estava o Flávio, primo do nosso bom Ronaldo, pedindo dicas turísticas parisienses à Madame? Assustado daquela aparente ousadia, indaguei:

-Mas Flávio, a gente ainda está no básico 1 e lá vai você sem par à França?
-Gabriel, Gabriel! E o senhor acha que mudos não viajam?
  
Atrevimento avança!
Fiquei mudo; besta já era, está visto.
Com ou sem visto, mundos viajam!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Umpo Ema - Batista Livorno

Um poema não tem cheiro
Um poema não tem nojo
Um poema não tem dono
Um poema não é novo

Um poema sai sem pena
Um poema entra em todos
Um poema bem se rima
Em poemas eu me morro

Mas poemas me  renovam
Um poema não é estorvo
Um poema porque quero
Um poema sai do forno.

Um poema é o que houve
Porque ouve de você