quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

MIRANDO MIRAGEM

Olho agora para onde ela estava, 
e vejo que já não está.
Talvez não tenha sequer estado;
eu sou bom para imaginar...

E este deserto anda tão quente,
que é perigoso a gente
estar a ter miragens!

E para tê-las com tanta beleza,
talvez fosse preciso destreza,
mas não é preciso coragem.

A coragem só agora me falta,
a estação já estando mais alta
e o sol cada vez mais a pino!

E desejo bem-vindos a moça e a calma,
de que na ausência revestiu-se a alma,
quiçá para abolir desatinos.

E não preciso de mais que isso;
não me preocupam compromissos,
apenas que a moça haja!

Dispensa-se, portanto, o esforço.
Estará investido o moço
na sorte de contemplá-la.

Invisto a minha sorte
em esperar que o tempo me aporte
a restituição do que vi.

Talvez não espere muito,
é só administrar o tumulto.
Janeiro está logo ali!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

MISERÁVEIS

Não sou nada!
Mas estou muita coisa...
Não entendo a obsessão 
com o que antes escrevi na lousa.

O quadro foi negro!
(eram os tempos...)
Hoje é branco mas manchado.
Mancha-se a cada vez
que se apaga algum recado.

E o recado dado
penetrou, absorveu-se.
E se não era nada importante,
garanto: esqueceu-se! 

Essa gente é tão Javert!
E eu me sinto tão Valjean...
São mais realistas que o rei,
e nem há reis onde estou.
Então aceitem e pratiquem:
aquele padre me perdoou!

E o perdão é uma semente
que tem de lançar-se ao chão.
Perdoado me fiz diferente,
e não enxergo nenhum aleijão. 

Adotei uma filha,
fiz-me prefeito.
Dos bons, aclamado.
Dos jardins aos becos!

Não tem "preto no branco",
nesta vida há matizes,
que, se bem empregados,
colorem tempos felizes.

Esqueçam então o passado profundo!
Não se restrinjam ao cinema mudo!
Há falas novas que elevam a arte.
Esqueçam a porfia, seus miseráveis!

Aos novos tempos!
(Já até memoráveis...)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

RAIADO (Bandeira hasteado)

Raiei com o raiar do dia;
não foi nada que eu queria.
O corpo programou-se assim,
e à minha revelia.

Eu nem gosto da vigília,
melhor radicar no sonho.
Lá sou o rei da companhia,
da mulher que quero disponho.

A realidade não é nenhuma Pasárgada,
e até pode ser amarga.
Sou no sonho criatura alada,
e me voo para outros países.

Vou, e comigo vai quem escolho.
Vamos também?! Vou hoje de novo!
Não precisa franzir o sobrolho;
ali seremos felizes!

Num país assim urdido, 
já não estaremos perdidos.
Terei até mãe! Serei rico!
Perderei certas cicatrizes...

Lá, sim, serei forro!
A nada estarei jungido.
Nunca será preciso socorro,
jamais voltarei a ter crises!

Mas o que digo?! Estou louco?!
Tão poupados até se morre um pouco.
"A evolução dá-se no atrito",
disse o místico para que eu me balize.

Aqui não se está mal tampouco!
Às vezes rio até ficar rouco.
Então fico! Diga-o ao povo!
E que me ajudem no de que precise.

sábado, 27 de dezembro de 2014

MULHER SOLTEIRA PROCURA

Até case! Caso encontre...
Caso contrário,
siga o rumo do horizonte!

É tortura a procura
do que, parece, só se esconde.
A estrada de uns é outra,
mais longa ou mais curta,
até o barco do Caronte.

Casamento é transitivo!
Direto, indireto...
Fá-lo as pedras do caminho,
no desatino de um instinto incerto.

Não tem sentido afetar um porte
só para agradar os outros
(estranho esporte...),

nem rodar o mundo de molde na mão.

Pode ser piegas, mas
é preciso sorte!
Ninguém adestra o coração!

