quarta-feira, 19 de setembro de 2018

UMA CONCENTRAÇÃO

O bebê é índio,
ameríndio,
asíndio. 

O bebê é africano.
Ninguém decifra o bebê!
(O bebê é lituano?!)

O bebê é "o".
E que diferença se fosse "a"?
Nos dias que correm
(corre-se mais que nunca!)
diz-se que se pode optar.

O que muda do lado de dentro
com a mania de classificar?
John queria sem fronteiras
sem credos, sem limitações.

Joana queria a Humanidade inteira,
só uma prece toda oração.
Apenas o bem.
Apenas a paz.

Concórdia bem-vindo ao mundo
seja a-moça-ou-o-rapaz.
Temos todos todas as cores,
o que quer que transpareça.

Muita riqueza é oculta,
e muita vez frustra o que se apresenta.

Fica o convite para sermos essência,
baldo o esforço de aparentar.
Como inútil toda ciência
que não puder nos aproximar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

TEHURA GAUGUIN

D'aprés " GAUGUIN -Voyage de Tahiti", em cartaz.

A beleza existe.
A beleza insiste.
A beleza é bruta de tão delicada!
A beleza não pode ser desposada.

A beleza é alada, é o ar, 
é a lua!
A beleza aflora e aprofunda.
A beleza não pode ser minha,
não pode ser sua.
A beleza não se amesquinha,
não se dobra, não se curva!

A beleza é do mato e é da rua.
A beleza não é nunca novidade.
A beleza é inteira boa,
não pode ser maldade.
A beleza é animal, animada,
movimento!
A beleza lê-se no vento!

A beleza não é intento,
não é invento.
A beleza decorre!
A beleza quer que se prove,
e é no entanto evidente.
A beleza não está, é.
Não fica aos pés,
não depende de olhos.
A beleza não se socorre,
ela é uma salva de salvações.

A beleza não se restaura,
não a recria a ciência.
A beleza é a permanência
por entre a mutação do tempo.
A beleza só a soube Deus.
Ela nada prometeu,
ou é a própria divindade.
Pra beleza já é nunca estar tarde,
ela é de antes.

A beleza nada a garante.
Ela não está preocupada.
A beleza não pode ser devastada.
Nunca foi instaurada,
ela é imanência.
A beleza só é inocência.
A beleza é um eterno presente.
É nosso futuro e nossa ancestral.
A beleza só pode ser natural.

Seja a beleza toda a gente.
Nada que a engendrar,
nada que ser diferente.
Nada mais!
Gaya-Maya-Vem-tá-vai!

terça-feira, 11 de setembro de 2018

LADOS

No Bosque vi extinguir-se 
a geração de minha avó.
A geração Fraga, isto é,
a de sua linhagem.

Lá como em muitas frentes
a batalha terminou antes para os homens,
que pereceram,
possantes.

Elas, flores do tempo,
deixaram-se estar na retaguarda,
ou nem tanto!
Porque a astúcia em que 
se deixaram estar no canto
projetava-as sobre os tabuleiros.

Conduziram todos os movimentos.
Ninguém sabia se passos,
se golpes.
Se dança, se luta.
A mulher sabe ser santa,
sabe ser puta.

Não existe fim da linha 
na esfera.
O saído por um lado
do outro se espera.

Lado escuro e lado claro
se revezam.
Só para o lunático, 
ideia fixa,
a coisa é outra.
(E outra porque sempre a mesma!)

Melhor é ter posto a mesa
sendo capaz de a projetar.
Rapaz, vou te confessar:
Mulher como minha avó
nunca vi em nenhum lugar.

(E estão por todos os lados).