domingo, 5 de julho de 2026

AQUI SE FAZ

Percebo que meu erro diante
do seu olhar disciplinário
foi confessar haver vivido
(o que te parecem ossos no armário)

talvez preferisse alma nova
nunca antes encarnada
simples e ignorante
assim do berço como da cova

mas tive ânsia de saber
com toda a alegria e dor
e foi indispensável nascer
e obedecer ao Criador

e assim fui errando
aprendendo com os tropeços
ainda trago raladas as mãos
e acumulo recomeços

notei não ser lícito parar
que a melhor inércia é a do movimento
e que a arte de trilhar
exige morte e nascimento

assim também nasci para você
e por um tempo para você vivi
que preferiu ver-me morrer
por confessar o quento nasci

e aqui ainda estou
um morto que te fala
e a quem responde sem saber por quê
tentou voltar se ainda estava

quarta-feira, 1 de julho de 2026

FARSESCO

A mordaça que nos demos
no passado e no presente
é farsa em qualquer tempo

muito mais fala a mente
do que os órgãos vocais
daqueles que a ressentem

e mais rápido viaja o pensamento
na noite em que se formula
do que a luz de todos os dias

mais ganhava em externá-los
do que em fingir sepultá-los
como tudo que se adia

sábado, 27 de junho de 2026

O TAL

O amor que se supera
desmascara uma ilusão
e o amor que já não era
ainda espera (ainda em vão...)

fecha a porta sem trancá-la
e se afasta
(mas não muito)
para melhor espiá-la

esse não tem orgulho
acena quando não fala
e acaba fazendo barulho
mesmo quando se cala

o amor não se bloqueia
que é desde sempre interno
o amor é sua própria teia
para qualquer tipo de inseto

o amor sempre nunca visto
nunca dantes sentido
não pode ser morto ou evadido
desconhece cemitério

o amor intenso
imenso!
transcendental 

amor que aviva o que vai dentro
esse amor é que é o tal!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

FELIS CATUS

O nome da gratidão é Rita
a irmã é mais bonita
mas beleza só quem olha vê

a gratidão se nota
faz barulhinhos estranhos
e me espera rente à porta

a gratidão aninha-se nas pernas
a gratidão me segue ao banheiro
(a beleza já não se entrega)

beleza não é pra se fiar
sei-o já de mim
o tempo tira o que o tempo dá

gratidão não precisa ter fim

a gratidão não arromba a retina
mas repleta o coração

me enternece a gratidão
com esse olhinho torto

gratidão para sempre
e mais um pouco!


terça-feira, 23 de junho de 2026

O AMARGO (indistintamente)

Isso que os namorados se ofertam
porque em namorados se procura
não poderia nunca ser chamado amor

isso que se permuta
e é às vezes escambo
(um espelho por uma alma)
não vale um "te amo"

vende-se árvore
entrega-se ramo

do Amor viemos há muito
e para o amor rumamos
não é para hoje
mas para milhares de anos

até lá conveniências
até lá dia dos namorados
muitos arrependidos
para sempre casados

e os filhos disso
essa espécie que somos

e chega de lucidez
(mais vale o sonho!)

domingo, 21 de junho de 2026

UM QUASE

Noves fora,nada dentro
vejo que nunca tive tempo
e no entanto o perdia

o que achava que me divertia
lentamente me esvaía
e por isso não me contenho
no que o tempo me propicia

o tempo, que nem existe,
é eternamente bonito
e persisto infinito
o que quase não existo

domingo, 14 de junho de 2026

SIMPLES

Quem te convenceu de que
a vida pode ser completa
contou uma mentira braba!

a vida nem vai ser completada

a vida é só a estrada
insistente
acidentada

misterioso itinerário
a vida só tem remetente
não tem destinatário

não tem emprego
casa, gato, cachorro
mulher, filhos, margarina

nada!


nada que possa integrá-la
só nos resta ser íntegros
ao cruzá-la 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

QUASE VIVOS

O amor não tem medo
é coragem dar-se o degredo
de habitar outro coração

isso que hesita
isso que receia
essa coisa esquisita

não vale palmilhar

não se dá asas
é coisa estanque
que não ousa decolar

o amor arremete
abrange e avista
como quem nunca pousa

o amor é bem outra coisa

os fanáticos da segurança
estam ancorados nos portos
em que matrículas os retêm

ou escondem-nos muros
limitam-nos cercas
ninguém sai ou entra

não é bem vida
mas ainda assim se morre
e morre-se mais ainda

segunda-feira, 1 de junho de 2026

QUAL SONHO

Pensei em memórias tão potentes
que, à falta de papel,
arrepiei e chorei

por isso lhes peço que entendam
a falta desse poema
(que talvez até me agradeçam)

mas algo resta evidente
e me faz falta declará-lo:
feliz o homem por poder sentir
o que antes só havia sonhado