terça-feira, 29 de dezembro de 2015

BANHO 2

Ikang-lang - sexualidade - 15 gotas.
Patchouli - sensualidade - 4 gotas.
Pimenta Rosa - picante - 6 gotas.
Sálvia-Sclarea - espiritualidade - 5 gotas.

Gotejo-me.
Gotejo-te.
Tejo em mim
e um beijo!

Feitiços em receita
são pra cura.
Nada de olho de salamandra,
nada de perna de saracura.

Passou o tempo decaído
em bruxaria escura.

domingo, 27 de dezembro de 2015

BANHO

Maçã e canela,
essencialmente.

A fruta chama,
a canela sustenta.

Qual é a mais suculenta?
(dessa ninguém vai saber!)

Até há quem tenha visto,
mas sem nunca ter investido
em se esclarecer.

É a inocência dos ancestrais:
acharem-se sábios demais
e terem vivido em tenra idade.

A suculência é macia e me arde.
Rosas sem alarde colorem as águas.

Rosas são a cor do amor,
mesmo se rosas são vermelhas.
Cobrem-nos com outro sabor!

Está posta a mesa!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MOTO

Vou de moto.
Só cabem dois.
Então vou mais ela,
ora pois!

Cabelos ao vento,
loiros,
morenos,
seremos os dois.

Vamos de moto.
Vamos de moto pro mato.
Moto contínuo:
sossegados!

Vamos no vento,
o sossego é dado.
E nos inscrevendo
invento os alados.

domingo, 20 de dezembro de 2015

2016 taí!


JEDI

Acho bonito acompanharem-se da Força.
Acho bonito desejarem-se-na.
Acho bonitos velhos mestres.
Acho bonitos sabres de luz.

Império?!
Não me seduz!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

SONHOS SÃOS

Meu bem,
você é um sonho!
Não acompanho,
nem componho essa evolução.

Talvez se nos compusermos...
Meu quinhão é bem pequeno,
mas posso dizer que tenho
entranhado alguma lição.

A tal ponto que me pergunto
se não seria mais generoso,
em vez de ficar ocioso,
tornar-me professor.

Disse-o ao meu confessor,
e acho que ele sorriu.
Ou de mim ou dos alunos:
"Coitados! Onde se viu?"

Mas preciso ensinar
o que preciso aprender.
Os meninos hão de ter
a experiência das almas mais velhas.

Também vêm mais ternas,
já notei.
E menos preconceituosas
(quem não se mete não goza!)

Acho a vida isso?
Só fala com algum tino
o que viu e viveu.

Não virá o meu,
mas sonho.
E nele tudo se cometeu!

sábado, 5 de dezembro de 2015

PALPITE

Eu quero viver de palpite
porque acho certezas tristes,
ou porque não as consigo formar.

Você pode ficar comigo
e até trazer seus amigos
que queiram se desinformar.

Porque gosto de palavras,
mas as minhas são levianas,
por lhes faltar o lastro devido.

Mas não me acerco desses bancos,
os bancos dos doutorandos.
Pra mim eles são um perigo!

Porque ali se sabe tanto,
e opõe-se tanto também,
que vão destruir o meu canto

e o que escreve nada mais tem!

Então não vou ser professor,
nem vou ser doutor,
nem vou ser psicanalista.

Vou flertar livremente com a palavra,
exaltá-la ou profaná-la, 
tudo com visto de turista
(ou de vigarista, dirão).

Mas não vingando o que digo,
não se vinguem do escrivão.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PAÍS DA MARAVILHA

O amor é um construto,
é um túnel de um lado a outro.
E já viu dançar em seu escuro
um vulto que não seja louco?

O amor pede passagem,
ou talvez seja passagem apenas.
Dou meu passaporte a carimbarem 
e o suspense é de fazer pena.

Porque há um homem no guichê
que me olha de cima abaixo.
E pode ser, já vamos ver,
que não me deixe atravessá-lo.

Mas eu quero ultrapassar a cancela,
não cancelem a minha chance!
Posso conhecer a fundo
o país que se chamou romance.

Mas foi tão buliçosa a revolução
que propôs-se a novo batismo.
Então chamou-se namoro
o país que agora fito.

E se entro e o habito,
se me dão todas as chances,
só o futuro dirá
a que nomes vai o romance.

Mas os nomes são só palavras,
e eu até me importo com elas,
mas são apenas outra passagem
pro que mais me importa

que é ela!

domingo, 29 de novembro de 2015

ASPIRANTES

Sou contraditório.
Do que digo não se faz oratório.
Vivo confuso
(é notório!)

