quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pax Perpetua









Grenoble, 26 de janeiro de 2011

No dia 24 de janeiro, meu último em Paris, fui ter ao Père Lachaise, para render homenagem a alguns imortais, como Oscar Wilde, Proust, Kardec, Balzac, Chopin, LaFontaine, Moliére e Jim Morrison. Ali chegando, percebi que, ali, TODOS eram imortais.

Dei-me conta de que alguns de nós não sonham em ser imortais, mas mortais pra sempre.

We prefer a feast of friends to the giant family!




http://www.youtube.com/watch?v=3NQABFxjog0

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Fraterna Idade















Paris, 24 de janeiro de 2011

Quando aqui cheguei na semana passada, minha primeira impressão, forte, foi a de uma cidade monumental (bom, na verdade, diante da vista que se tem do trem que nos conduz do Charles de Gaulle ao centro, a primeira mesmo foi "Banlieu é tudo igual!", rs.) e "imediata à mente" me veio a imagem de alguma aula de História em que algum professor comentava sobre as modificações que Bonaparte imprimira a Paris, bem condizentes com sua mania de grandeza. Logo em seguida veio-me à mente aquela psicologia de buteco, segundo a qual essas manias são próprias de grandes homúnculos, como foi o caso do nosso Napo-Leão. Afinal, ele foi um grande general, e o que é que há de grande nisso, não é mesmo?

"Na visão da macro-história nada gera um general
A visão do microscópio é o ópio do trivial..."

Na época do desenho animado nosso de todo dia, às vezes me perguntava por que razão os soldados, sendo tantos, sempre obedeciam a um homenzinho, não raro gordinho e bigodudo. Enfim....

Mas tive outros professores, que forneceram outras explicações para grandezas arquitetônicas do poder. Um, de Teoria Geral do Estado (falava sobre Brasília) dizia que, se o centro do poder tivesse enormes dimensões, qualquer manifestação de uma multidão seria reduzida à impressão de uma turma de amigos sem mais o que fazer. Interessante...

Sei que é passado o tempo de comunismos, mas ontem, visitando Versailles, perguntava-me como é que os povos do mundo podem ter aguentado (os povos são numerosos, rs...) tanto tempo as monarquias, sobretudo as... "faustosas", sobretudo as em que "L'état c'est moi!", sobretudo as em que "Après moi, le déluge!".

Tudo muito bonito, mesmo deslumbrante por ali, mas o único frêmito (como em "A Bruxa de Blair" o único frêmito vem naquele último segundo) foi na hora de ver o quarto da rainha... Não, ela não estava ali, ela não se desnudava, nada disso. Apenas o audioguide, nesse passo, contou sobre como, naquela fatídica manhã de 1789, ela escapara pela portinha lateral e sem ornamentos que ali se via, quando o povo invadiu todo aquele luxo para, finalmente, comer todo o brioche que quisesse!

Fraterna idade!


domingo, 23 de janeiro de 2011

Fidal Guia

Ao meu Sá Carneiro
Ao Max Brod(er) de mim
Ao Holmes de que sou o "What, son!?"
E ao Sancho de quem possa ser o quixotesco Dom!

Paris, 23 de janeiro de 2011, trinta e um anos depois...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

It's all crap!




Paris, 21 de janeiro de 2011

Quando eu era pequeno (ou menor), às vezes encasquetava. Não digo que fosse uma criança grave, ou meditabunda, mas havia ali uma nascente "ruga da reflexão", tanto quanto as rugas se veem nas crianças. A adolescência não me livrou dos primeiros traços. Nascido e (um pouco) crescido em Belo Horizonte, 27 anos no mesmo bairro, às vezes batia-me a preocupação com a possível impossibilidade (se existem impossibilidades possíveis) de habitar meu nem tão velho e nem tão bom bairro.

Superado o apego ao bairro, ainda persistia o quanto à cidade, e parecia-me absurda a ideia de deixar a antiga Cidade Jardim. As pessoas pouco viajadas (ainda que se entreguem às mais incríveis viagens "estáticas") costumam ter esse sestro bairrista, e são todos Kants em suas Königsbergs.

Foi preciso pouco deslocamento, um Rio daqui, uma São Paulo dali, Buenos Aires lá, Brasília acolá, para notar que a vida era, sim, (im)possível em qualquer lugar.

Hoje, ampliado um pouco o raio da geografia (raio de geografia!), confirmados uns mitos, destruídos outros, tendo criado meus próprios, sou da opinião de que também as pessoas não se fazem tão diferentes.

"O que faz as pessoas parecerem tão iguais?
O que fazem as pessoas para serem tão iguais?
Por que razão essa igualdade se desfaz?"

