terça-feira, 31 de julho de 2012

Pós-Planta


Bateram-me à porta às oito:
Dotô precisa mover o carro!
Mas eu! Mover o que é automóvel?!
(Sou fraco demais pro que não precisa de mim)


Desço combalido,
homem pouco de pós-plantão.
Tiro o carro sem perguntar a que vão
(há sempre por fazer nos condomínios).


Subo e a resposta soa:
a motosserra consome 
a árvore do pátio de carros.


(Não há em condomínios 
quem se condoa?)
Mas por quê, meu Deus?!


E aquilo é, tonítruo,
um peeling na minha 
cara compungida,
na nossa cara de pau..
de planta.


Plantado em atonia,
sem raiz, sou um
quase-nada pós-plantinha.




(1)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Um Bonde Chamado Desejo II (Pra quê os trilhos se não passa o trem?)

                                                                                                               
                                                                                                              Cabe pois num vagão
                                                                                                              toda a nossa viagem.
                                                                                                             Mas é cinza e carvão
                                                                                                             amor, e sua imagem.


E me perco,
como atrasado no bonde,
e nem há, à vista,
janelas que almejar.


Mas a vista se derrama
porque a rua é já ali.
E o que desejo se esconde
para não o alcançar (descobrir?).


Atônito, desejo no bonde.
E os que nele me veem
"Faz por onde!"
Mas por onde, mãe?


Ferros via...






                                                                                                                                          Eis que range nos trilhos
                                                                                                                                         uma forma de adeus.
                                                                                                                                        Os cuidados são filhos
                                                                                                                                        da tristeza de um deus.




(20)

domingo, 29 de julho de 2012

Raízes ao Ar (cancerianas)


                                                Eu olho o mundo da janela
                                                Eu vejo o filme além da tela
                                                Os dias passam como por encanto




Pouco me inspira tanto
quanto o desfile desajeitado
de uma mãe inciante.
Vem de alimentar o mundo,
e tenta alimentar o infante.


Esqueço-me a olhar da janela
sem coragem de descer a um tal pátio.
É que isso reclama concurso,
e obtê-lo mata-me de enfado!


Mas já não sendo eu mesmo criança,
convinha, talvez, engendrá-las;
ou importá-las, quiçá, que me bridem
bagunça na minha sala.


É, eu já não sendo criança,
impõe-se-me produzi-las,
que vida que supera a infância
fica da vida esquecida.


= : )




(148)

sábado, 28 de julho de 2012

Copas Subterrâneas


Queria folga.
Preciso inspiração.
Mas o trabalho assoma,
inundação.


Sei! Eu sei, Minas,
Beagá é o lugar!
Mas, ossos do ofício,
tenho andado Sabará.


Tudo cheira a mofo.
O gatilho soçobra.
Só sombra de alvoroço.
Liberdade 'inda demora.


Igrejas esquecidas,
arrefecido turismo.
Fé esmaecida, 
presente sem futurismo.


Aqui tudo é pretérito,
apetite esquálido.
Na maternidade não se dá à luz.


O vento não infla.
A pluma não apruma.
Lugar em que só se plantam
tumbas.


Fogo fátuo.
Falta de ar.
Raízes sem terra:
Sabará!




(146)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Spieler



                                                                                                                                     Wie Kinder waren wir
                                                                                                                                     Spieler
                                                                                                                                    Nacht für Nacht


Wenn Sie nur wollte!
Mas ela não volta!
Miséria porca
a vida em só um


Por que mo deste?
Era vidro e se quebrou!
Agora sem cenas de ação,
sozinho no filme de amor.


Fiquei João sem Maria
Pássaro verde, cadê Alegria?!
Ficou imenso o quadrinho
sem pão marcando o caminho.


Agora eu era o rei,
era bedel e era também juiz.
Desordem no reino,
bagunça na sala,
do crime infeliz,
tudo fui eu que me fiz!




(144)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

É o posto!



Faço o que posso!
A vida? Adoço!
A porta? Não forço!
Convite? Me coço!


Nada disso está mal, 
está mais pra natural.
Mas, se lembra?:
Sou humilde poço;
nada de muito alvoroço!


Nada mais conforme à ordem.
É procedimento escorreito:
não seco os dias que chovem,
nem o nascido torto endireito.


Tanto ele cuida sua rota!
Paga, poeta, o preço da aposta!


(143)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Apenado



Ai, Carlos!
Ai, Drummond!
Se ao menos eu te seguisse a lição,
e pelo caminho deixasse
os versos que ali vão,
sem volição ou remissão!


Que mania a de salvador!
Que atração pelo caído!
É que serve à expressão da dor
o verso (como o poeta) combalido!


