sábado, 29 de dezembro de 2012

CÊ MENTE



Diz-me semente de mim,
mas sinto-me completo assim.
Onde há alguém que aquilate
que já este coração bate
suficiências?

Bate e se debate com ingerências,
mas do coração não há ciência.
Pobres cardiologistas
sobre os nossos debruçados!
Não conhecem as guerras,
as santas, os cruzados!

Não fujo combates,
não temo abates,
sou um coração.
E bate!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

INCLINAÇÃO



Coragem para debater-se
com as agruras da noite escura
sem deter-se nessa espécie de tintura.

Pintar-se do verde da esperança;
vestir-se dessa cor, a das crianças.
Saber sonhar o mais que não se tem
sem fazer-se do desejo refém.

A questão se resolve pelo foco
e resolvo até o problema que não toco.
Tomar a senda clara da luz
"difusa, confusa explicação".

(É que há o que se sente,
como nos inclinamos, e que não
pode padecer explicações...)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Ocaso


Gosto do ocaso e acaso
não me despertam amanheceres.

O que fazer se me vestiu
o dia desses afazeres?

Não faço mistério do mister:
entender-me é profissão de fé
(Que só comungue comigo

quem de verdade quiser!)

Perigoso transe no trânsito
e meu Português faz-se sânscrito...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Inacabado

Eu bem que lhes disse
que o mundo não se acabava
sem que eu os revisse!

Há ainda muito "aaaaaah!"
E quem a estar vivo resiste?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

BATO-ME (AÇOITE)




No meio da noite
o açoite
de uma vontade de não ser.

Mas como obtê-lo
por meio
diferente de morrer?

A não ter nascido
não me arrisco;
não, não o posso obter!

Então me bato com o
mundo arisco,
e de dobrá-lo
vou viver!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

INTERAÇÃO





As palavaras,
minhas estrelas,
são a interação mais bela!

Pois vejo,
ao escrevê-las:
fazem de mim
o que eu delas!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Partícula(r)


Movemo-nos num mundo em que há sombras, 
procurando as frestas de luz. 

E as há, azar para o que em nós só quer planger! 
Por que não se implantar o novo se não há bem em remoer? 

Luz!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O De Vaga Ação


Não fazer nada com o que, dizem, deu-me a vida, como se desenvolver um potencial fosse atentar contra o presente. A cavalos dados não se olham os dentes, e quem quiser que invente a forma desdentada de se nutrir. O que se deglute sem processo, o que nos engasga sem recesso, e não nos é dado cuspir. A forma turva de olhar o límpido, como se céus claros fossem a lousa sobre que não se lança nódoa para não se comprometer. (E a que compromisso se lançaria quem não tem certeza de ser-se, nem pratica o morrer-se, nem concebe sob outra forma o viver!?). A vida é uma reiterada prática do não saber. E se são acertos ou erros aquilo a que se volta, isso não nos importa, quando a rota não se corrige. Melhor incorrigível rota, imarcescível flora, do que jardins de plástico que se cobrirão de sóis ao anoitecer.

E quem a ser muito feliz escolhe ver? E quem escolhe?






"Sobre edifícios, no trigésimo andar, uma flor vermelha nasceu..."

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Raso


Riso lacrimoso. Lágrima risível. O que é isso com que na noite me angustio? A noite é campo da paz. A noite é pro plantio do fastio. E por que não tenho em escudo contra a dor a expansão com que me irradio? Cores vivas na paleta do dia, o furta-cor ao mirador da ampulheta. Um tempo em que não é escolha feita mal-dedicar-se a más escolhas sem colheita. No dia implantou-se o que se via, na noite deixaram-se estar os que se deixaram estar. Não brota nunca o que fica pra "se mente". E como traduzir-se em outra linguagem? É como piece of mind, só que de mente.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

À Deriva



O que sinto é que neste mundo não fiz nada às escâncaras, e que se cansam sem que me alcancem. E sou, na melhor das hipóteses, uvas postas no alto; na pior, passas.

