"Fecha a porta do seu quarto
porque se toca o telefone..."
Grazadeus!
telefones já não tocam
e se tocam já não tocam
perturbam
(só dê linha
para se enforcarem...)
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
"Fecha a porta do seu quarto
porque se toca o telefone..."
Grazadeus!
telefones já não tocam
e se tocam já não tocam
perturbam
(só dê linha
para se enforcarem...)
O dia da sua morte só existe
na recatada apreensão
dos seus herdeiros
(e na aflição
das testemunhas
do fato)
no mais é apenas uma dia
em cujo longo quadro de horas
você acaso desapareceu
O Soares tinha razão
sabe lá alguém
o que é certo ou justo?
o belo é um uso de época,
construto do tempo e do lugar
nem em se conservando tal qual
haveria de seguir belo
dois amigos brigados
contando-me cada um sua versão
estão certos um quanto outro
(nem justifica recomposição)
nenhuma filosofia pode
justificar grandes afastamentos
porque nenhuma é necessária
os astros, assim que puderem
se olharão de soslaio
se desorbitarão
a tangente
(entrevejo)
é sua grande aspiração
e você (o Freitas, o Paulo)
que podem tomar
catetos quanto hipotenusa
repetem
num sorriso cheio de dentes
o mesmo caminho
(e sonham encurtá-lo)
Pernambuco dá
Pernambuco toma
meu Capibaribe
corta Pamplona
nunca fui Guilherme
nunca foi laranja
será que no Recife
eu já fui Holanda?
qual o quê!
Limoeiro
e em qualquer parte do mundo
Pernambuco inteiro
As abelhas bebem e partem
o sol raia o dia e deixa a noite
governos se malsucedem
na lavoura do arrependimento
nada disso semelha o amor
o amor é uma estação
em que o que embarca
nunca parte ao jamais
as estações só não são infinitas
porque antes são eternas
e o amor, como elas
é intrínseco a esta terra
A vida é bonita como está
incompleta e aflita
a vida quer se realizar
enquanto é infinita
se a coragem receia
o tempo grita
não há receita
(acredita!)
erra!
errar é dos mundos como este
ao fim e ao cabo
não há erro que não se aproveite
usa este acorde
ou aquele
nota!
canta!
samba!
esperança!
e anota:
a vida em espera não existe
só a havida é nossa