Há listas prontas do que é necessário.
Há candidatos, formulários.
Há muita prova, aprovações.

Mas eu não acredito nisso!
(cada um cultiva suas ilusões...)


Eu acredito em colisão efetiva,
em acidente feliz!
Não em arquitetura afetiva,
ou em achar pronto, na ciranda,
o que sempre se quis!

Só se pode querer o que se conhece,
chance dada por um encontro.
Tanta confecção me entris-tece,
é tanto arranjo que se perde o ponto!

Caminhe leve, vá sendo.
E vá-se conhecendo também.
Só se entendendo pode ser compreendida,
e me parece o que mais lhe convém!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CHÁ MATE (Por exemplo)

Para o resto do Zodíaco.


Não quer? Mas que pena!
Eu até que  queria...,
mas depois de amanhã
"faz dois dias"!

Mal entendo o que sinto,
não entendo o que vejo:
eu não nasci sertanejo!

Não durmo na praça!
Lágrimas?! Nuvens!?
No lugar do que foi
algo surge!

Há de haver movimento,
no cinema há ação.
Não se vive só de projeção!

Projetar o passado
não é nada fecundo;
no poço há bem mais
do que o fundo!

Então erga o seu muro,
sem lamentação.
Só se vive UM dia de cão!

Só um dia é o da morte,
não precisa mais luto!
Um só dia, tristeza,
e permuto!

Cambio a marcha
à mais forte, 
qual seja alegria!
É uma sorte haver novos dias!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

DO CALOR DA OBRA (Fulcral)

Coisas que "nunca mais!",
coisas que "tenho de...";
nesta vida, ou se vai,
ou já se fez!

Coisas que "mais um pouco!",
coisas que "outra vez!".
Até o que deixa louco
confesso que experimentei.

Tudo já está disposto,
eu nada estou inventando.
Mas digo que, isto posto,
é-lhe dado! Vá tentando!

Só vê uns passos à frente?
Dou-lhe o mapa, e o expando.
Há coisas por todo o globo!
E você, o que está englobando?

Vim, vi, vivi.
Não sei o que estou ganhando...
Mas, se não sei o que estou perdendo,
garanto que estou lucrando!

Não entendo nada de lucro,
mas eu o estou cutucando.
Apenas presumo com fulcro

na regra de: estou amando!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NATAL (Don't!)

Só, a você!

Nunca o sozinho
é mais sozinho do que no Natal.
Basta correr os olhos
pelas entradas de hospital.
Muitos chegam por um fio,
vê-se gente muito mal.
Mal que se infligiram
por não acharem seu quadro normal.

No tempo das festas se propaga
um padrão de todos juntos.
Quando todos se reúnem 
para por em dia os assuntos.
Trocam presentes, brindes,
e se brindam  presenças especiais.
Pobre de quem nesse dia
não congrega comensais!

O que em outros dias passa batido,
nesse é índice de dor.
E vê-se o sozinho abatido
por tanta família, tanto amor!

E por que sentir-se sozinho?
Nesse dia nasceu um menino
que pregaria o amor.
E por ter seguido esse caminho,
pregaram-no os ímpios,
transformando-o em Senhor.

A vida é uma estrada sinuosa,
escreve-se certa em linhas tortas.
E o futuro pode ser redentor!

Não pense em dar-se cabo,
é só mais um dia e está tudo acabado.
Dou minha palavra em penhor!

Veja a coisa por outro lado:
é até bom estar sossegado.
Não se desfaça de si, por favor!


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

DESGRAMA

Aos alunos(sortudos) que nunca terei.

Eu nunca seria um Bechara!
Acho inapreensíveis
as regras de gramática.

Aliás, sejamos justos:
Foda-se a nomenclatura!
Viva o seu reto uso!

De que me importa saber
quando é "sindética" ou "assindética"?
O texto se trama e se aprim-ora
sem que isso lhe venha à genética.

Deglutem-nas os papagaios
por todo o ensino fundamental.
E após anos estudando-as,
não as dominam (é o normal...).