E dos que passam guardo a ternura que lhes nutri, ainda nutro talvez, por mais que os dias sejam tais que não nos possam ver juntos.

Junto então ao meu o seu quinhão e somos já coisas diversas. E quem precisa de unidade?! Cada um se vale das medidas de que se pode valer (por que mais se vale...), e o metro não ultrapassa a condição de mera convenção. A muitos não lhes basta, é pra outros excessivo, e os ultrapassa. E vamos todos aos derivados.

Uns derivados, nós todos!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Fresta


Hoje sopra desses ventos que marulham, não importa o quão secas as terras por que me distribuo. E por que me distribuo se não haverá conclusão? Sentir um pesar tão grande por Lennon já não estar, em (nem tão) plenos anos que correm, é sinal, talvez dos fortes, de que outra coisa quer chorar (mas esse sinal jamais será dos fortes...).

Como conciliar (se nem o sono concilio) essa saudade do que não conheci com o medo, assombroso, de deparar o jamais visto? Visto-me com cores de normalidade, e transito pelo dia. O dia é-nos dado a todos, mesmo aos que, ao cabo, sentem que não o tiveram. Ativeram-se, talvez, ao que de mais tolo se dispuseram a fazer. E essa não é a maneira de deixar a vida acontecer.

A vida está nas frestas, disse-o mais de um poeta.Some are dead and some are living. Some are deadly leaving, and some keep leaving the dead. Uns tem living e outros sala de (mal) estar (ou sala de star, que difernça!) Starkey, com os cotovelos nem pensar! Mas como sem os cotovelos num mundo de tantos, com tanto por decifrar?

Aceite como o conduzem, parta a linha que querem que cruze, e leve as cruzes que lhe quiserem dar. Alguém alguma vez lhe disse que o ar se podia aspirar?

Sempre aprende o menino a andar. E há mesmo certas coisas que só existem lembradas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Castle of Illusion


Acreditei que era bom, e fui-me seguindo, ou me cegando, imitando o que acho que sou. E tanta confusão, jamais acerto, sempre aperto, nunca ela.

De quem são as saudades que sinto, eu que não mas permito? Eu que não mais me permito que restar aflito! E a que se destina aflição quando não se quer estar no destino que se almeja? Não se almeja sem que a alma veja, e por que, Deus, não clareia os olhos que me pôs na cara? Que me põem na cara ilusão de que ando por onde caminho?

Cá de meu não tenho mais do que o que se perdeu. Só me perco o que me largo à estrada, alargada numa estreiteza de coragem tíbia, de gente pouca, de vontade contra si apontada, mais à vontade se se furta, pura, a macular-se em realização.

Ah, doce campo imaginário da aspiração!
Há "ah!"
"Há!", não!



Dos cegos do castelo me despeço e vou,
à pé até encontrar, um destino, um lugar
pro que sou.

domingo, 26 de agosto de 2012

Vida na Zona (Natu Nobilis)



"Singela, porém tão bela, minha cidade é o maior barato! Por isso eu digo com orgulho: eu sou um teixerense nato! Na Praça da Matriz, vamos levantar poeira, não há nada mais gostoso que o carnaval de Teixeiras". 

Teixeiras, a nem tão longínqua terra natal de minha mãe, não é propriamente Santa Cruz de Minas, mas é certamente mais sinceramente pequena do que Sabará. E, em tempo de pleito, aqui como lá, haverá quem saiba cantar-se, peito aberto e dedo em riste, um orgulhoso filho nato da terra, onde quer que nascido, fora ou nela.

Valdomiro Miranda era teixerense nato, de fato e por compleição. Valdomiro, dizia-se com razão, tinha uma mirada certeira para a oportunidade! "Se te cheira a proveito, lá tu estás, Valdomiro!", dizia-lhe Francisco, sujeito reto e escrupuloso, mas que via no amigo "um divertido!". 

Naqueles idos de 50, Valdomiro Miranda cultivava um rodriguiano "bigodinho cínico", e era de longe bem mais progressista do que os Varguistas da era democrática e do que os golpistas inveterados. E o era muito mais nos limiares da cidade, onde a liberdade espontânea e também profissional grassava entre as moças de todas as graças: Filomenas, Valdetes, Jupiras e Keylas.

