Na véspera da morte
sem aviso
planejei o dia seguinte
sem alarde
sem requinte
sem pretensão
meus livros, minhas notas, minha escrituração
fiz minha refeição numa confeitaria
cujos fundadores há muito desapareceram
faria exames e marcaria o médico
que os examinaria
em casa, tarde,
um conto sobre algo que nunca poderia ter vivido
insipirou-me versos que pareciam trair o que sinto sobre essa não experiência
encontrei um sujeito que se espantou de algo em mim
talvez das roupas, talvez da pele
não de eu estar vivo
ainda não
(era cedo para isso)
e se ele soubesse que cemitério algum me abrigaria?
nem se me quisessem o São João Batista, o da Recoleta, o Père-Lachaise
que nem têm por quê
nem vivo me visitavam
ou me interpretavam
(não bem, em todo caso...)
e, de mais a mais, sempre fui inflamado
pois vou inflamado
tem alguma ironia
eu sempre à francesa
eu que nunca me despedia
ora, se eu soubesse...
fazia que não sabia