quarta-feira, 28 de março de 2012

Até que...

...gosto de não ter namorada
   de ter gentileza alada
   de dar flores a quem aparece


...gosto de não ter compromisso
   eu nem nada entendo disso
   e sorrio ao que me apetece


...gosto sem muito esforço
...gosto irrestrito torso
   mão espalmada à rua


...gosto mas até quando?
...gosto mas não me deixo
   estar na vida sem agruras

segunda-feira, 26 de março de 2012

Só que...




As pessoas têm-me perguntado como é morar sozinho; se alheio sinto-me só. Mas sou é alheio a essa razão. Isso não é assim! Eu não vivo só. 

Homem de raízes, mas de raízes que se suspendem e deslocam sem jamais alijar de si a necessidade do retorno, não sou nômade, própria mente, mas os tenho recebido a turnos, taciturnos ou não. 

Recebi o Helder, que me queria convencer de que as sombras se levantam na madrugada e de que o cigarro ou o que o valha (e me "desvalha") é necessário para o retorno da calma. Recebi Axl que, axial, disse-me que são todos uns filhos da puta, e que what I thought was beautiful don't live inside of you anymore. Recebi Vinícius e Drummond, que me têm dito que a repartição não nos partirá, e Voltaire, que me tem dito que justo a repartição vai-me dar a condição de repartir com todos eles, muito, o pouco que nos basta pra tanto!

Recebi Simon, Dylan, Young, Cat Stevens e tantos trovadores que me têm mostrado que assobiamos um tom melífluo de olhos abertos, atentos e, ainda que não ingênuos, capazes de se deliciarem com a vastidão deste mundo que, sim, nos devasta a tempos há tempos.

Recebi Virgina e Clarice, que me têm explicado que olhar era esse que minha mãe deitava sobre o mundo em desespero recôndito e tranquilidade desapercebida do que agitava tantos tão outros. Recebi o bomgaúcho, que me tem dito que somos estrangeiros em meio a qualquer gente, e que nem por isso é gente menos capaz de beleza;e que justo por isso, injustos ou não, são gente com tanto a nos mostrar diferente. Recebi o senhor Osbourne, que me mostrou o quanto se pode waste good times having good times, e o quanto certas intensidades são o verdadeiro por-se ao abrigo da vida, e não o que faço e me dizem que é esconder-me. Como é que me escondo quando me reparto e exponho? 


Recebi Pessoa, que me mostrou (mas só muito depois de ver ele mesmo e sem querer) a inutilidade de tudo e a metafísica bastante do chocolate. Recebi lordes portuários e fabulosos que me ensineram a inexplicável capacidade de sentir saudade do que não vivi. Alto! Não vivi simultâneo! Ou vivo simultâneo?! Tenho recebido quem me emBachque em melodias todas! Recebi Pink Freud Flintstone e sei, ressabido e ressabiado as cores primitivas do mundo. 

Mundo, mundo e mundo! 


Limpo as gavetas a ver o que tenho e o que tento abrigar. Com o que me tento a brigar! Tantos vêm e vão pros e dos desvãos de mim. Jamais em vão! Jamais! 

Não, não estou só! Só é solitário andar por entre a gente

domingo, 25 de março de 2012

Ver Bête



"Amealhar":
Ato em defeito
De dar-se meia vida
Lutando por muito mais
Do que precisa


Te distingue o que
Tu pensas 
o que
Tu sentes 
o que
Tu fazes


Pazes!


Sois rapazes!
Não rapaces

sexta-feira, 23 de março de 2012

Com Cecília - "Saldosa" Dívida



Canto porque o instante existe
Canto mas já não insiste
Em estar-me o que me instou


Encantos que dobram esquinas
Encantos que viram olhos
E saltam da janela a menina


Aonde vais, pupila, a correr?
E se acaso aqui não estiver
Quando a felicidade acorrer?


Felicidade não é de pressa
E se vai que se despeça
Como antes nos saldou

quinta-feira, 22 de março de 2012

4 no one





Arriving from a city
So far out in the south
I experience such liberty
One has never heard resound


No knows of my coming
No one knew my whereabouts 
And I'll be leaving as soon as landing
The sole writer of my plots


No one lives with me
No one lives in me
No one, thus, leaves me


I inhabit all of my parts
I'll endure no depart
Tear me, heart, apart!