O que penso é solúvel.
Não sei a palavra é "volúvel",
mas o que diz a gente me muda.
E a muda se planta e vai a árvores
que eu jamais suspeitei.

E às vezes são de muito viço;
não são novo compromisso,
mas podem ser altas de dar-me mirantes.
E tudo o que agora percebo
me torna o que eu não era antes.

Não me seguro em encargos,
a vida é de livre provimento.
O que podem me dar pra que me prive
de um constante livramento?

Ideias...
Serão asas ou masmorras?
É bom que me abrasem até que eu morra,
e me corroam até minhas cinzas.

Ou talvez as formemos juntos,
não era esse mesmo o assunto?
A terra dá-se a entradas de bandeirantes,
e na vida somos todos aspirantes!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

TEMPUS

Sinto cócegas de sono,
mas me sinto dono do meu tempo,
distribuindo-o ao que faz o sorriso,
que às vezes escondo,
às vezes ostento.

Quem muito só ri
não é levado a sério,
e eu não entendo
o mistério disso.

E às vezes sonho
que largo essa gente
e vou pra tribo
do imperfeito juízo.

A perfeição é preocupação vã;
nunca se atingirá,
nem hoje,
nem amanhã.

Hoje, amanhã, outra vida...
Não importa o quanto se tente,
não importa se muito comprida.

Vou distribuir meus minutos
entre tumultos e calmas,
alegrias largas e estreitas,
pro corpo e pra alma.

Vou ficar com o produto da mão,
mesmo de costas pra palma,
e pras palmas de outras almas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

SERAFIM

Ai, Serafim!
Sou só eu o tripulante de mim!
Será o fim, do começo,
ou o começo do fim?!

sábado, 7 de novembro de 2015

DREAM INSTEAD

For I can't sleep
I should insist
on dreaming instead.

I should feel the sun
coming back for us
step by step.

There's a fire wich burns
wherever I turn
for it lights up the sky

And this fire will claim you
without invitation.
From that you can't hide.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PULO

Quem vem a mim?
Venha logo!
Eu já não posso esperar.

O tempo que pingava, escorre.
O bobo que vivia, morre.
Acaba por me encontrar sério.

(Um sério morador doado
do mais belo falanstério.)

Todos estaremos juntos,
loucos em profusão.
Gente que troca o juízo
por batidas do coração.

Bate, coração! E pula!
Pula que eu o apanho!
Pula que eu e ela 
não podemos ficar esperando.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ASSUNÇÃO

Que bonita a moça em seu nicho!
Que beleza não ter visto o início,
adaptar-me ao in media res.

Não sou reles testemunha,
estou atento e não roo as unhas,
mas é bom estar a seu pé.

(Entenda-o:
ao pé de si!)

Pede-se mais tempo,
pelo menos até a aurora.
É muito o conteúdo,
preciso de todo um corpo,
não basta um dedo de prosa.

Batom vermelho intenso,
blusinha cor de rosa.
Será que o invento
ou será que a moça aflora?

Uma é cor da paixão,

a outra colore o amor.
E eu vou ficando arco-íris,
e o pote de ouro é haver tanta cor!

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ARGUMENTO

Você deixou ser homem por minha conta.
Por quê? Se não estava pronta.
Que conta você fez?
O que você apronta se a lua muda?
Por que não veste minha verdade e despe a sua?

Eu chamei seu nome pela rua.
Chamei-a os anos todos.
Chamei as chamas de um louco,
consumi-me em arder-me.

Por que quer perecer-me?
Se disse que havia tempo.
Se vazou dos meus olhos o intento.
Se fui o segundo rebento.
Se me arrebento aqui!

Que argumento escolhi?
Acho que estou ali.
Pulo,
me agacho,
eu prefiro sorrir.

sábado, 24 de outubro de 2015

FOI

Quis cantar uma canção plena.
Predispus as palavras
que o coração não concatena. 

O coração é distraído,
não quer saber de atenções;
só de ser submetido
às mais injustas paixões.

Apaixonar-se pelo passado,
pelo que crê acontecido.
Pelo que já não merece,
mas pode ter merecido.


SCL-GRU, 16/10/15

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

REFRÕES

Chorei rios,
como nas canções.
Chorei palavras,
viraram canções.

Cobri a rua de casas,
as casas de alçapões.
E ficaram guardadas
lembranças inventadas

de outros corações.


