quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

DISFARCE

Não se apegue à máscara,
ela não te favorece.
Ela apenas faz lembrar
o que jura que esquece.

Melhor sentir o sol.
Melhor receber o vento.
Melhor estourar o claustro,
do fundo desse convento.

E se te baterem na cara,
oferece a outra face.
Toda sinceridade
é mais bonita que o disfarce.

SAZONADO

Tem opresso na mão
o coração.
Ele parece que queima,
mas não.

Não é o caso de arremesso.
Não é o caso de vesti-lo,
como se fosse adereço.

Não é o caso de liquidação.
É melhor o caso de oferta,
numa sincera estação.

Até lá pode cuidá-lo.
Pode até guardá-lo no peito.
Ele saberá emergir

quando for o tempo perfeito. 

domingo, 7 de janeiro de 2024

FOCO

Em dúvida sobre onde reside maior beleza,
na aurora ou no crespúsculo,
vivo para ver o dia chegar e o Sol se despedir.

Nada, então, está parcial em mim.
Sinto, inteiro, o desejo de totalidade.
Eu resido no mundo, não nesta cidade.

E mesmo essa amplitude me parece parcial.
Sinto que, quando penso, o meu raio é sideral.

A vida pede crescimento e,
se me distraio,a dor o impõe.
Por isso vivo melhor atento
ao que só o amor constroi.


sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

MATOU O GATO

A porta está aberta;
ninguém entra, ninguém sai.
Ao que tudo consta,
facilidades não atraem.

Estivesse a porta fechada,
quereriam ver do outro lado.
Bateriam nela,
ou a tentariam explodir.

Por isso essa porta aberta
me faz muito mais feliz. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

LÁ

Tenho uma certeza esquecida,
uma foto esmaecida,
de um futuro que quer ser. 

Uma saudade confusa,
claridade noturna,
do que me convém fazer.

Um lugar em que estar,
com pontes a atravessar,
demolidas ou por construir.

Então preciso apertar os olhos
e buscar ao peito o espólio
do que ainda está por vir.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

NO OUTRO SENTIDO

Deambulo pela cidade
em que você também mora.
Nem tão longe assim,
nem tão perto quanto outrora.

Aquelas canções são outras,
e estas pessoas nunca existiram.
E talvez volte a ser assim
(e pelo mesmo motivo).

E você quer tanto ir embora!
(mas nem a morte é ida sem volta)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

OBRA NOSSA

É preciso uma paz que resista ao tumulto.
É preciso sossego no mundo.
No mundo íntimo, o único minimamente passível de controle.

É preciso ser você na torre, para o comando de si.
A paz só pode começar ali,
com vista para tudo que nos acontece
e selecionando a resposta.

Não digo que seja fácil,
mas é preciso fazer a aposta.
Só ganha quem arrisca.

Também sei que o mundo o complica,
mas ele é do mesmo tamanho por dentro e por fora
(mas o de dentro pode ser obra nossa). 

domingo, 31 de dezembro de 2023

PARUANO

Como outras vezes se pontuou,
o ano novo é uma ilusão oportuna.
E mais oportuno faz o ano
quem o faz novo sem ilusão.

Paruano quero cortar obsessões,
livrar-me de muitas manias.
Paruano quero melhorar o plantio,
para muito mais alegrias.

Paruano quero provar que é melhor ser bom do que esperto;
gentil do que não ser trouxa.
Que muito mais importa como nos investimos
do que com que roupa.

Paruano que meus estudos sejam
para o discernimento, o esclarecimento,
não para a ilusão do brilho
(ou o brilho da ilusão).

E que meu discernimento sirva, antes,
à minha própria transformação.

Paruano que eu sonhe, pense,
sinta e implemente.
Paruano sejamos gente boa,
mas muito mais boa gente.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

ESCADA

O tempo passa e estou limpando meus óculos.
Limpo-os tanto e não vejo melhor,
nem é melhor o que vejo.

Mas o tempo passa,
percebo.

Estou velho.
Estou cansado.
Sempre estive só,
embora sempre acompanhado.

Mas aprendo.
Tenho aprendido.
E vou levar todo o fruto
para o amanhã prometido.

Pois haverá dias mesmo depois do último.
Não precisa de pressa.
Não adianta o tumulto.

Os dias rastejantes são penosos.
Para os em crisálida, paciência.
E há os dias de voo, em uma nova experiência.

O tempo não para a pedido.
O tempo não para nem eu me dando um tiro.
O tempo é uma escada,
e já me vejo elevado.

Trabalho.
Amor.
Insistência.

Tudo dará resultado. 

sábado, 23 de dezembro de 2023

SE EU FOSSE

Uma noite toda preso à imagem 
do seu coração sob o seio.  
Se eu fosse escultor, pintor ou desenhista,
amanhã algo nascia.

Sangro meu coração todos os dias 
com música comovida.
Sangro-o porque ele precisa.

Por que as coisas impossíveis querem tanto ser tidas?
(elas não querem nada, isso já é mente adoecida).
Adoecida nada! Entristecida talvez...
Deus me livre de, um dia, não sentir nada outra vez.

Sinto porque estou vivo, 
e só me passa o de que necessito
(só o de que dou conta, contudo).

É forçoso que algo se passe.
Sou minha matéria de estudo
e quem não estuda não avança.

Ainda brinco em serviço,
tropeço em minha própria criança.