Sabendo-se já preterido pelos pruridos sufragantes de aliciados e aliciantes, Valdomiro foi buscar apoio onde o amor se exercia. E foi lá, nos limites da cidade, sem os rodeios de que me vali para esta singela (porém nem tão bela) anedota, que mirou direto ao ponto:

"Senhoras putas, chegado o pleito, deem de lado, deem de banda, votem no Miranda!". 

E assim, simples e direto, com o apoio das militantes da ternura remunerada e para o assombro de Francisco e o deleite dos chegados a uma variação que nada alterna, Valdomiro alçou-se da lambança à vereança: variou sem variar!


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sunflower



Não é posição mesquinha não deixar, por vezes, as coisas minhas. É quando, protegendo-me, eu nos poupo. Gritar às diferenças até, esgotado, rouco, enlouquecido, vergastado, deixá-lo.

Não ocupar jamais as posições em que, por força da empatia, tiraria da própria carne ao ter de desferir no corpo alheio golpes para cuja fúria não enviei qualquer estímulo.

Como passar em revista as palavras alheias sem lhes saber a subjacência? Talvez melhor lhes sirvam do que as constantes em minha teia. Como brandir a bandeira de uma instituição, quando se vê melhor o mundo sem a concretude do que pensaram seus remotos instituidores?

Não! As dores não são meus institutos, mas tenho um instituto, belo, arguto, de extrair-lhes flores, sabores.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Nimbus


Tu te dás conta do quão sozinhos estamos? Nos concebem, criam, orientam, soltam, e já não sabem a que vamos. Crescemos personagens da mesma história, os mesmos fatos nos enredam, e nem nos mesmos nos tornamos. Rimos do mesmo, do mesmo nos lembramos (Parece-nos diferente).

Não temos a mesma fé, só do mesmo duvidamos. Escolhemos de quem nos acompanharmos,e não sabemos pelo que nos guiamos(Amor são nunvens sem guia, o Geraldo diria). De tanto dependem as nuvens! De que o Sol ferva a água, evaporação. De que azule o céu, iluminação. De que ergamos os olhos. Visão. Que alcance?

Busque...Descanse! Busque... Descanse! Entendimento? Relance.

Quem saberá pra onde vai consumido em desvelar de que veio? É velar! É desmantelo! E diz mantê-lo uma chama de que ninguém sabe o esteio, quem derrama. Os quintos do ouro para os quintos! Para quem tem parte! E com quem parte ninguém teve aparte capaz de nos fazer tomar partido quanto ao que virá. Virá?

Viração. A vida em brancas nuvens, em nuvens de branca dissipação.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Do meio. Do nada.


Meu telefone fixo, cuja fixidez não está em mais do que na mudez, exceto por ter a Carlota, um par de vezes, conversado com a secretária eletrônica, minha criada-muda. O interfone que ainda não me foi dado apurar se funciona. Esses os desperdícios que me são mais caros, que me dão mais barato, que me poupam o sobressalto.

Não. Não há misantropia alguma em só buscar contato quando se puder doar. E supostos caloteiros, os Axl Rose, os Tim Maia, estão muito mais pra protetores do que os mágicos Dylan, prestidigitadores capazes de, poupando a alma aos labores, enviar o corpo à turnê, conservando a alma em seu lugar de prazer. É o que fazem, em lugar de prazer... Como um Dorian Gray que só enviasse o quadro a público, deixando-se estar coberto em algum sótão, só, tão só...

Mas o que eu faria com o melhor de mim? Com esse extrato, substrato, com a subjacência? Com esses baluartes afeitos à erupção que, vez por outra, em levante, fazem-se torres frontais? De marfim, ou do mar sem fim...

A melhor defesa contra a frustração das expectativas é não as ter... 

Altas!



There's a few more bruises
If that's the way you insist on heading...

sábado, 11 de agosto de 2012

No Bolso


Droga! Não se vende o que não se emprega! Então não serei vendido! E se não me vendo há nisso uma fidelidade lá ao tempo do medo. It breaks my heart to see you hanging from a shelf.

