Bem-aventurados os perseverantes pois
futuro distante
neles é o Reino dos Céus.
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
Condenado à pena perpétua
escrevia-se como se a outros
o que nunca alguém lia
mas a pena se enfrenta
à pena um se resigna
a pena ninguém lamenta
poderia ser pior e
a bancada dos canalhas sempre o quer:
"a perpétua não é lá tão pesada"
alguns são de outro alvitre
a pena parece prêmio
tira um peso da alma
esses não parecem entender
que urde outros tantos pesos
(e sempre de madrugada!)
Há o amor
de que tudo decorre
o amor sempre está
porque o Amor é premissa
mas há a dissolvente pressa
e as há
as há
metas enfermiças.
Trabalha muito e se orgulha
dá o sangue até nos fins de semana
poderá comprar a casa bem localizada
fazer aquelas viagens bem situadas
poderia comprar um carro
(se quisesse um carro)
ou joias
(se houvesse onde se enfeitar)
em algum momento
reservará algum tempo
para ir a algum lugar
conhecer alguém
(se der...)
alguém ainda não localizado
que também morrerá antes
de saber quem é
(Canudo ou não...)
nada certifica tanto
quanto deixar ali o coração impresso
e ser dali egresso sob forte impressão
A manhã
tão aberta quanto seja
tão ampla quanto se veja
encerra tanto em si
símbolo diário da esperença
embora já não creia o velho
e ainda não saiba a criança
mas aos que vamos pela metade,
que presente introduz a tarde!
tarde que também tem prazer
- não tão leves quanto os da manhã -
(mas estes prefiro perder)
Os olhos da mãe têm a cor da necessidade
do que as panelas gostariam de conter
do que as férias gostariam de ser
com ou sem deslocamento
os olhos da mãe só se traem
aos que têm olhos de entrever
a expressão do que se oculta
(sejam gozos ou lutas)
as certezas da mãe convencem
como se gravadas nas pedras
mas estão expressas nas nuvens
(e tão frágeis como aquelas)
o que me espanta na mãe é nunca escapar
desse internato em que a tenho encerrada
desde que ser mãe era projeto
e eu ainda me formava
o melhor dos olhos da mãe
não são cores nem formato
mas que nos olhando por eles
nos vejamos tão melhorados
(Ffdp)
Dar razão a quem perdoa
e perdão a quem perdeu.
e mais amor nesse comprometido
que não se comprometeu
trilhos sem trem
pautas sem letras
e sistemas que
de tão pessoais
são improvidos e improváveis
insistidos e insustentáveis
delírios de ressentidos
(nunca musicáveis)
ruído apenas
intestino
recôndito berço
do câncer
da vontade de crescer
estiolada pela ignorância
de que também o mal se multiplica
no seu silêncio furioso
e estuporado
que grita e baba
calado
(Ffdp)
Vigiava tão atenta
quanto o farol da barra
sonhava com aquela cadena
que segue se a música para
não lhe bastou encontrá-la
jamais conheceu sorte plena
(a apaixonada pela falta
à escassez se condena).