SCL-GRU, 16/10/15.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

LÁGRIMA

Abri os braços
na imensidão azul algodoada.
Não sei que vento me levava,
se o que soprou Deus,
se o que o homem fiz.

Abri os braços,
eu era um abraço.
Ela não quis...

Eu era um beijo,
um peito aberto,
um olhar sempiterno.
Ela não quis...

Sou rosto,
sou sal e água,
sou escorrendo

sou lágrima!


SCL-GRU, 16/10/15

domingo, 18 de outubro de 2015

JUSTO EU

A roupa com que me veste o mundo
não foi feita sob medida.
A costureira mal me conhece
e já está de mim esquecida.

Estou todo desajustado,
vê-se que não fui feito a mão.
E que ajustes, neste mundo,
são matéria de ilusão.


Santiago, 8/10/15.

sábado, 17 de outubro de 2015

SANTIAGO

Santiago, já te trago
insculpida na memória.
Tanta gente transitando
e a cordilheira nem nota.


Elas sabem
(está nos registros)

que nos liberta uma Alameda.
Mesmo que as árvores de então
não sejam coisa que se veja.

Santiago, tanto tumulto
diferente das ruas sangrentas
cantadas por Milanés,

publicadas em nossa imprensa.

Ouve-se um eco da voz

esperançosa de Allende,
a mesma esperança vermelha 
que meu peito ainda acende.

Mas errantes são os mesmos,
haja salvadores ou reis.
Vou errar de novo em minha terra,

mas jamais te esquecerei.


Santiago, 15/10/15.

domingo, 11 de outubro de 2015

FALTA

Se ela soubesse
a falta que ela me faz, 
não me fazia.


Santiago, 11/10/15.

domingo, 4 de outubro de 2015

FIGURAS

Dizem que não importam as palavras,
apenas atitudes e gestos.
Não sei se concordo com isso, 
caiu-me meio indigesto.

Não adianta cantar alegrias
e fazer na vida triste figura,
mas a palavra alivia
muita dura contratura.

E sempre podemos proferir
e depois preferir o que dissemos.
E assim fazemos melhor figura
enquanto vagando no plano terreno.

Melhor figura na essência,
aqui não se trata de pose.
Então o digo bonito:
encha a alma de flores!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

DESBERNARDO

Eu converso com o Pessoa
todos os dias de manhã.
Eu também sofro desassossegos,
e sabê-lo não é coisa vã.

Ele me diz, às vezes,
coisas bem tristes,
mas minha alegria resiste,
quando é tempo de se instaurar.

E quando ela não existe
gosto de saber dos tristes
como o que nele há.

Não concorda que consola
saber que não é o dono da bola
no jogo da inquietude?
Vendo como portou-se o outro
posso mudar minha atitude.

(e dependendo de como me porto
é bom propósito que eu mude)

Eu não tenho receio,
me pego no enleio,
e leio toda a manhã.

Às vezes sinto consumir-me uma febre
que o Jobim não descreve,
a tal febre terçã.

Tá tudo tão bem colocado,
o mundo explanado
com tanta beleza!

Não há só belezas alegres,
sabe-o bem quem escreve:
há "tintas da melancolia".

Nem só da "pena da galhofa" se vive.
Aliás, alegria ensaiada deprime,
porque comprime o meu desdobrar-me.

Não importa no que a vibração consiste,
hoje é "fixe" declarar-me.
Talvez fixe o achasse o Pessoa
se vivesse no mundo de hoje.

Mas vivendo pulsante,
experimentante,
e não como então ele pôde.

Como pôde ainda pode:
existido escrito,
remédio ou combustível
para a minha aflição.

E vou aprender com seu erro,
que também vivo o desmantelo,
mas dou carne à encarnação.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CABO FRIO

Cabo Frio,
eu já me fio
em que tu também me amas!

Eu já amo a gaivota,
nas voltas que sempre adorei.
Se molho os pés ganho a costa
de um estrangeiro em que sempre fui rei.

200 milhas, 
não me humilhem!
Eu as desconhecerei.

"Tanto céu e mar num beijo azul"
que ouvira cantada e agora eu sei.
Cabo Frio, nem pelas costas
tu apostes que te esquecerei.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

PEDACINHO DE PAPEL

Que desfaçatez!
Ela disfarça a tez
de alva em clara.

(ou a disfarça em morena,
se há tempo de ir à praia)

E o marido tampando o umbigo
com o chapéu que não vem a nada,
disfarça-lhe a calva!

Que casal mais esquisito!
Devem ser de outro planeta,
e astronautas!