Na suposta terra da gastronomia, fiz das pessoas pratos, e vale pra elas o que já lhes aplicava (a estes): Sejam pizzas, sejam crepes, sejam tapiocas, o recheio é sempre possivelmente o mesmo. Tem quem ache bom meter seu frango em massa, tem quem o ache mais massa! em massa mole, e há até quem o prefira meter em isopor! No fim, digo que é o recheio o responsável do sabor! Sempre se podem os mesmos conteúdos, embora contigente o continente! Não muda muito o que se lhe mete, muda mesmo é o suporte, você o suporte ou pas!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

To be niquim...

Barcelona, 17 de janeiro de 2011

Nao me levem a mal, nao pretendo menoscabar minha gira europeia, a que tardei tanto a me entregar. Tantas tao bonitas coisas se veem por aqui, tantas nos despertam tanto, nos dispoem a tanto, e nos trazem tanto. Dentre tantas, uma talvez muito especial, e que é engraçado ser necessário deixar o Pindorama pra perceber, é o quanto ele é bom!

Pensava-o ontem, enquanto via a aclamada Sagrada Famìlia, de Gaudí. Hoje, vendo-a pelo outro lado, e percebendo-lhe alguns dos detalhes, até que a reabilitei um pouco, mas nao me livrei completamente da impressao de que parece o trabalho de um Joao de Barro! E sou mesmo muito mais a ...jinha da Pampulha, do nosso velho e (aparentemente) imortal Niemeyer. Nao há gente mais carismática que a nossa (embora possa haver tao bonita quanto) e nao vi ainda cidade que se veja tao bonita do alto quanto a de Sao Sebastiao!

Pronto, falei!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

TransPORTO-me


Porto, 13 de janeiro de 2011

E é dos portos que se pensa o além-d'águas

Veio um corvo negro, negro,
Veio um corvo a negrejar,
A dizer-me que a alegria
Vive para além do mar.

Vive para além do mar
Onde ninguém pode ir ter.
Veio um corvo negro, negro,
Veio só p'ra mo dizer.

Mas eu tinha um barco feito
Para fins que não sabia
E vou ir naquele barco
Para onde ninguém iria

E para onde ninguém iria
E por guia eu hei-de ter
Esse corvo, negro, negro,
Sem que ele o queira ser.

Porque foi ele que disse
Que a alegria por achar
Vive longe, muito longe,
Vive para além do mar.

Fernando Pessoa 11.7.1934

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Acho-o, Pessoalmente, um cara... Foda!













Lisboa, 10 de janeiro de 2011

Hoje, depois de ansiar por isso desde que recebida a dica, vinda da Silvana, a querida mestre de Literatura-ora-pois, foi o dia de sair, mapa à mão, atrás do tal Campo de Ourique, lugar da residência final de Pessoa, onde se instalou uma casa de cultura em sua homenagem, ornada com tudo o que lhe diz respeito.

Foi muito divertido descobrir, através dos vários documentos ali expostos, uma trinca de pontos em comum: Nascemos ambos NOGUEIRA, na mesma pátria (qual seja a Língua Portuguesa!!!!) para atingirmos os mesmos 1,73m. Claro que jamais atingirei a estatura dessa pessoinha tão grande, mas foi gostoso perceber que nos assemelhávamos quanto aos pontos. Claro que não resisti à tentação de tomar a cadeira do suposto consultório de Ricardo Reis, embora tampouco lhe pudesse fazer as vezes. Coisas do quinhão...

Digo mesmo que só senti falta, naquela casa onde se está tão à vontade (ninguém nos vigia e podemos fotografar o que quer que se nos apresente!) de que me oferecessem algo de que depois me pudesse valer para me lembrar materialmente da visita! Ah, mas tudo bem, que fui achá-lo na lojinha do Palácio da Pena, em Sintra! E já está bom!

Se você for à Casa Fernando Pessoa, procure, no dia 10-01-11, pela singela lembrança que ali deixei a minha mãe, no livro de visitas, juntamente com uma modesta propaganda do Cegos. E, encontrando-me, não se esqueça de me pedir minha agenda perpétua do Pessoa, para nela me deixar seu recado, no dia em que brindou o mundo com sua "aterragem".

Abraços pessoais e Pessoanos!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Minha terra tem Palmeiras e até mesmo um Galo há

Lisboa, 08 de janeiro de 2011

Invadindo hoje, comme d'habitude (ou comu custumu fazê!) o jornal de Meia-Tigela, e me deparando com Ednardo no dia em que volto a Liboa, depois de ter lido no aeroporto-avião um guia-literário de Kafka-Praga, invadiu-me uma imensa alegria de ser brasileiro, e de não ter de ser o Kafka, de não viver na neve, ou ter de viver em uma época tuberculosa! Nada contra tubérculos, mas água de côco... E por cá ficarão as tristezas dos ensimesmados; sem abandonar, é claro, a ruga da reflexão! Minhas bruxarias para o Cosme, dar-me-ão!

