Os enfermos se tratam
quando já não
se ungem
os moribundos se despedem
os mortos se velam
enterram
rezam
e encomendam
os desaparecidos
(vivos)
caçoam
amaldiçoam
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
Os enfermos se tratam
quando já não
se ungem
os moribundos se despedem
os mortos se velam
enterram
rezam
e encomendam
os desaparecidos
(vivos)
caçoam
amaldiçoam
Quem falou do amor sem rodeios
clamou: não há roteiros a que resista
amor só é o que se improvisa
não pode o amor ser exato
eu nele todo ato
quando não acolhido
sabe ele que me desato
não se perde
se acha
o amor é o mais Alto
e nunca está em baixa
vive em sua força imensa
lado escuro quando falto
lado claro na presença
o amor aqui e lá
todo pulsa
a toda parte se irradia
o amor resiste tanto
que no pranto
é sua própria companhia
chaga de quem não o merece
o amor, paciente,
do achado se tece
(e dele se orna
quem com ele se veste).
Floresceram artistas sob todos os regimes.
Em flutuações de todos os índices.
(até sob o peso do index)
com e sem censura.
Para ressoar.
Para inaugurar um som.
Escrevendo ao gosto do povo,
ou o ilegível, o canhão lírico.
Guardados no baú.
Indo ao ar.
Menoscabando o público,
cavando seu lugar.
Pintou-se sob toda luz.
Esculpiram-se os deuses,
os demônios,
os êxtases que dão.
A abastança.
A fome.
O fruto.
O pão.
A soldo de César,
dos papas,
de Mamon-ele-mesmo.
Produz-se arte entre os solstícios.
Com sol a pino.
No escuro.
Dois dois lados do |muro|
(só aos lados...)
A arte pulsa.
A arte é imparável
Para quem já viveu o bastante
o amor não tarda
nem vai longe
(é a véspera de ontem)
os cemitérios se parecem
mesmo os que, contando ser mais,
contam campas
(nada mais)
"não se ponha o sol sobre a vossa ira" - Paulo
Anos sobre anos
os marcos são nada
se um dia nos conceberam
para existir para sempre
o futuro será
também para sempre
maior que o passado
ah, o futuro
é TÃO maior
que o passado
que do passado
só nos resta
perdoá-lo
Coisas que são para ser e não podem?!
meu filho, isso nem existe!
é escolha sua ser triste
e que escolha infeliz!
o bom é que escolhas podem ser refeitas
o tempo passa, mas também se aproveita
as coisas já não podem ser perfeitas
mas tanto ainda pode ser bom!
deixa o idealismo que é escudo
abraça o enigma do futuro,
mas procura dar-lhe direção
imprima-lhe sua vontade,
nada aproveita guardado na nuvem
só se tem o que se usa
é infame viver de especulação
mesmo a filosófica
de que vale a sua lógica sem passar à ação?
filho, não me estendo muito
sei que o exagero é nulo
então deixo o proveitoso resumo:
Tudo existe para o amor
é de amar que se trata
que é amar que cura
então deixe a mina escura
e siga no rumo solar
A noite insone é branca e baça
como a paz pelo avesso
o desconforto em travesseiro
o tumulto capital
é azul como a emissão da tela
atravessa a pálpebra
aturde
confunde
retém
não fico
não vou
não sou
(salvo meu próprio refém)
me ocupa
mas não entretem
não cultiva imagem nem ação
a insônia
é o avesso da inspiração