Acho que para bem escrever,
poesia ou o corriqueiro,
não precisa tanta tortura,
faz o que disse o mestre mineiro.

Penetra o reino das palavras,
aquele em que bem se usaram,
e, vendo como tiveram emprego,
está dado teu dicionário.

Vê também como se articulam,
como se regem,
como se virgulam.

Olha! Repara, atento!
Até mesmo de que forma
foram-lhes dados acentos. 

A lista seria imensa,
então deixo aqui só sinal.
Lê e escreve bastante!
E estarás pronto. Ponto final.

domingo, 21 de dezembro de 2014

DR. FERNANDO (Análise em Cena)

Para Fernando Grossi

Estou de frente pro analista,
que me olha, dedo no queixo,
por muito longos instantes.
Nunca minha vida me pareceu

mais desinteressante!

Escaneio, aflito, a semana,
e não vejo nada relevante.
Onde estão os conflitos
que me consumiram tanto antes?

Nada me ocorre, 
ninguém me socorre,
o que faço aqui, afinal?
Vejo-o em seu semblante:
não lhe interessa minha vida banal!

Às vezes sinto que presto contas
ao oficial de condicional.
Mas eu mesmo pago a conta,
não me condenou  nenhum tribunal.

Ele tem os "poderes do CRM",
mas não tem remédio pro meu mal.
Acho que não é embaixo o buraco,
é coisa espiritual.
Mas não sei se ele concorda
(essa gente é tão sexual...).


Mas não sei se tenho problema com sexo;
já não tive acesso,
e o excesso confesso não pega bem.
Então vou tratar de outros assuntos
(Entenderá muito deles também?).


Minha avó não entendia vergonhas:
"É tudo gente! O que tem?!"

E de mais a mais quem tem vergonha
acaba ficando seu próprio refém...

Então agora me desavergonho,
e até desfaço do encontro:
sei que vou ficar bem!

Um abraço, Dr. Fernando!
Acho que já não volto
semana que vem!

CHAMA "CHAMA" (Fogo Fátuo)

Com alguma honrosa exceção.


Mas o moço é acaso daqui?
Nasceu aqui? Aqui se criou?
E também desejo saber
no que o moço se graduou!

Talvez a moça em  maternidade,
que vejo nas fotos crianças.
Mas talvez mesmo assim se aproveite,
já que não vejo aliança.

E o moço mora onde?
Nossa! Que longe!
Se mora aí... não mora...
Se esconde!

É a moça então de outra parte,
e a distância se está mentindo?
Porque, segundo o aplicativo,
estou mais para seu vizinho!

E o moço trabalha em quê?
De que forma ganha seu pão?
Mas que coisa mais entendiante!
E lhe rende satisfação?!

Mas não rendamos papo;
há só mesmo papo de aranha!
E se é bom estar distraído,
mais distrai-se o que mais se engana!

sábado, 20 de dezembro de 2014

DA VARANDA DO BELAS (Telefone "ex" Marte)

Para os marcianos


Um dia ia a moça aflita,
mexendo no seu celular.
Esperava notícias da tia,
que acabara de se operar.

E lá ia um moço afoito,
que também mexia no seu.
E, em maquinações caça-coito,
quase à moça perdeu.

Mas a modernidade smart do celular
causou uma colisão efetiva.
Felicidade vem mesmo "au hasard",
e talvez seja assim mais bonita.

"Todo mundo é moderno",
a canção já está anacrônica.
Mas o moderno está inscrito no eterno,
e o amor sempre é força biônica.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CORITA

!

Para Mel.


Corita não fica,
só passa.
Coreto fugindo
da praça.


Nunca fui de nenhum credo,
mas quem não espera a boa nova?
Eu... confesso que espero!
Só não achei que era moça de fora.

Mas a sorte tem dessas coisas,
ou lhe vêm  números, ou nomes.
Mas esta veio conjugada
em oito dígitos de telefone.

Corita, bonita, não corre!
Não sou bonito, mas corro!
Canções para duas vozes
se cantam bonitas em coro.

