segunda-feira, 27 de março de 2017

LEVE (,) MERCÚRIO

https://soundcloud.com/user-580381287/leve-mercury

Queria gritar nesta madrugada,
só perturbada por um Freddie Mercury soft.
Queria gritar mas não tenho sorte!

Estas paredes de condomínio vagabundo
são como de papelão.
Mas não sou um ingrato,
prezo muito o abrigo que me dão.

Amanhã vem o marceneiro
tornar em móvel o que é estanque.
Vem Daniel por prateleiras
no quarto de visitantes.

Uma estante num instante de quatro horas,
jornada de estagiário 
em que lerei a vida de Rita Lee.

Mais uma amostra
(já tive tantas...)

de como o sucesso deve se sentir.

Eu, esquecido aqui,
nem meus amigos me dão o cartaz
que quer minha falta de humildade.

Salvo se o formal o pede,
que tampouco estou jogado às traças.
Traçam meu destino astros
de que pouco ou nada sei. 

(Dizem uns que sabem tudo
sobre como me comportarei...)

Eu me recuso a achar que Deus,

tão bom e bem humorado,
não me tenha deixado
lacunas para alguns cacos.

Eu improvisarei!
"Improvements, you know?"

Não posso reprogramar a coisa toda,
não saco nada dos numéricos programas.
Acho que já nem saco
dos programas que pedem cama.

Estou pesado!
(Isso também foi acertado?)

Tenho de estudar melhor os movimentos,
isso me torna um atento.

E me terá despertado?!,
dormente por todos os lados?
Dor mente e deve ser superada.

A verdade é uma conquista!

Amanhã meu móvel é a vista
do saber compartimentado:
poesia, obras em língua estrangeira,
o legado da Letras (melhor companheira!):
análise do discurso, teoria da argumentação...


Filosofia, espíritas,
biografias, musicais,
os herdados da mamãe
(a seção que mais me atrai!)


Dá pra fazer uma de obras completas,
troféu que nunca erguerei mas não lamento,
ninguém vai!

Muito nos falta ainda pra atingir a angelitude.
Decerto não partiremos
desta velha decrepitude.

Leio e escrevo tanto!,
e não me basta para alcançar...
O estatuto há muito está pronto:
amar, amar, amar!

Mar, terras,
tudo em equilíbrio.
Eu também ondulo e tremo.

Eu também devo estar vivo!

Então grito na madrugada,
pouco me importa o papelão!
Os vizinhos que gritem comigo,
não têm outra destinação.

Só no amor há abrigo,
não há mesmo outra opção.
"Under pressure", sublime,
alivia-me a pressão.


quarta-feira, 15 de março de 2017

DISTRIBUTIVA (Edital)

A Pepa Mujica, o sóbrio.

Faz caridade!
Não é tarde!
Parece atrasar-te,
mas o que te adianta!...

Se almoço um pouco menos,
alguém ganha a chance da janta.
Não existe melhor maneira
de diminuir-me a pança.

Se compras um carro mais simples
(será preciso que tantos te olhem?!)

pode ser que descompliques
como outro se locomove.

Tudo o que desperdiçamos,
por preguiça ou vaidade,
pode ir a bom fogo se atiça
a chama santa da oportunidade.

Segundo disse o Senhor
ninguém vale pelo que tem.
Melhor valer pelo que sabe,
e nesse caso é melhor valer

por saber ser dado à fraternidade.

Todas as forças que conservas
por delas não seres doador,
podem ser forças de trevas
em que te internas como devedor.

Quem não tem dinheiro tem um abraço.

Quem não tem braços pode dar um sorriso.
E quem sorri (isso eu garanto!)
faz no mundo um mundo de amigos.

O poema é mesmo simples,
porque em simples intenção.
Espero que te seja um convite,
pois vai servir-me de inspiração. 


quarta-feira, 8 de março de 2017

MINHA MÃE (Uma mulher)

https://soundcloud.com/user-580381287/minha-mae-uma-mulher







Minha mãe era tímida.
Ou era "tímida nada!"
Ou talvez, como se disse Clarice,
fosse de uma timidez arrojada.

Minha mãe ia adiante
(era em tudo muito adiantada).
Minha mãe, no susto do encontro,
enchia a timidez de palavras.

Minha mãe era cética,
não tinha a certeza de Jesus.
Talvez, naturalmente ética,
pudesse prescindir da cruz.

Não estava certa nem de Tiradentes,
que dirá de Sócrates!
Platão podia tê-lo inventado
(que filosófica sorte!)

Minha mãe era grande leitora,
obras pequenas e grandes.
Até a menor grande obra:
era leitora de homens.

Até de seu pequeno filho,
rebelado contra a lucidez.
Minha euforia, meu enfado,
tudo via com nitidez.

Minha mãe era Flor que se cheirasse,
flor de nos deixarmos entranhar.
Se não entranhasse o cigarro
o câncer não a ia apagar.

Mas fica o lindo exemplo
do bem-viver a bem.
Essa é a vida mais plena,
pouco importa vivida com quem!

Minha mãe é daqui e de Galápagos.
Da África, França, Ásia.
Só me cobre a esperança,
nunca me cobriu a mortalha.

Seja-se!
E será verdade!
Ainda bem que esse exemplo eu colhi,
antes que fosse tarde!

quarta-feira, 1 de março de 2017

SAPUCAÍ

https://soundcloud.com/user-580381287/sapucai


Deixei a minha alegria corrente,
nas contentes Minas Gerais,
e fui achá-la diferente,
em uma terra que muito me atrai.

A alegria de estar no Rio,
tão já prenhe de lembranças,
mas tão rico de promessas
que é sempre nova infância.

Passei batido pelo velho Chico,
batente e batucado pelo Cartola,
e fui desencavá-lo, mais antigo,
o Noel, de tão boa história.

O Noel de cujo queixo fugi
para fazer-me mais vistoso.
mas é o Noel em que refulgi,
tomado de gosto pelo de seu povo.

Azul e branco, 
cores do céu.
Azul e branco
de Vila Isabel.

E cantando a música!,
o mais nobre enredo.
Cantando-a em música
de muito desvelo.

A concentração é pena,
as pernas ainda me ardem!
Mas é uma boa pena
se medida pelo que vale!

Tudo tão misturado!:
'macumba pra turista' e a comunidade.
Tudo tão misturado
quanto é misturada a fraternidade.

Portar fantasia que pesa,
ver assomar a curva
que revela luzes e arquibancada
faz clara a vista mais turva!

Quando a bateria clama,
quando o povo aplaude,
vemos que o que nos inflama
não nos inflama debalde.

Nenhum furação é o mesmo
quando visto de dentro, do olho.
Eu, que cismava, indisposto,
já não lhe posso franzir o sobrolho.

A Sapucaí é linda!,
porque é o Brasil visto do espaço.
À míngua de palavras e rimas
eu lhes suplico sentirem o abraço.

É como um abraço de Deus,
abraço-compasso-movimento.
Já intuo melhor o divino
tendo visto de perto o deslumbramento.