Em que prateleiras se põe o que não é prata da casa mas prato desfeito? Do lado oposto ao do pranto? Quem já viu ouro azinhavrar? Encare a ilusão da sua ótica. 

Ouço agora um douto zumbido que me diz que escreve o que não sabe ler. E o que tenho feito em toda essa gente de letras senão me deter? E é assim, por isso, que sempre que me falam nelas falam-me de outras. Ninguém fala senão de si. Do contário, ecoam! Eco!

"Agora olho-o com a liberdade com que se fita um pequeno jogo de paciência, que nos faz pensar: Que importa se não consigo colocar as bolinhas nos buracos; afinal, tudo isto me pertence, o vidro, a caixa, as bolinhas, e o restante; se eu quiser, posso meter calmamente o problema no bolso".
                                        Kafka, Diário

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Oito Oito Sete Nove


Sol a quinze graus de Leão na casa dez em conjunção com Júpiter e Vênus. Bonito. Alinhamento. Positivo. Merecimento. Ascendente em Escorpião a quatorze graus, com Urano bem próximo. Acontecimentos fortes, cedo. 

Nódulo lunar norte a oito graus de Virgem em conjunção com Saturno, na casa onze, que é a casa de Aquário. Nódulo sul a oito graus de peixe, na casa cinco. Lua a vinte e um graus de Aquário, na casa quatro.

Autoemprisionamento. Autodesconhecimento. Passado. Existencialista! Conexão. Confusão. Abolição, de fronteira. Precisa discernimento. Análise full time. Carma remissivo. Peleja. Saturno: De novo! Leão na casa dez: Vá ser NO mundo! Separar-se do mundo subjetivo. Separar-se das coisas do outro. O que é a realidade? Os fenômenos. Isso é coisa da minha cabeça ou está acontecendo? O que está na minha cabeça está acontecendo?! Ter a pia terapia sempre à mão! Complexo psicológico. Emoção. Análise racional constante. Psicologia cogntiva? Útil. Avaliação. Peneira racional. Essa viagem, inventei? Aumento? Vênus próximo ao SOL: saber o que é o tal amor. Lançar-se. Salvar o mundo? Missão pra quem esteja podendo. Fantasmas interiores. Chamar à razão. Luz do SOL: clareza pro pensamento. Aurora: arquétipo do renascimento. Deixar o enamoramento da treva. 

Artista. Quem não sabe o que é sabe onde estar? Conhecer-se vendo-se ativo NO mundo. Falta o hábito. Falta a referência. 

Júpiter. Segundo Sol. Luz! Luz! Luz! Luz porque falta luz!
Dividimo-nos todos em "divididos" e "mais divididos ainda". 

Racional, crítico, brilhante a mente. Fé pura.
x
Sombrio, ensimesmado, apático no mundo-cão.

Não tratar o inconsciente como aos palestinos os israelenses: cercá-lo, farpá-lo, criá-lo em homem-bomba. Quem não tem nada a perder... Conhecer o negativo sem o sorver. O diabo, a sombra, é preciso saber onde está. Tem de olhar de "revesguê de olho". Ver a sombra sem identificação! Sol-Júpiter e Vênus! Sol-Júpiter-Vênus!

Nódulo sul em peixes: complexo de salvador. 
IN-TEN-SI-DA-DE x medo do amor.

Mercúrio no meio do céu: pensamento claro. 
Sol em Leão: Mostra-te! Ascendente em escorpião: Não!
Loucura pé no chão.

Vênus em Leão: afetos intensos em expansão. Gosto pelo artístico. Diversão.
Marte em Câncer: Segurança. Pró-família. Trabalho com aplicação.
Júpiter em Leão: Autoconfiança. Noção da potência e do limite. Lealdade. Ambição. Autoridade. Generosidade. Cordialidade. Gosto por crianças. Talento para a edução.
Saturno em Virgem: Método. Ordem Precisão. Lógica. Racionalidade. 
Urano em Escorpião: Interesse acentuado pelo esotérico. Curiosidade dos mistérios. Energia interior.
Netuno em Sagitário: Fé interior, ainda que sem filiação. Ideias nobres. Intuição profética. Viajante.