A moça está no futuro,
dorme enquanto estou acordado.
Então espero o primeiro janeiro,
para ver o feitiço quebrado.

Mas o que digo? Não foi em degredo,
mas em sério brinquedo de expansão da alma.
Então acho que o segredo
é o coração ir batendo-se calmas.

Mais um pouco, mais um ano se conclui.
E outro começa e nele se inclui
tudo o que se deseja.
Mais ganha em dar-se pressa o que não meça
esforços para haver o que almeja.

E não preciso de tanto,
estou no ponto onde passa a balsa.
Então espero sorrindo o encontro,
e fabulo um conto de Sonho de Valsa.



Corita, não passa!
Me fica!
A vida ficando
bonita.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ONÍRICO

"Como se chama esta cidade?
 Como se chama a atenção
 de uma cidade que dorme,
 enquanto a gente infelizmente não?"

Dorme-se pouco nesta casa
nos dias que correm.
Correm e não me socorrem!
Dão-me noites e as recobram intocadas.
Dorme-se bem pouco...

Como se em se dormindo
se fosse estar à mercê de algo perigoso.
(Como sonhos podem sê-lo tanto?)

Os sonhos encerram perigos insidiosos,
mais ou menos óbvios, como o de acabarem,
ou o de nos revelarem,
ou o de tornarem a realidade um anticlímax.

(Medo de sonhar?! 
 É a parte do dia de que mais gosto!)

A realidade já não basta para quem sonhou.
Quer-se dar-lhe um basta,
mas é tão abastada
que agasta!

Sonhos ativam o interrompido,
tornam o silêncio grito,
são uma exumação.
Os sonhos tornam sótão o porão.

Mas onde nos porão em verdade?

"Longe se vai, sonhando demais",
mas aonde?
Aonde tudo se faz, e nada se responde.

Nem ninguém responde, se há crime.
Não há lutas nem por esporte,
não há nada que se esgrime.

Nem há medalhas se se completam.
Em sonhos quem se perde não se derrota.
Erra a porta e se alonga corredor adentro.
A cômodos incômodos de que...
nem nos lembremos!

Aos sonhos ninguém se atreve
a dar arquitetura.
Os sonhos são a casa da mistura.

E se tudo se mistura,
um pouco d'água e há solução.
Mas já não sonho, estou acordado;
lágrimas na escuridão.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SAGITÁRIO (Um Klik fraterno)


Para Natália Klik


Sagitário, o dicionário
não chega pra te definir.
Palavras não sabem, não explicam,
o que faz o leonino sorrir.

E nem se engulo seco, ou me perco,
te vejo afastar-te de mim.
Sagitário, és toda beleza,
e me falta destreza pra te traduzir.

E no meu itinerário, falho,
há atalhos que levam a ti.
Sagitário, na vida há tristezas,
mas eu tenho certeza de que o melhor é sorrir.

Somos o confessionário
de perdão pré-pago um do outro.
E se ouvissem o que nos dizemos,
diriam que somos loucos!

Loucos? Um tanto!
Mas talvez pra santos
até sirvamos (um pouco...)

Pois em nossa humilde aprendizagem,
pouco nos importa o que sabem
os que se acham prontos, ou doutos.

Anjo caído,
estrela cadente...
E quem não se duplica?
És meu tipo de gente!

A bondade é um tipo de ímã;
és agora minha irmã,
e minha rima.

A rima não é rica
porque o moço é pobre;
mas nossa fraternidade, nobre.

Sagitário, nunca esmoreças!
Há uma doce firmeza a te conduzir.
E eu ainda muito me espalho
na constelação enorme de ti.

E, sagitário, nunca te esqueças:
embora eu não mereça,
tua casa é aqui!

Breviário: saúde e paz!
Sagitário, te amo demais!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

VERSEJADOR (Poço Humilde 2)

Selfie



Sonhei moça que dizia:
"o mais perto da poesia
que cheguei foi Gabriel".