E se não os posso harmonizar,
não penetrasse o reino das palavras!
E deixasse estar em dicionário
o que, extraído, não me extirpa 
o "solitário".


Mas a pena, parece,
foi-me imposta.
E não parecer haver juiz que possa
dar indulto, perdão, alforria;
ou prestidigitador que mova
a dor em alegria.


O que aceito é minha condição.
E, executada, nem me dou à escansão.
Não conto versos
ou metrifico o que desponta, 
que torturados não se prestam contas!




(56)

domingo, 22 de julho de 2012

Em quê estão?


O amor tanto se disfarça,
ou, cego, não o vejo?
Escondendo-se maltrata, 
ou, covarde, não percebo?


Quiçá é passado há muito,
desde quando "ainda é cedo!".
E que hora é-lhe ajustada?
Hora séria ou de recreio?


Hora que ora, oração?
Ou hora pagã, libação? 
Perdeste a hora Isolda, Tristão!
Te deixaste Hamlet, caveira não mão,
indagando ao amor, cego e surdo,
extemporânea questão!


O amor nasce pronto!
Não há intentá-lo,
não há meditá-lo, editá-lo,
conformá-lo!


Conforme-se!




(141)

De Novo-Velho Francisco



Já tive mina de prata.
Libertei jazida que jazia.
Mas nunca vi,
isso ao Chico dizia,
mina de menina de ouro!


E se eu for deputado,
já tudo se acabou!


Que alforria na Loucura!
Veio e me levou...






(45)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Campos Abranjo


Não há como, na vida,
aproveitar as cabeçadas de outros,
que me vão passando seus chapéus?


Se também minhas cabeçadas,
humildemente e contanto que queiram,
vão servir a outros, e talvez até
melhor pro que de nada serve!?


Vévi, dotô,
a dor na pele!
E escreve o de chorar ou de rir!


O campônio,
não leia ainda o que escreves,
vale-lhe, ainda é-lhe graça,
haja sensíveis!


E que errem!






(58)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Des Manche Desposório

                                                                                                                               I
                                                                                                                         In the sun, in the sun
                                                          I'm maried, buried


Não sou material de marido
(Nem me chamo Lélio ou Aparício!)

Esposado esse princípio
Não vou ninguém desposar


Gosto de manter os começos
Não me maturo em adereços!
Alegria não é etapa, eu a mereço!
E a quero simples conservar


Então por que me impor a composta
Se você mesmo sei que não gosta
De dar satisfações a quem interessar possa
Sua vida controlar?!


Não voltemos, pois, ao assunto
Não preciso de adjunto!
O manche da minha vida eu assumo
Mesmo pra com isso a manchar!




(138)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Epílogo


Agora, que epílogo mereceria sua vida? Depois? Depor armas de um combate travado com... sem! Sem tempo suficiente, é a que estamos adstritos. Não importa com que furor o travemos, sempre no-lo travarão!

Mas "um Napoleão que cortasse para sempre a cabeça dos franceses".... Prometo jamais tornar a fazer presente desse livro. É passado! E dá-lo para nele passar despercebido? (Talvez mesmo prometa jamais tê-lo presente...)

But then again cada raiar do sol (Ah! Aquele arquétipo!) é o quanto basta para tanto ter amanhecido! Mas tanto quanto tenha despertado não me sinto jamais preparado para estar mais desperto do que adormecido!

Despertei. Desespertei. Dês de perto uma espiada no amigo! Abri mão de pódio, mas jamais o bastante evoluído! Quanta pedra e mais apedrejo do que firmo ou abrigo! E tanta pedra, ó Castelo! Quando terás comigo?

Castle of Illusions estático. Nunca fui o tipo esportivo. Mas "pra sempre!" é promessa que encerrarei pra sempre (sem começar!) comigo! Sentado na cerca, não me acerco, nunca fui (mas já fiz!) outro tipo!

E o futuro, que espera? Espera?! Ter-me-á alguma vez entretido? E na encruzilhada, o que se sabe do caminho escolhido? Jamais o bastante sem ter antes tomado o não percorrido! E sou verde, inflamante, mais verdo que inflamo, resto amigo! Que é o que posso ser tanto, mas tanto, que exceda o umbigo!

Mas jamais o farei se o amor só tiver presumido! E que o tempo que tenho não o veja escaldante, em areias queimado, escorrido! Solas brancas de pés, para sempre poupados, ora ardidos! E com que óleo (não sei!) de aliviar os untei, invertido!?

E já não me vejo tão claro, bronzeado, e o ouro... perdido!

Vida é prólogo!






Ps: E sendo a espada mais afiada que o espadachim, não sei os pedaços se são de quem se atreve ou de mim!




(139)

sábado, 14 de julho de 2012

Zanzão



Dizem-me "coração inconstante"
Mas eu não concebo essa razão!
Do contrário como haver tanto sangue
Percorrendo tanta extensão?!