Confins, 19/03/12

quarta-feira, 21 de março de 2012

Poa III
















Do Salgado Filho à cidade
É um pulo
Cidade espalhada
Desconcentrada
Nada de Galeões nos Confins


Verdespalhados parques
Redenção, Parcão
O sotaque canta simpatia
E me ganha
Poa entoa!


Um cidade em que
N'ua esquina
Castro Alves tem com Goethe
É despir-se a sorte em  quina
Loteria literata
("Luz!" pediu o poeta)


Castro Alves ter com Goethe!
Quina literária: Alegrete

Quina literária é Quintana
Cata ventos, Moinho de Vento!


Na Zona Sul existe um rio
Que na verdade nunca existiu
Existido, certo, em lago
Vão minh'alma e o sol à nado


Para biririzontino é cidade prima
Prima por me agradar!


Porto Alegre, 18/03/12

segunda-feira, 19 de março de 2012

Poa II - Tricolarada Refeição

Um dia hei de habitar
Um pastifício de nove andares
A que os comensais chamarão
Satisfeitos 
De seus lares


Internancional preferência
Feliz agremiação
Sentemo-nos todos à mesa
Tricolorada refeição




Porto Alegre, 17/03/12

sábado, 17 de março de 2012

Poa

Meu canto gaúcho começa
Encanto em subversão
Na capital não aportamos
Mas viemos de avião


Mas se pra seguir no pacto
Devo deixar estar-me triste
Ofereço-te o destrato: 
Grite!


É alegre que festejo
Este canto é emoção
Arquitetura disfarçada
De engenhoso coração


Olhos que daqui vislumbram
Outras paragens, capitais
São os que me cegam lúcido
Luzidio das Gerais


Aqui aportarei
É certo!
Inda outra muita vez
Que já levei o quinto em ouro
Sem derrama, decreto ou rei


Anoiteceu em Porto Alegre
Uma aurora bem 90
Anoiteci em Porto Alegre
Quem não vem que se arrependa!






Porto Alegre, 16/03/12

sexta-feira, 16 de março de 2012

Trás-o-Horto Tão Ainda



Percorrendo os corredores 
belorizontinos
Sinto sobrepor-se-me um prazer
Que só poderia ser excedido
Se não sucedendo o sucedido
Pudesse mirá-los 
Com olhos de 40
E cabeça tão de agora
Que visse no haver verde
Algo extraordinário


Vejo da janela
Tão Seattle 
A torre de Nova Lima
Qual spaceship
Topo do meu mundo
E deslumbro o estar nos arredores
Da cidade Trás-o-Horto
E traz-me vivo
De morto
Respirá-la tão ainda


Francisco Sales
Álvares Cabral
Gustavo da Silveira
Que cidade plantadeira
Vejo em traços me deter


E me detém
Plantado tem
Muito mais que me retém
O trânsito
Se transito pela janela
Muito mais que
Pára brisa


Tardes de dias de feira
Vagabundos
Em que tantos correm mundo
E eu só quero repousar-me


Repousar-me arte
Repousar-me em parte
Que um fluxo resistente
Esse fluxo insciente 
É vivente


Zona Sul, centro
O diabo!
Me insulam no meu quarto
Eis-me um'ilha
Só de ver

quinta-feira, 15 de março de 2012

737 Land Yin

Os campos como vistos do avião
São como os vivo
Imagem em ação


Fílmica
Música
Bíblica


Intocáveis
Inconsúlteis
Belos
Inúteis


Torno a eles porque voo
Entorno-me neles 
porque sonho


Porque sonho...
...solo


Que verdade É
se não a interpreta
ação?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Amaturus

A manhã amarei
até à tarde
À manhã armarei
um sol que arde
En pasant sei-me ter
Gozo em alarde


À noite apascentei
Com a noite a paz sentei
E foi-me parte

terça-feira, 13 de março de 2012

A Certa

Certas coisas são impossíveis
Incertas coisas...