Sorri com um dó compungido da pequena,
que desconhece a poesia plena.
Acaso não sabe que apenas me escrevo?!
Outros são poetas; versejo...

Há poetas tão a-Pessoa-dos,
poetas tão Herbertos,
poetas Dru-monde-ados.

Poetas de poesia vasta,
poetas outros, mas, se isto lhe basta,
não lhe nego o meu quinhão.

Empunho a pena e pobre embora o canto,
me satisfaço se produzo encanto
no canto do mundo que ela é.

Não pude ser Pessoa,
não quero ser Gilberto.
Não dá pra ser Caetano,
não posso ser Herberto.

Só peço, poço humilde,
não me falte o verso.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

CARTA A JOY-SE (Fiota)

Para Joyce Campos

Filha, ouça o que digo!
Ouça o seu a pai:
Essas coisas se passam demais!

E, de mais a mais,
o amor não é milagre,
o amor é "antes tarde..."

E "tarde" é bem antes
de "ainda depois";
o amor vem cedo, ora pois!

O amor é assim mesmo,
cantou-o outra gente:
"me chegue assim de repente".

E, a qualquer tempo,
ele é coisa azada.
O amor não tem hora marcada!

O amor é como a felicidade,
às vezes vem sem alarde.
É então como o Rosa
tem há tempos sabido:
é um achado de distraídos.

O amor tem carta branca,
ele faz o que quer;
toma homem, criança, mulher.

O amor não se prende,
não cai em armadilha;
o amor se aprende e se cria.

É um menino ladino,
entenda-o, criança:
De repente, num pulo,
te alcança!

domingo, 14 de dezembro de 2014

BALADA DE YOKO A JOHN

Para nós, que aqui estamos.

Disse a Lennon Yoko:
"Rapaz, quando morto, 

não leva consigo mais que alma!"
Eu digo: não deixe que seja pouco!

Para onde vocês vão,
é vão dinheiro.
Então sigam a japonesa, 
e expandam-na primeiro.
(comecem já em dezembro,
não esperem por janeiro).

Não se gastem em amealhar!
E não digo porque me agaste
a ideia do acúmulo,
mas porque errar quanto ao que se estoca
é que me parece absurdo!

Porque aquilo que você faz,
vai-se tornando você;
mas tudo o que se compra
se destina a se perder.

E não sou o arauto
de um regime comunista
(embora, de certa forma,

intuo que ele exista).

Mas num outro plano,
e não digo planos de economia,
dos que se faziam por lustros,
na Rússia como então havia.

Digo "plano"
como quem diz "dimensão".
Outra esfera, mais etérea,
avessa à acumulação.

E se vão-se dar à poupança,
sugiro que  poupem tempo.
Foi sua mais fina herança,
escolham em que a lançam,
escolho como o empenho.

A felicidade não se compra,
e assim é porque não se vende.
Então não importa o seu sonante,
nem o de nenhuma outra gente!

Mais rico é o que se gasta,
dando-se à arte de se melhorar.
Porque o que melhora aqui
é o melhorado de lá.

E o retornado a isto, à Terra,
também há de já vir melhor.
Talvez não melhor a ponto
de saber as sonatas de cor,
apenas melhor a ponto
de ter deixado o seu pior.

E não me alongo no assunto,
"só sei que nada sei".
Só digo o que presumo,
mas um dia saberei.

Então façamos resumo:
preocupe-se mais em ser gente,
que o que só pensa no vil metal
arrasta o metal de correntes.

Escolha outra pauta pra soar-se,
pautas, quiçá, mais ricas;
pautas de libertar-se!

sábado, 13 de dezembro de 2014

ALEGRIA (Santíssima Trindade)


Para Letícia, Izabella e Bruno.


Soube de uma criança
que sabia passar os seus dias,
e não queria saber de nada:
a guria só sorria!

O que não era matéria de espanto,
era filha da Alegria,
e fora engendrada no canto
que certa dupla cometia.