"Eu venho das dunas brancas
Onde eu queria ficar
Deitando os olhos cansados
Por onde a vida alcançar

Meu céu é pleno de paz
Sem chaminés ou fumaça
No peito enganos mil
Na Terra é pleno abril

Eu tenho a mao que aperreia, eu tenho o sol e areia
Eu sou da América, sul da América, South America
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará"



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

De passagem

Berlin, 06 de janeiro de 2011

"Tô num lugar comum
Onde qualquer um se esconde
Pra fazer a frase feita
E sentir os efeitos colaterais
Tô num lugar nenhum
Oooonde?!
Onde qualquer um se esconde
Pra fazer a frase feita
Contrabando de uma seita oriental
Não tenho estado muito em casa ultimamente
Nem me lembro quanto tempo faz
Aprendi a não olhar pra trás..."

Yeah, right!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vem Kafka comigo!




Praga, 04 de janeiro de 2011.

Hoje, no maior frio que passei até hoje na Europa, fui ter ao museu do Kafka, depois de muito perambular a sua cata (embora fosse muito facilmente localizável para os... atentos!). Lá havia muito para ler sobre a história desse desconcertante autor, e de como seu desconcerto começou, na sua condição de minoria alemã em Praga, e minoria judia dentro da minoria alemã.

Chamou-me a atenção o particular relevo dado ao desconforto (terror?) que sentia o guri, quando era conduzido pela cozinheira da família por estas mesmas ruas por que caminho todos os dias, até a escola alemã que frequentava.

Seguiu seus estudos, bacharelou-se em direito (como é frequente entre os homens de letras), e (como tampouco é raro entre eles) sofreu os tormentos da burocracia a que se devia entregar para ganhar a vida e perder a alma.

Lembrei-me do quanto sofria Vinicius (segundo um seu livro epistolar que tenho) com a vida no exterior em representação do Brasil. Sei que a comparação não parece justa, já que Vinicius levava pelo exterior, certamente, vida muito mais interessante do que a sofrida por Kafka em seu posto no ramo do seguro (ou coisa que o valha). Volta a ser justa, no entanto, se pensarmos no fanfarrão que era o velho Vina, pra quem quaisquer compromissos talvez fossem uma cruz insuportável, haha!

Vendo as fotos que se espalhavam pelo museu, fiquei pensando no quanto teria sido bom errar por estas ruas naquele tempo, naquela companhia...

Errei! Muitos erravam por aqui e erraram! Fiquei pensando no quanto se passou sobre sua obra (especulações justas ou não, elevações justas ou não, rios de tinta a discuti-la) depois de sua morte. Também me lembro de ter lido algo do tipo sobre Pessoa, com cuja obra nada aconteceu antes de seu decesso.

Se eu tivesse vivido naquela época, as chances são todas de que não me tivesse apercebido daquela luz sombria, daquele desassossego tranquilo (de fora), daquele FRANZir de testa em ruminação de inquietude!


Tudo a seu destempo!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Příští stanice: Praha

Praga, 01 de janeiro de 2010

Depois de um silvester silvestre, com tantos amigos, em pleno portão Brandenburgo, dava até um dozinho de deixar Berlin. Depois de me "re-habituar" à língua, e nos familiarizarmos com tantas ausgans, de tantas banhofs, Praga parecia um destino exótico, impressão fortalecida quando o trem ganhou o território checo e as placas emplacaram a dança dos circunflexos invertidos!

Tão cincunflexa visão confirmava a invasão da velha terra de Kundera.

Mas o viajante internacional vai ganhando experiência e, com isso, não é difícil, chegando em Praga, comprar o welcome card local (1.500 coroas*, com direito ao transporte público, a algumas entradas grátis e a um par de descontos), e identificar a linha C do metrô, que nos conduziria à porta do nosso agitado hotel. Tudo bem que essa tal "experiência" não basta à decifração de todas as placas:
Praga, com seu metrô de três linhas em que as cadeiras são dispostas de três em três parecia mesmo uma cidade ímpar e Bah, trilegal!
E até aqui tem sido! Ouvida um missa em inglês dentro de um bonita igreja com ares góticos, a cidade a que chegaríamos em ritmo de Beatlemania (graças a uma exposição no Museu Checo da Música) acabou por nos receber com um concerto nas escadarias do bonito Museu Nacional, o Národní Muzeum:
No programa, Bach, Vivaldi, Mozart, Smetana (quem quer que seja), Monti (idem), Brahms, Bizet, Paganine e, claro, a prata da casa, Dvořák.

"Praga, praga!" não, Caíque!
PS: * 1.500 coroas! Pensa bem! É um show do Rei! haha!