Quanto vem do espaço para o espaço de uma vida? Quando dela se perde se é tudo matéria esquecida? E que importa a matéria? Já não é matéria de discussão? Aperte-se com o que aporta, se lhe ajuda a evolução. Evoluem os astros bem alto, olhos ao céu, pé no chão. Marcha-estradeira, inimigos na fronteira, tanto lhe aporta a canção. Pena no tinteiro, penas sem grilhão. Pensamento é meta, a quem transcende, libertação. 


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Cross Road


Esta semana no trabalho chamaram-me "um perdido!". E não o fizeram porque não me arranje com pontos cardeais (com cardeais até talvez!), mas por uma falta de castidade de que não lhes faltavam indícios, e não lhes dei, então, combate. É-me chegada a hora da cruz(cada um é cruzado do que quer!). Aos 33 Jesus na cruz; Cabral no mar aos 33. E eu? O que faço com esses números? De resto, quantos castos não fazem mais que número?

Reflexões com que abri o ano no Planalto levaram-me a crer que era já tempo de enumerar virtudes... a que conquistar. Mas já de novo puni-me de meus excessos, mais de vez.

Dizem que bem-intencionados pululam no inferno, e não é menos certo que da premissa de um bom começo não se extrai, por força, uma boa conclusão. Faço então conclusos a Vossas Excelências mais brancas que vermelhas os autos da minha paixão vocabular, que não poderia ter nascido melhor conduzida.

Lembro-me com perfeição da primeira vez em que me deixei ficar em uma palavra por mais que o tempo necessário a sua decodificação, à extração de sua utilidade. Contava talvez oito anos e estudava no Colégio Santa Maria da Floresta, escola católica que, com seus hoje 109 anos, é a mais antiga deste Curral D'el Rey. Tia Ana Lúcia, beata pedagógica, conduzia-nos pela capela da escola, mostrando-nos os passos da paixão de Cristo, através de uma linda via crucis talhada em madeira, minha preferida to this very day.

A Capela era de si, para mim, um local misterioso, pois nunca andei muito em igrejas (a luta com o altar é já antiga!) e, ao contrário dos filhos cujos pais os vinham buscar ao fim do dia, eu esperava pelo Especial(o balaio da meninanda) no pátio, com outros "transmirins"

Nesse dia já avançáramos sobre a ajuda de Simão e a piedade de Verônica, e dei-me com este passo: Jesus é despojado de suas vestes. Aquilo saltou-me aos olhos encantados! "Despojar-se" era bem mais nobre que "despir-se" (e jamais deixei o despojo!), e de "vestes" bem mais do que de "roupas"! E o fascínio fez-se amor, arrebatamento, quando por clareza da imagem e da sequência não me foi necessário o concurso da beata para a tradução.

E foi assim que meus olhos aprenderam a dar-se a palavras com detença. E vocês, tendo-o sabido, que prolatem minha sentença. Mas digo, em alegações finais: como eu casto poderia existir, se minha primeira e divina, palavresca lição, fez-se do despir!?

Despojo-me!


(149)

sábado, 4 de agosto de 2012

Tinteiro



                                                                                                                        É preciso estar atento e forte.
                                                                                                                       Não temos tempo  de temer a morte.
Não há tempo
de fingir-se a  vida.
O perigo assoma e
nos arromba; ferida.


Baldado o esforço
de proteger-se;
os caminhos se cruzando,
é perder-se!


Sei do conforto de casa,
como sei!
Mas mais cresce (é da Lei!)
o que à estrada se larga!


Não se tema a solidão,
se for a condição andar sozinho.
Seguir picada pronta é vão!
Dê-se asas! Ao caminho!


A vida me suja,
me lanço ao chuveiro.
A tinta recolho,
alimento o tinteiro.