E era tão dada a sorrisos,
que também Alegria se batizou,
pois chamaram-na "Letícia",
nome que se lhe ajustou.

Só lamento que não a tenho tido
nas minas de ouro do lado de cá.
Se bem que há minas de coisas mais belas
na cidade "escrita no mar".

Sinto-me até um rei mago,
tendo visto a estrela chegar.
E sendo filha de estrelas,
destina-se mesmo a brilhar.

Sem mirra, nem ouro, nem incenso,
beijo o rebento da majestade.
E pra que a saudade não me arrebente,
passo no Rio mais tarde.

Mais tarde mas nem tanto,
ou a guria abre-me a porta!
E nem pode ser tanta a espera,
a amizade quer-se exposta!

Beijo, trio encantado!
Seus risos são minha melhor canção.
E soam no "Achados", perdidos,
no meu mineiro coração.
= ; )

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

CIÚME

Para John Lennon

Não sou imune ao ciúme,
mas não me descabela.
Quem viu nisso perfume?!
Recende a... me exaspera!
(E é certo que nada tempera,
coitado de quem o considera!)

E quem pode blindar o parceiro
contra as tentações que há na Terra?
Vêm-nos de todos os lados,
brindam quem não as espera.

Não chego a concordar com o baiano,
as maçãs não são todas iguais!
Mas quero ser livre em todos os planos!
(Cada um sabe o que faz!)

E se, ano após ano,
escolheu a moça o rapaz,
mas não estão sempre se acompanhando,
o melhor é aceitá-lo em paz.

Há quadros que levam a enganos,
que se podem tratar com candura.
E que trágica tela seriam
as Belas Artes sem a pintura.

Então deixe arrumarem-se as moças,
e se divertirem,o que tem?!
O contrário é dar-lhes masmorra,
e morrer-se um pouco também.

Há nossa vida, a minha e a sua,
a esfera mais íntima não se mistura.
Então proponho nos conjugarmos,
mas nos algemarmos... jamais!

Se podeis entender o que digo,
eu vos digo: já amais!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

FESTA À BEÇA (Far Far Away)

Recebi de uma loira (linda!...)
um convite obscuro.
Mas o recebi, pontudo,
com o caralho duro!

Convidava-me a moça
para com ela "perder a linha".
Fiquei confuso com tudo!
(só conhecia farrinhas...)

Perguntei-lhe pelo paradeiro:
"Seria a festa onde?"
Respondeu que era distante,
seria no "longe, longe",
onde se bebe livremente,
e a procura não se esconde.

Recebido com gosto o convite,
não me tardou aceitá-lo.
E pensei formas diferentes
de durassuavemente contraprestá-lo:

banheiros que se invadem,
roupas que se perdem,
gente curiosa que espreita,
versos que se anotam em guardanapos
para impressão na memória de cenas indeléveis. 

carro, rede, parede!
Sarro em todo anteparo
que possa matar-me a sede.

Mas não há como surpreender uma moça
já afeita à confusão.
E a recorrência do caos
não diminui o tesão.

Talvez até algo lhe agregue,
que há lucro na experiência.
Sabem-no as moças alegres
e os rapazes de toda a tendência.

Há idílio na festa da carne,
o amor em tudo se imiscui
quando se brinca até tarde,
em recintos castos ou promíscuos.

Ouço baterem-me à porta,
a moça não se demorou.
E ofereci-lhe a espada mais torta,
com que se cingiu e esgrimou.

Hoje, no dia seguinte,
não experimento culpa mas cansaço.
E como o desejo não se extingue,
vou descansá-lo em buliçoso abraço.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PROGRAMA SOCIAL (Dia de jogo)

Achei que era amor,
só que o amor não se acha
mas se faz.
É um ofício de todos, 
qualquer um é capaz.

Às vezes parece difícil,
mas é livre a iniciativa,
sem corporações de ofício.

Livre iniciativa mas
sem "igualdade aos desiguais".
(O amor, se é o de um,
é o de mais!)