Queria invetar a estória,
mas deu-se o ocaso,
e falta pauta!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

SERVENTIAS

É descendo a escada que se torce o pé,
mas quem vive só de subidas?
Quem só deseja ascendências
desconhece a substância da vida.

Quem quer só sombra e água fresca
não sabe, acho, que empobrece
vivendo sem a vitamina
D, que o Sol lhe fornece.

E a falta que faz a água,
em rota de ebulição,
pra fazer a alegria do banho,
no frio, até que venha o roupão.

Quem quer viver sem chuva
duvido que se hidrata,
e talvez não se dê conta
de que a falta de água o mata!

A dualidade está instalada,
e, pra gente inconformada,
a velha porta da rua
ainda é a serventia da casa!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

EM TRÂNSITO

Ela diz "há lento",
e esse lento sou eu.
À lentidão sou propenso,
é como um fomento a minha duração.

Não vejo motivos pra pressa,
as peças serão as que estão.
Não vejo motivo pra pressa
nem preciso dela para a imperfeição.

Os dias também "correm lentos",
contraditória expressão,
como é também contraditório
este transitório coração.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

DE RUA

Leio até me arderem os olhos
o livro do Pessoa que chora,
com os olhos ardidos de outrora
ter lido o livro de Cesário Verde.

Vê-se a quê vamos,
a que desvãos?
A que vamos,
se é vão?

O que há de belo no que chora?
A vida está toda lá fora,
livre de pautas e margens.

A vida está toda lá fora,
e não cabe em nossas imagens.

Nossos olhos tão ardidos
ficariam comovidos
vendo o Sol arder.

É dele que isso é próprio,
nós ardemos no vulgo.
Fecha o livro e ganha a rua

é a ordem que ora intuo!

sábado, 19 de setembro de 2015

MULTIPOLAR

Alegre, triste e poeta.
De Cupido, a flecha.
De Midas, o toque dourado.
De todo o sentimento do mundo

o pobre estou encarregado!

Não há natação que fornecesse
ombros de uma tal largura
que bastasse a suportar
tão estridente tessitura.

Teço o lamento de mulheres
esquecidas com seus terços,
rogando proteção celeste
pra cafajestes desde o berço.

Teço a alegria de homens
rodeados de mulheres,
sonhando rabos de saia
todas as tardes, sem férias.

Teço o festejo das crianças
vendo mudar a estação,
munidas de baldes e pás
para abençoar o verão.

Só a mim não abençoo,
a mim que me entoo
sempre que entoo um qualquer.

Mas sou feito e refeito de versos,
pode vir o que vier!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CASA

Os dias passam
sem que eu sinta sua substância.
Não há rogativas,
não há instâncias.

Nada faz com que eu me esteja,
sou sobremesa sem refeição.
Sem cadeiras,
sem comensais.

Sento olhando as paredes,
os dias parecem banais.

Sonho o apelo do amor,
sua chamada bendita,
capaz de fazer florescer
a semente mais perdida.

Nada fica recôndito,
tudo o amor acessa.
Até se parece incômodo
que ele nada me peça.

(Ah! Benfazeja intromissão!)

Cupido,
sem cupidez!
As flechas necessárias à graça!

Amor, eu não sei onde andas,
mas eu habitarei tua casa!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ANTIFUNES

Não fui o primeiro,
mas sou eu que porto seu cheiro,
daqui até não sei quando.

Não mergulharei no seu passado,
nunca me dei com escafandros,
que nem estariam em meu vocabulário ativo
se não fosse pelo Chico.

(não gosto do esporte...)


Mas pra mergulhar fico aflito,
se depende da sorte.
E não é que não tenha conhecido
situações de quase morte.

Mas eu tenho preferido as profundezas
em que a vida não se encobre.
Não me obrigo a saber a história
nem do mundo que habito há bem mais.

(Passados de amor se parecem,
quase nunca originais...)

Então vou do presente ao futuro,
o passado é escuro
e não há tempo a perder.

Se algo pede pesquisa
é algo obscuro,
que quero alijar do meu ser.

Limpo o convés, 
vou à proa,
só me preocupa o que vejo do mastro.

E é o trecho de mar logo à frente,
o que me pede o meu braço.
Não sou Funes, o memorioso,
só Borges podia pensá-lo.

Só registrarei o mais precioso:
o que me acontecer do teu lado.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

EXTRAVIO

Ela cansou das minhas luas,
das minhas ruas,
das minhas fases.