Corpo e alma limpos,
mergulho-lhe a pena.
E a alma, vertida,
só assim se faz plena.




(147)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Orquestra do Acaso


Meu doce é tempo de cama,
que amanhã é temprana a labuta!
E d'agosto o projeto  perfeito
do teu filho; não fujo à luta!


Meu filho 'inda me ouve dizer,
quando estiver de mim chateado,
e lhe direi com oportuno prazer:
Foste o acidente mais buscado!


Acidente (quem não sabe?!)
de relevo,e te concebo para a liberdade.
Não te projeto (como tantos) para espelho,
nem te protejo, dura ou doce,
da verdade.




(150)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Corte



Acho muito duras
as pessoas duras.
(Compostura!)


Acho muito fortes
as pessoas fortes.
(Porte!)


E quanto duro
sem medo da morte,
mas medo da faca,
sangrando do corte?




(43)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Pós-Planta


Bateram-me à porta às oito:
Dotô precisa mover o carro!
Mas eu! Mover o que é automóvel?!
(Sou fraco demais pro que não precisa de mim)


Desço combalido,
homem pouco de pós-plantão.
Tiro o carro sem perguntar a que vão
(há sempre por fazer nos condomínios).


Subo e a resposta soa:
a motosserra consome 
a árvore do pátio de carros.


(Não há em condomínios 
quem se condoa?)
Mas por quê, meu Deus?!


E aquilo é, tonítruo,
um peeling na minha 
cara compungida,
na nossa cara de pau..
de planta.


Plantado em atonia,
sem raiz, sou um
quase-nada pós-plantinha.




(1)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Um Bonde Chamado Desejo II (Pra quê os trilhos se não passa o trem?)

                                                                                                               
                                                                                                              Cabe pois num vagão
                                                                                                              toda a nossa viagem.
                                                                                                             Mas é cinza e carvão
                                                                                                             amor, e sua imagem.


E me perco,
como atrasado no bonde,
e nem há, à vista,
janelas que almejar.


Mas a vista se derrama
porque a rua é já ali.
E o que desejo se esconde
para não o alcançar (descobrir?).


Atônito, desejo no bonde.
E os que nele me veem
"Faz por onde!"
Mas por onde, mãe?


Ferros via...






                                                                                                                                          Eis que range nos trilhos
                                                                                                                                         uma forma de adeus.
                                                                                                                                        Os cuidados são filhos
                                                                                                                                        da tristeza de um deus.




(20)

domingo, 29 de julho de 2012

Raízes ao Ar (cancerianas)


                                                Eu olho o mundo da janela
                                                Eu vejo o filme além da tela
                                                Os dias passam como por encanto




Pouco me inspira tanto
quanto o desfile desajeitado
de uma mãe inciante.
Vem de alimentar o mundo,
e tenta alimentar o infante.


Esqueço-me a olhar da janela
sem coragem de descer a um tal pátio.
É que isso reclama concurso,
e obtê-lo mata-me de enfado!


Mas já não sendo eu mesmo criança,
convinha, talvez, engendrá-las;
ou importá-las, quiçá, que me bridem
bagunça na minha sala.


É, eu já não sendo criança,
impõe-se-me produzi-las,
que vida que supera a infância
fica da vida esquecida.


= : )




(148)

sábado, 28 de julho de 2012

Copas Subterrâneas


Queria folga.
Preciso inspiração.
Mas o trabalho assoma,
inundação.


Sei! Eu sei, Minas,
Beagá é o lugar!
Mas, ossos do ofício,
tenho andado Sabará.


Tudo cheira a mofo.
O gatilho soçobra.
Só sombra de alvoroço.
Liberdade 'inda demora.


Igrejas esquecidas,
arrefecido turismo.
Fé esmaecida, 
presente sem futurismo.


Aqui tudo é pretérito,
apetite esquálido.
Na maternidade não se dá à luz.


O vento não infla.
A pluma não apruma.
Lugar em que só se plantam
tumbas.


Fogo fátuo.
Falta de ar.
Raízes sem terra:
Sabará!