Não há como se amar sozinho,
é baião de pelo menos dois,
como o carinho.
É um carinho qualificado,
e pra distribuir não sai caro.

É ecologicamente correto,
é muito sustentável.
(O amor é o recurso mais renovável!)


É capital que não se apouca
nem por se gastar.
Então amor não se poupa,
"foi feitinho pra dar".

Todos amando em campo,
arquibancada, cadeira cativa.
(Não há amor se se limita!)

Mas vou interromper o fluxo,

ou o amor segue avante e se expande.
Só com o pouco que aqui tracei
já se pode começar o exame.

É exame sem provas,
mas preste atenção:
A matéria cai na vida;
aliás, despenca.
Temos que aprender a lição!


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

VERSINHOS DA BOAVENTURA








Para Cristiana Rasslan

Eia, Centauro!
O tempo urge!
Urge, mas pressinto
que não a perturba o que surge.

A mulher é feita de coragem,

toda ela coração;
e para quaisquer viagens,

quero pegar-lhe da mão.

"...um dia conheci criança...
linda, virou mulher".
Mas as purezas da infância,

mantem-nas quem quiser.

É o que eu seria se fosse moça,

não digo as pernas de louça
(tanto não alcança minha pretensão!),

mas se fosse a moça faria
o que a moça faz dos seus dias,

amando sem restrição.

A moça é um feliz incentivo,
por isso, bem mais que amigo,
da moça virei irmão.

Desculpe estas rimas bobas,
mas é bom ser feliz à toa,
sem esforços de produção.

Então  muito nos amemos,

que o mundo é bem mais ameno
sob sua inspiração.

Boas aventuras, Kika!
Parabéns pela sua vida,
melodiosa canção!

Fica aí meu amor declarado;
cante-o em bolero,
cante-o em fado,
eu o canto a plenos pulmões!

= : )

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

RIMINHA DE LENNON (Imagine he's around)


John Lennon era de um brilho
de acender o planeta.
Pena que nele haja tiros
(um acometeu-o em cometa)


Mas mesmo o que passa rápido
penetra no coração,
órgão que se inspira nos sonhos,
e os sonhos se inspiram em canção.

Então o oito de dezembro
não vou tomar por tragédia,
apenas mais um dia em que me lembro
de sua presença régia.

#justimagineheisaround

TORRE DO CASTELO DE NUVENS



Sonhei com a moça e foi bonito!
Mas não posso publicar o sonho,
que não foi dos mais insossos. 
Mas pode acreditar que, no fundo,
era um amor carinhoso
(apenas, por distorção do mundo,
tenho os sonhos de um libidinoso...).

Porque nos sonhos é-se sempre mais livre,
e ali podemos desprezar
tudo aquilo que aqui nos oprime,
como as roupas, a nos apertar.

Mas na atmosfera onírica
só se pode esbarrar em nuvens, leves;
e a nudez sendo muito mais lírica,
não tinham sentido as vestes.

Mas os sonhos, sonhos sãos,
são o universo paralelo.
Então voltemos aqui:
você sonha a canção e eu, o prelo.

domingo, 7 de dezembro de 2014

COMO SE EM PERNAMBUCO

Para Rayra Freire

Como passa essa moça
quando não passa por mim?
Procuro-a morro acima e abaixo,
e não me vem o diacho do "sim!"

A saudade é uma coisa arretada,
e faz-se apertada assim,
pois meus passos não levam a você,
e seu espaço não é o de mim!

Tanto me outro, tanto me abandono,
que na primavera verão
que já sinto o  inverno no outono,
derramando-me em folhas que deito ao chão.

Mas sei que nas terras suas
o frio é coisa que não há.
Então só conhecerá o aconchego
em se mudando pra cá.

Mas não lhe importam o inverno e o outono,
e serei dos que nunca verão
que a moça já tem outro dono,
e a primavera é só recordação.

Recordação do que de fato não houve;
não houve ontem, não há hoje!
Sonhos ao céu, eu no chão,
e levarei ao caixão estas flores.