Certas coisas não se provam
Mas prova-se delas

segunda-feira, 12 de março de 2012

Belas a tramar

Mesuras nos salões
Usuras de sacristia
Frescuras de portões
Ternuras não se vão aos dias

Mas há na noite quem se afoite
em dar-se
E quem em açoites do prazer
se esquece
Entre os que as gozam, os que as grafam
ou medem
as belas tramas do querer
Se tecem



Marinado em supetão, em aula sobre os que grafam.

domingo, 11 de março de 2012

Ano IV - Três anos de Cegueira Além do Alcance

A Junim, minha bela filha, que embora de mim não tenha partido, de mim jamais partirá, e que foi em quem me inspirei para ver que o ego, além de doer e inchar, pode bem ecoar.

À Kédma, que um dia me deu o prazer insólito e imenso de ser parabenizado pelo dia do escritor, fazendo-me ver que o mistério do mister não estava tanto em vender-se em algum lugar, mas em colocar a alma, mesmo quando em penas, mesmo quando empena, a valer-se da pena. E também por me convencer da beleza de cores das que tinha em minha paleta.

À Carlita, que me entreviu grafado e notou que o que se grafa pode ser mais bonito que o que grafa, mas que ainda assim pode também haver neste beleza, se a bruta matéria vivente desafia o carinho em sutileza.

À Jussara, que fundou aqui o seu afeto e que jamais me deixou afetar o desânimo ou de me enfeitar com seu carinho e seu porfioso incentivo.

À Ana, plena de luz, que com a sua autoridade muito maior e anterior do que a que o Estado ora lhe outorga, conferiu-me, depois de me conferir por dentro como poucos puderam e sem me devassar, o insuperavelmente radiante e discretamente superlativo epíteto de “menino das palavras”, que sou menino, palavra!

Ao Caíque e ao Leo, que com tapas e afagos, mas jamais sem alguma doçura, me impulsionam e detêm, e inspiram e sou-lhes terno.

Ao Tio Niltinho, que é matéria e arma do negócio, do quanto me recomenda, sem ócio ou tédio.

Ao Octávio, irmão tardio e nem por isso menos pleno, que por isso e por sincera amizade, sabe ler nas entrelinhas o que ninguém sabia que as entretinha e que arde.

À Alice, que fez de mim, como eu de outros, sua placa de "do it yourself".

À Paulinha e a mais quem em silêncio me vigia, pra saber se ando bem.


À Revista Teia, da Faculdade de Letras da UFMG, por ter publicado duas croniquetas em seu terceiro número (http://www.letras.ufmg.br/cpq/revista_teia/Numero-3.html).

Ao Humberto, professor, o ego que de “cego” me livrou.

A quem nem queria saber se cego grafa ou de que braile se vale pro baile, mas gosta de ler. Aos que me encorajam por afeto. Às sessenta e seis vezes em que alguém publicamente afirmou que aqui lia, e às vezes em que alguém, deixando de o fazer, não revogou o interesse de um dia passado. E até aos que têm com o blog relação tão dúbia quanto sou.

E ainda a você que tem razão quanto a não ser o Oscar, apenas a porra de um blog!


= : )  OBRIGADO!





Porque aqui fundei, há vinte e dois anos, quiçá timidamente, meu interesse na palavra. E porque "nos interessa o que não foi impresso", e porque, finalmente,  tá impresso que ainda estamos no exército.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Cravata Miséria

Sou sem vergonha burocrata
Se o fazes por necessidade, transige-o!
Mas não me deixo cair, isso me exijo
Na condição de burro de gravata

E não podendo mais me dar que pálio, abrigo
Saibas que não o digo por bravata
Mas pra verter a alma, o intestino
E evitar deixar-me em pólo, o que maltrata

Do que o real impõe não me dês pista
Que bem maior atinjo em radicar no sonho
E não no quadro que o mundo habita
Esse que vem pronto, tão medonho

E este palavrório, o que lanço
Não sei se o cunho ou se me alcança
Mas serve à expressão da esperança,
O bem que superá-lo não alcanço.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma Ideia Pangeia



Lá estávamos nós, na aurora dos anos 2000, matriculados em um curso de francês com ares de coisa oficial, todos animados e orgulhos do heroico esforço de nos despojarmos da cama, por conta própria, em plena manhã de sábado, para pagarmos tributo a Balzac, Voltaire, Descartes, Sartre, Rimbaud, Baudelaire, e companhia quase ilimitada, apesar de exclusiva, de um certo ponto de vista.