Cansou de eu ser de lua,
de eu ser de rua,
de sermos capazes.

Cansou de sermos brutos,
de sermos unos
e fazermos as pazes.

Cansou da minha lira,
das ressonâncias,
das aliterações.

Cansou!
Acabou a pilha, 
e sem reposições.

E fiquei feio,
fiquei feito
obra sem feitio.

Fiquei perdido,
fiquei distante,
fiquei extravio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

ESTADO

"Não interessa o que diz o ditado",
o que é ditado não me faz feliz.
Fico feliz soletrado,
e as letras são as de "aprendiz".

Não interessa o que diz editado,
o editado já não me condiz.
O editado é uma praça triste,
removidos os infantes e o chafariz.

Não interessa o precipitado,
embora acidentes os haja felizes.
Eu prefiro o meditado,
meu eu mais profundo é o que mais me diz.

Milongas, rocks, fados;
meu eu mais feliz
é meu eu reencontrado.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

UM ADULTO

Sorri e chora um adulto.
Ilumina-se-lhe a face.
Limpa os dutos.

O adulto é o reduto
do medo e da esperança.
Um adulto é uma criança!

Do berço ao sepulcro,
aceita o alegre tumulto.
A dúvida é de nós!

sábado, 5 de setembro de 2015

AMPLO SENTIDO

Às vezes,
por forço do muito carinho,
sou ser alado.

Às vezes sou descaminho,
festa sem convidados.

É quando melhor me ouço,

ecoado no imenso salão.
Quando sozinho exploro
meu despovoado coração.

Vejo sombras que remetem
a moças do passado além.
Canto escuro em que não canto,
porque cantar já não convém.

Bailo no embalo da modificação,
e nos amigos esbarro,
e o contato redunda em clarão.

Eles são os que não me vêm,
e não me vêm porque me estão.
E são os que não se veem,
como não se vê a canção.

Então os bendigo: Amém!
Era do amor a amplidão!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MOLTO ALLEGRO

Quero viver molto allegro!
E vou avançando,
não emperro!

(Mesmo se há vida perra!)

A vida é compartida.
Há nela também o que fica
protegido da beleza.

Sim! 
Há o feio,
há o freio,
tudo no esteio do "não!"

Mas se vai ficar compartida,
partilha!
Repartição!

Divida a alegria e o choro.
É tão humano fazer coro!
Somos criaturas gregárias.

Às vezes quero ser ilha,
minha diferença me humilha,
e é difícil aceitá-la.

Mas sou diferente igual aos outros...
Então fico feliz de novo!
Esta vida é melhor enfeitada!

sábado, 29 de agosto de 2015

INTERPRETAÇÃO

Estou sem óculos, máscaras,
luvas e protetores de ouvido.
Mas vivo,
tenho vivido.


Ou talvez tenha contraído
bactérias que você desconhece.
Bactérias dessas que descem
ao mais fundo de nós.

Dessas que nos revolvem
e resolvem o problema da muita saúde.
Dando-me certas doenças 
para que me cuide.

Há coisas incorpóreas
que clamam por incorporação.
E coisas que nos vão dentro
e clamam por livramento
da nossa sanguínea prisão.

É preciso inspirar,
mas o que inspiro não prescindo
de expiração.

Expirar-se também!
Expulsar-se de estar-se
o próprio refém.

Ponha-se o mundo, 
e do mundo
interpenetração.

Digo isso,
eu o proponho.
Qual sua interpretação?

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

VITAL

Ouça:
De tudo o que eu quero
(eu quero muito algumas coisas...)

o que quero com mais força
é estar ao pé de si!

E não lhe ponho força alguma
(nunca oponho força bruta),
mas a força da doçura

bem que a pode atrair.

Porque há um mistério gozoso:
Se a orbito é gostoso
ver o dia transcorrer.

Esse é um plano de vida!
Só a glória obtida
pode valer o viver!

Não duvidem!
Posso vê-lo mesmo cego:
Só me detém o féretro!


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

SONOS

Pergunta-me a moça
"o que faço com o sono?".
Esse livro eu escrevo
e em vários tomos!

Porque o sono é a queda mais livre,
a que mais me atrai.
Mas não me cai esse sono,
e eu o procuro demais!

Mas há na noite tanto,
na aparente solidão,
que me cubro com seu manto,
pálio de inspiração.

"Eu faço samba e amor até mais tarde,
e tenho muito sono de manhã".
Disse nosso Chico, matutino,
esparramado em cama ou divã.

