Saudade dá
e passa
dá e passa
dá e passa
saudade dá e passa
mas não mata
(como mata a fome...)
ser um lobo em tempo de dama
em tempos de águia, homem
saudade não mata
(mas consome)
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
Saudade dá
e passa
dá e passa
dá e passa
saudade dá e passa
mas não mata
(como mata a fome...)
ser um lobo em tempo de dama
em tempos de águia, homem
saudade não mata
(mas consome)
Consterna-me a força do Sol nascente
poderoso, luminescente
ousado e ascendente
(e no entanto com poucas horas
dá-se o poente)
em que beleza deveria
o que vive pela ótica do lucro
da pressa e do preço do atributo
investir o dom da visão?
Quando a bala se alojou em mim
entendi imediatamente que tinha meu nome
ela me estava destinada
desde que a disparara
esse projétil eu o projetara
por ter deixado vencer-me
minha parte mais bárbara
eu que tanto tinha errado
jamais perdoara
nem nunca pedira perdão
agora já penso em outra chace
ainda dentro deste caixão
oblongo
escuro
prematuro para o que planejara
com minhas pequenas asas
do amor nunca voara
fora sempre intelecto
ora fértil, ora abjeto
mas bons ventos me embalem
da Misericórdia divina
e me deem forças para a retificação
que agora se me destina
mas sempre haverá amanhã
pois Deus é Amor
e esse Amor não limita
Para todo trem chega o fim da linha
e a fumaça é para o bala perdida
e de mais a mais
prefiro voar
por aeroportos
gosto
sem sair do lugar
porto
tudo de que me distraio
e para o passado: revesguê de olho
(que é soslaio)
Esta certeza:
as estrelas só são o que são
porque estão distantes
se estivessem próximas
seriam o que serão:
poeira
Crio listas de músicas
e as ouço como se por acaso
e por acaso, como se não,
vislumbro uma multidão
toda uma gente
que esteve à vista e desapareceu
que esteve íntima
e cuja lembrança me estranha
que esteve em mim
mas está de fora da membrana
Escrevo versos nesta vida
para ser poeta na vindoura
(empreendo esforços
não deixo obra)
a Lei é de trabalho
não existe outro dom
mas o de cultivar
a inspiração
A suposta abolição de Deus
é a tentiva, tola e frustra,
de alforriar a consciência
mas Deus está
invocado ou não
e o alarme da consciência ninguém desarma
suprime o sono
o sonho
semeia o alcoolismo
para o erro enterrado não há remissão
e Deus é
(eis a questão)