sexta-feira, 29 de julho de 2016

COMO SE FOSSE

Viver está como se fosse,
é preciso evitar o doce;
o amargo é o que cura.
O cura, na igreja 
(perceba...),
já não sabe o que procura.

O povo não procura saber.
Os inocentes fazem sem ver;

olham para o lado contrário,
não veem que é vão.
Deus sabe mesmo de tudo
(sabe até da intenção!).


Não faço planos,
ou ri-se de mim o Alto.
Não faço planos,
ou me frustram o ato.

Tudo é uma espera,
mas somos a peça central.
Tudo é uma espera, 
peça pra que não leve a mal!

Desculpe, Senhor,
o ato não contrito. 
Desculpe, Senhor,
o haver tanto conflito!

Desculpe, Senhor,
o arrependimento é real.
Desculpe Senhor,
por esta vida banal!


Lapinha da Serra, 16/7/2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

NOTA CURTA

E, ao desligar, ela disse: "Se for furar de última hora avisa antes".

GOURMET

São tempos frugais,
ama-se com parcimônia.
Foi-se o tempo da fartura,
o amor é uma fratura.

Ninguém o fatura,
ninguém atura o amor.
O amor não precisa de roupa,
precisa de atadura o amor.

Mas no amor não nos reunimos,
o amor não precisa de ata.
O amor já não nos acolhe,
o amor nos desacata.

O amor é célere,
o amor não é célebre.
O amor não é meu amigo,
o amor é um desconhecido.

O amor não nos expande,
ele agora nos encolhe.
O amor ninguém engana,
o amor quem é que escolhe?

Mas, bem ou mal
(e até sem aval!...),

é sempre o amor que explode!

sábado, 23 de julho de 2016

ADSTRINGENTE

Eu às vezes me levanto no sábado de manhã limpo, muito limpo (tão limpo quanto pode um antigo grunge) e, munido de rara coragem, levo o carro ao lava-à-jato do bairro. Lá chegando, deparo uma longa fila de carros limpos, muito limpos, acompanhados de seus donos bem trajados (estarão limpos?) e o choque me restitui à velha covardia. Volto pra casa trinta reais mais rico, sentindo-me em dia com o meio-ambiente, e enriquecido por mais meia hora de leitura. Os caronas que me desculpem, mas culpem a gente, adstrin-gente.

sexta-feira, 22 de julho de 2016



Aos que, por qualquer razão (geográfica ou outra), não me puderem dar o prazer de sua presença, digo que o livro está à venda no site da Editora Chiado, e no da Easy Books.

Antecipo agradecimentos!
= : )


À QUE VIER

Tento alcançar a caneta,
que me está à vista,
mas não me está à mão.
Vejo as placas pelas costas
(eu estou na contramão).


Foi tanto você em vez de mim,
que agora sou ao invés de você.
A ilusão me é amarga
(nunca lhe tirei prazer).

A baia não me vem à baila,
refresco-me onde puder.
Troto manco, mulambo
(sempre fui um pangaré).


Faço-lhe a corte,
o que me abre um corte.
A vida é falta de sorte!
(só me resta o que vier...).

segunda-feira, 18 de julho de 2016

É

Pouco a pouco
as coisas se dão a acontecimento.
O que mais posso tecer
que entreter este momento?!

O mesmo momento passado
este nunca se viu.
O mesmo encanto dourado
nunca se admitiu. 

Vou perdendo em essência
o que a insciência me desdeu.
Nunca entendi o que fui,
nem nada me aconteceu.

De tudo tanto me alheio,
tão aquém do que sobreveio
que só pode mesmo haver Deus.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

MEANT TO BE

In the meantime
I was distracting myself.
I was mean at the time.
I mean, I just wanted to be seen
(I was seeing, after all...)


I was by the sea.
I didn't need to crawl.
I could swim
I could sing
I could fall.

I drank my tea by the door.
I didn't have the means,
I was poor.

I was sore.
I was swore to be a Lord,
to answer your call.

Dream.
It's where I dwell.
A dream I just can't tell,
beyond heaven, beyond hell.

I dream of being told
I'll never get old,
I'll never need gold,
I'll never lose hope.

A dream is an open field.
If only I could feel,
flesh and bones.
But I'm spirits,
I'm long gone.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

CRIVO

O homem que vive tem obra.
Não importa se não lhe sobra
tempo pra reduzi-la a escrito.

Reduz-se mas se engrandece,
se não se grafa mas não esquece
do que o mantém vivo.

Seu crítico mais insistente
é seu próprio inconsciente,
seu mais apertado crivo.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

JJ (Little Girl Blue)

Estou na sala escura,
todo dado a projeções.
Projeto-me todo,
projeto-me sensações.

Não! É defeso!

Algo semelha a fumaça,
e há um cheiro nauseabundo.
Manteiga, produto vagabundo.
A fumaça não embaça a pérola,
a pérola é toda graça!
Texas, São Francisco...
E eu lá com isso?!

Em dado momento quero partir,
albergar-me na tabacaria,
falsa falta de metafísica.
Prendem-me a menina pérola
e seu coração falto de um pedaço,
um pedaço feito canção.

Sou seu semelhante.
Drogas prescritas,
infante.
Infante e já mais velho que ela.
Espírito mais experimentado,
em mais duradoura cela.

Descansa, pequena!
Pequena, tá tudo azul!
Descansa, pequena!
Não faz falta mais um blues!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A SIMETRIA

Para Banbs

Ela me vem do passado,
dez anos deslocados,
pegou o telefone, o avião.

Ela me vem deste lado,
me vem do outro,
me tira o chão.

Eu não quero ser acordado,
o sonho é dos mais esperados,
cantava-o como a um refrão.

Lívida mas viçosa,
presença buliçosa
pro que sempre estou de plantão.

Adentra-me a casa à Jetsons
e seus reflexos
são todos canção.

A batida é sempre a mesma!
Abatida, é sempre a mesma,
lux bruxuleante de extrema-unção.

Mas seus dramas lhe são perdoados
por este ator doado
ao palco do seu coração.