Então aceito o destino
de mais sonhar acordado.
Não me parece tragédia,
que tudo tem sempre um bom lado.

Mas à moça digo
que se tem sono durma-o profundo.
E pelo menos restaura-se a moça,
e eu me instauro no mundo.

domingo, 23 de agosto de 2015

DE RECREIO

Não me leio, não me vejo,
não sei o que andei falando.
Sou poeta de recreio,
não de se estar estudando!

Por isso o que escrevo à beça
não traz a beca ao formando.
E se escrevo sem estudo
eis tudo! Do que estou reclamando?

Não reclamo de não ser enquadrado,

dissecado, decantado em teorias.
Pretendê-lo me faria escravo,
e eu só pratico alforrias.

E viva o poeta forro!
O poeta bobo, arauto da alegria!
Só disso precisa o povo,
e não de estorvos de Academia!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SERTANEJA

Disse à moça que era a musa da canção.
Respondeu-me "Quem dera!".
Mas é de fato um anteparo
de mortal comparação.

Mas é tudo isso verdade,
talento que não lhe aproveita.
A moça nada sente,
mas eu perco colheitas.

Porque cada flor que deparo
noto, não há socorro,
não ser flor sertaneja.
E o que faço? Corro!

Corro sempre em direção oposta,
mesmo estando as moças dispostas
a núpcias ou aventuras.

Porque o meu filme de ação,
sendo a cidade meu habitat corriqueiro,
não se passa, claro, na cidade.
É um filme sertanejo!

Mas a trilha só pode ser outra,
ficamos assim combinados:
a música não é sertaneja,

pode ser até tango ou fado.

E de fato me enfado
em qualquer outra paragem.
Que vida triste a que levo,
só ter a musa em viagem.

E nem é viagem estradeira,
porque no fim da estrada
já não me espera companheira.

São viagens que faço pra dentro,

nutrindo meu frustro intento
de um dia recuperá-la.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

REMOÇO

A moça disse "beijo!"
Que chance entrevejo!
Ora, um beijo!
O beijo é o que mais desejo!

É mesmo do que precisamos,
de um gasto salutar.
Ouviste falar, acaso,
do esforço muscular?

Preciso gastar a energia
de tudo o que consumo.
Melhor gastá-la em alegria,
dessas de perder o rumo.

E não preciso nem de preparo,
pro recreio não me arrumo.
E não deve ser diferente
em nenhum recanto do mundo.

Beijemos na África, Ásia,
Austrália, América, Suíça, cantões.
Que bom ser feliz sem esforço,
remoço da satisfação!

sábado, 15 de agosto de 2015

FREVO MULHER 2

A farristinha faz folia no meu peito.
Fitas de cores vivas,
sombrinha em punho,
é tudo frevo!

(Fico fevereiro e não me atrevo a resistir!)

E quem disse que o sossego
era o que eu queria aqui?
Meu coração é palco,
e eu digo, sem medo e bem alto:

EU GUARDO O SEU CAMARIM!

Faz a aorta de porta e adentra o recinto,
que os ventrículos são ventríloquos 
da sua interposta expressão.

Fica tudo subvertido!
E daí?! Eu me divirto!
E pra que mais um coração?!

Mas a moça não pula
(me esquecia...)
Vou reinventar a folia,
e há de ficar tão bonita
que decerto me presta adesão!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

PRA JÁ

Morderam a maçã,
é certeza!
Não reconheço a aspereza
que o mundo vem me apresentar.

Expulso do paraíso,
preso ao desatino,
não tenho pinos para preservar.

Sou herdeiro da loucura.
Vou comer do cacho as uvas,
e acho que vou-me livrar.

Já estava assim quando vim,
eu nunca fui rei aqui!
Não vão poder me julgar.

Livre da condenação,
livre pra, sem danação,
ter os membros todos a amar.

Não os há inferiores,
não os há superiores,
estão todos desejosos
da mudança que é pra já!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

COMETA

Meu nome é cometa,
não se comprometa com o que digo.
É tudo soprado no vento,
não sei inventar o siso.

"Joia rara para a multidão",
não recolho o que profiro,
prefiro jogado no chão.

E até no meu último suspiro
faço uma pausa pra declamação.
Pra já me transpor inspirado
ou ver se inspiro recordações.

Não vou deixar gravado em papiro
uma coletânea de boas ações.
E nem em nenhum verso eu insiro
pedido encolhido esperando perdões.

Fica a vida versada,
a palavra cantada,
e é tudo que empenho, 
alegre quinhão.