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TOMB
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
Quem te convenceu de que
a vida pode ser completa
contou uma mentira braba!
a vida nem vai ser completada
a vida é só a estrada
insistente
acidentada
misterioso itinerário
a vida só tem remetente
não tem destinatário
não tem emprego
casa, gato, cachorro
mulher, filhos, margarina
nada!
nada que possa integrá-la
só nos resta ser íntegros
ao cruzá-la
O amor não tem medo
é coragem dar-se o degredo
de habitar outro coração
isso que hesita
isso que receia
essa coisa esquisita
não vale palmilhar
não se dá asas
é coisa estanque
que não ousa decolar
o amor arremete
abrange e avista
como quem nunca pousa
o amor é bem outra coisa
os fanáticos da segurança
estam ancorados nos portos
em que matrículas os retêm
ou escondem-nos muros
limitam-nos cercas
ninguém sai ou entra
não é bem vida
mas ainda assim se morre
e morre-se mais ainda
Pensei em memórias tão potentes
que, à falta de papel,
arrepiei e chorei
por isso lhes peço que entendam
a falta desse poema
(que talvez até me agradeçam)
mas algo resta evidente
e me faz falta declará-lo:
feliz o homem por poder sentir
o que antes só havia sonhado
A tarde é bela
e se me concentro mais nela
do que em minhas circunstâncias
consigo me colocar fora do tempo
minha mãe é viva
minha avó é viva
a juventude é pura potencialidade
não me felicita qualquer paternidade
não me sinto capaz de criar nada
nem penso nessa pretensão
todo amor é muito sentido
com a mulher nunca vista
(e nunca vivido)
aqueles eram os tempos
estes...
estes nunca são os tempos
nestes nunca se está a contento
(mas eu estou
a tarde é bela...)
gostaria de poder fazer aos outros
sentir o que sinto
não é uma esperança, não há intensidade
não é uma ilusão nem desejo de nada
é apenas um bem de se estar
uma vontade incontida de declarar:
Deus é!
e o tempo é só um instrumento
para nossa organização
respiro fundo esse ar nem tão puro
e que invade meus pulmões como o arauto da primavera
levito
juro que levito!
o chão não tem parte comigo
a gravidade não me pesa
Estou sem ser
e sem nunca deixar de ser
Já tanto faz
a altura do rabo de cavalo
o banho de sol ou de piscina
as guloseimas de menina
já tanto faz
em que setor se descoordena
em que bairros investe
e a que Outro se condena
já não importam os atos de presença
que procedimentos ensaia
a distância do trabalho
o tamanho da sala
me dá igual
o prédio
a notícia propalada
a admiração não declarada
as justificativas que se deu
e as que me participou
o de que se convenceu
e o que elaborou
tanto faz por onde anda
se já a porta é só saída
(e tanta!)
Quando me disse
"não prometo elegância mas impacto"
avisou-me o susto que era mulher
e eu, frágil
Quebro copos ao lavá-los
e não consigo confiá-los
a outras pessoas
e não que quebrá-los me doa
como se necessários
para bombear o sangue
pelo soma
Depois de quinze anos neste espaço
sempre assustado
de um acampamento que pouco se insinuou
deixei de deitar no canto bem canto
da cama de não casal
passei a dormir no centro do leito
para evitar a queda lateral
em três lustros nunca caí
mas já vivi muito meu luto
e, no entanto,
nunca morri