Sangue que a tudo dilata
Sangue bom que aquilata
A força desta pulsação!


E se pulsa sempre um instante
A que seguem de perto outros tantos
Sempre é vital!
Nunca exangue!


É vital que, pois, não se zangue
Se com tanta pulsação eu me zanze
Por aqui, agora
E lá depois!



(119)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

In verso


Já me é tão difícil
A esta altura
Quando da escrita me inverso!


Como me dói!
E dói-me a fundo!


Ter de avaliar o verso...

domingo, 8 de julho de 2012

Cronoterapia



                                                                                                What is this thing that builds our dreams
                                                                                                yet slips away from us?"

Tudo que já vivi,
tudo isso me forma.
E o que quero acontecido,
que me importa se demora?!

A vida não se derrama

toda em uma só hora.
Já o disse em outro ensejo:
É perpétua senhora!


Tudo que já passei,
trago 'inda vivo em mim.
Então também o que passarei,
suspeito que seja assim!


O tempo, passado, futuro;
O tempo, claro, escuro;
só existe no presente,
que é quando a ele me curvo!
Que é quando dele me turvo,
dele me curo,
nele me apuro!


Tudo posso nele,
que me fortalece!


E que bom que seja assim!
Descoberto isso tudo, há tempo!
Estou contente de mim!

sábado, 7 de julho de 2012

Há Deus, Dúvida!



É, se em dúvida,
O que mais existe!
Sem esforço.
Sem alarde.


Sobrevindo o pior, Sua sapiência.
Supervindo o melhor, Sua bondade.


Queria prostrar-me,
Ao invés de apostar
Em que nade!


Mas tudam-me dúvidas,
E toldam-me a alma,
Que arde!


Mas há Mozart e sua arte e
De Beethoven e outros provêm
Encantos tais e tantos,
Que sou levado, inflamado,
A postular o sobre-humano!


Em que Da Vinci soubesse tanto,
Em que Chico se comunicasse,
Há, superposta à razão,
Expressão de outra parte.


Mas se tampouco me conheço.
Se me vejo tão ínfimo.
Aceito que haja O Senhor;
É o mínimo!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Palavra! (Ok, nevermind!)


Todos pensamos palavras
Ideias não têm outro esteio
Mas tenho em conta que é mais corrente
Pensarem bem mais em dinheiro!


Por que por dinheiro labuto
Se de palavras me  nutro?
Se facilmente percebo
Que lhes dou melhor emprego?


Nunca financiei, estou certo
A felicidade alheia
Mas por palavras prefiro
Que haja quem me bem-queira!


É com palavras que invisto
Contra alguma tristeza
E com elas travisto
O que deparo de beleza!


São palavras que mais rendem
Se com palavras as rendo!
Mesmo se (tenho notado)
Às vezes me arrependo...

As palavras são lucro certo!

Capitais pro coração!
E com elas dou-me ao sestro

De crescê-las em orações!


Palavras, frases, parágrafos!
Textos, coletâneas!
Tanta letra misturando
Minha vida em miscelânea!


Palavra que me detenho!
Palavra que o tempo urge!
E que não desperdiço seu tempo
Palavreando o que me aturde!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Pórtico

          


                                                                                                               Inesquecível o passado, o ranço
                                                                                                               Que mudanças? Como me avanço?


Pra que esperar a hora da morte
Tão banais quanto já fomos
Tão banais quanto dá foram
Tão banal quando já forros?


Quanto a isso serás só pó!
Se a isso te deixas, só
A pisar diligente o passo impresso


A impressão que te dou
Te confirmo
Sou confesso:
Não sei pra onde vou!


Só sei que sou
E que me gastarei
Com me tornar o que não sei
Mas é que sinto!

Mas não há tristeza

Ainda Inês morta!


Não com saber-te aí
E que te importas!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Balada do 404


                                           Ao que subjaz


Sabes quando falo
Sabes quando cozinho
Sabes quando me calo
Sabes porque me avizinho!


Sabes o que banho
Sabes o que limo
Sabes que não durmo
Ouves quando rimo!


Sabes que festejo
Sabes se lamento
Sabes perder a chance
De escutar o vento!


Sabes se sobem a mim
Sabes quando há carinho
E adivinhas se dos mais soltos
Pelas garrafas de vinho!


Sabes se sempre a mesma
Sabes se me vario
Sabes, mas sem certeza
Que vivo do desvario!


Sabes que saio à trabalho
Sabes que não o faço tanto
Porque bem melhor me ocupo
Com estudar esperanto!


Sabe?! Que te inspire!
O que faço, do que me espanto!
E faço trégua no condomínio
Com só reclamar neste canto!


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