Sacrifício, sim, mas as aulas de sábado na Aliança, no entanto, têm um je ne sais quoi... Aliás, vírgula! Je sais! Têm um ponto social bacana, já que a aula é cindida, havendo um intervalo que superfavorece a socialização.E sempre me joguei...

E eu me apegara a isso! Tendo como tantos contemporâneos ido cedo bater à porta de um curso de inglês, adorava já esse tipo de ambiente. E já dali à Ibéria de Almodóvar e Cervantes para passar então a essa nossa boa empresa francófona.

E não era privilégio meu. Lembro-me bem desse cara, Juliano, que estudava por força do trabalho também o espanhol, e que não hesitava, muito positivo, a responder a todas as perguntas de Madame Suzana com um corajoso “Si!”. Só lhe faltava o “como no!?”. Tinha também a Grazi, que também cumpria pena em Faculdade de Direito (coisa endêmica naquela família) e que também já zanzara outras línguas.

Mas, como diria o Oswaldo, não era isso que queria falar!

Como bem mostrava meu exemplo, e o do tal Juliano, e tantos outros, lá estávamos nós, em meio à globalização feroz do virar do século, cumprindo uma sua suposta imposição, passo árduo-prazeroso do processo: a aquisição da língua do outro. Eu, já em vias de me tornar servidor público, não via utilidade imediata naquilo, privado que seria dos livres concorrentes, mas bem me aprazia então me lançar um dia ao em que agora me vejo metido, a leitura de originais.

O fato, cara, é que como sabemos, bem antes de aviões e internets e tais, já o povo perambulava por aí. E não pense o senhor que a Aliança veio dar aqui no navio que trouxe o Tomé de Souza. Atrevida gente zanzando o Globo!

E não é que já nas primeiras aulas lá estava o Flávio, primo do nosso bom Ronaldo, pedindo dicas turísticas parisienses à Madame? Assustado daquela aparente ousadia, indaguei:

-Mas Flávio, a gente ainda está no básico 1 e lá vai você sem par à França?
-Gabriel, Gabriel! E o senhor acha que mudos não viajam?
  
Atrevimento avança!
Fiquei mudo; besta já era, está visto.
Com ou sem visto, mundos viajam!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Umpo Ema - Batista Livorno

Um poema não tem cheiro
Um poema não tem nojo
Um poema não tem dono
Um poema não é novo

Um poema sai sem pena
Um poema entra em todos
Um poema bem se rima
Em poemas eu me morro

Mas poemas me  renovam
Um poema não é estorvo
Um poema porque quero
Um poema sai do forno.

Um poema é o que houve
Porque ouve de você

terça-feira, 6 de março de 2012

Queen's Bath= In the Nude

It is not easy
To feel at ease
Not when your soul freezes
Not when your core burns

But do it, please!
Take it easy
Take a turn
Make it right
Left lust


Purity
Clarity
Cup of tea

segunda-feira, 5 de março de 2012

Apotropaico - Sonato Insoneto

Um querer opaco de consumação
Um laivo diáfano de supressão
Acima o de baixo, o do alto ao chão
Locus propício ao desejo e à razão


Se rola na relva ou hidrata o grotão
Nem mesmo por isso o esforço é em vão
A carne em juízo de retratação
Não pede o açoite ou se perde em oração


Fendido o desejo
Deixado o ofendido
Previsto o ensejo de amor mal carpido


Fingida distância
Encoberta operância
Nada ferisse o desejo em jactância


Es nobis nobilis
Es no bis




Brasília, 03/03/12

sábado, 3 de março de 2012

Medo Mendaz

Sou o que fala ou o que faz?
Sou o malfeito ou o falaz? 
O bem que deito veraz!

Recluso à resposta
Cerrado em meu peito
Se reverbero mais dito que feito!

Se reverbero bem dito: que efeito!
Já não ecoo o maldito defeito

Ruborizado o rosto que afeito
Não do pendor imoral... contrafeito!
Cortado no couro, por coro desfeito
Pensando melhor: dito e feito!

Brasília, 1 de março de 2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

V'iniciado - intragáveis ao antes

Com vinhas nesta varanda
Convinha às vezes a gente
Pisar
Fermentar
Beber


Mas certas muito boas coisas
Só se tragam envelhecidas
Envelhecidos...
A ver!


Brasília, 29/02/12