(146)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Spieler



                                                                                                                                     Wie Kinder waren wir
                                                                                                                                     Spieler
                                                                                                                                    Nacht für Nacht


Wenn Sie nur wollte!
Mas ela não volta!
Miséria porca
a vida em só um


Por que mo deste?
Era vidro e se quebrou!
Agora sem cenas de ação,
sozinho no filme de amor.


Fiquei João sem Maria
Pássaro verde, cadê Alegria?!
Ficou imenso o quadrinho
sem pão marcando o caminho.


Agora eu era o rei,
era bedel e era também juiz.
Desordem no reino,
bagunça na sala,
do crime infeliz,
tudo fui eu que me fiz!




(144)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

É o posto!



Faço o que posso!
A vida? Adoço!
A porta? Não forço!
Convite? Me coço!


Nada disso está mal, 
está mais pra natural.
Mas, se lembra?:
Sou humilde poço;
nada de muito alvoroço!


Nada mais conforme à ordem.
É procedimento escorreito:
não seco os dias que chovem,
nem o nascido torto endireito.


Tanto ele cuida sua rota!
Paga, poeta, o preço da aposta!


(143)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Apenado



Ai, Carlos!
Ai, Drummond!
Se ao menos eu te seguisse a lição,
e pelo caminho deixasse
os versos que ali vão,
sem volição ou remissão!


Que mania a de salvador!
Que atração pelo caído!
É que serve à expressão da dor
o verso (como o poeta) combalido!


E se não os posso harmonizar,
não penetrasse o reino das palavras!
E deixasse estar em dicionário
o que, extraído, não me extirpa 
o "solitário".


Mas a pena, parece,
foi-me imposta.
E não parecer haver juiz que possa
dar indulto, perdão, alforria;
ou prestidigitador que mova
a dor em alegria.


O que aceito é minha condição.
E, executada, nem me dou à escansão.
Não conto versos
ou metrifico o que desponta, 
que torturados não se prestam contas!




(56)

domingo, 22 de julho de 2012

Em quê estão?


O amor tanto se disfarça,
ou, cego, não o vejo?
Escondendo-se maltrata, 
ou, covarde, não percebo?


Quiçá é passado há muito,
desde quando "ainda é cedo!".
E que hora é-lhe ajustada?
Hora séria ou de recreio?


Hora que ora, oração?
Ou hora pagã, libação? 
Perdeste a hora Isolda, Tristão!
Te deixaste Hamlet, caveira não mão,
indagando ao amor, cego e surdo,
extemporânea questão!


O amor nasce pronto!
Não há intentá-lo,
não há meditá-lo, editá-lo,
conformá-lo!


Conforme-se!




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De Novo-Velho Francisco



Já tive mina de prata.
Libertei jazida que jazia.
Mas nunca vi,
isso ao Chico dizia,
mina de menina de ouro!


E se eu for deputado,
já tudo se acabou!


Que alforria na Loucura!
Veio e me levou...






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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Campos Abranjo


Não há como, na vida,
aproveitar as cabeçadas de outros,
que me vão passando seus chapéus?


Se também minhas cabeçadas,
humildemente e contanto que queiram,
vão servir a outros, e talvez até
melhor pro que de nada serve!?


Vévi, dotô,
a dor na pele!
E escreve o de chorar ou de rir!


O campônio,
não leia ainda o que escreves,
vale-lhe, ainda é-lhe graça,
haja sensíveis!


E que errem!






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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Des Manche Desposório

                                                                                                                               I
                                                                                                                         In the sun, in the sun
                                                          I'm maried, buried


Não sou material de marido
(Nem me chamo Lélio ou Aparício!)

Esposado esse princípio
Não vou ninguém desposar


Gosto de manter os começos
Não me maturo em adereços!
Alegria não é etapa, eu a mereço!
E a quero simples conservar


Então por que me impor a composta
Se você mesmo sei que não gosta
De dar satisfações a quem interessar possa
Sua vida controlar?!


Não voltemos, pois, ao assunto
Não preciso de adjunto!
O manche da minha vida eu assumo
Mesmo pra com isso a manchar!




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