Com os dedos cruzados
na torcida por algo melhor
não dava a mão a ninguém
assim se passou um ano
(e depois se passaram cem)
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
Com os dedos cruzados
na torcida por algo melhor
não dava a mão a ninguém
assim se passou um ano
(e depois se passaram cem)
Taborda o diagnosticou:
o papel que tinhas na minha vida
eu o perdi
já não é tempo de papelada
os documentos são mais profundos
e mais etéreos
tempo de nuvem
de reconhecer a telepatia
de afinidades que não travestem
antipatias
que não encobrem a anestesia do tempo
a cilada do acerto de contas
o indesejado novo intento
(pacto nunca firmado)
mais vale que um se firme
no em que de verdade acredita
no que o faz crescer
e lhe embeleza a vida
bela vida a todos
é o que entrevejo
(e que terão o dobro
do que me desejam)
No Cais de San Blas
Bons aqueles tempos cantados
em que ao som de "amor" rosas nasciam
(nos mesmos lugares em que mais tarde
as solidões feneciam)
estranhos tempos da Aurora
em que ao som de "Amor"
mártires desciam ébrios aos circos
(os circos não eram brincadeira
eram a dura arena da fé mais verdadeira)
hoje, por força do Procon,
a fé tem validade
o amor jurado eterno tem validade
e tudo vale muito pouco
(e aqueles que discordarem
são encerrados nos vales dos loucos)
Dizia o Bruxo que a ocasião faz o furto,
e o ladrão nasce feito.
nasce nada!
nasce para muito melhores feitos
como eu
como ela
todos sob um sério risco:
livre-arbítrio
e pagando um muito pesado tributo
ao orgulho
e agravando esse mecanismo:
egoísmo
mas nada disso tem de ser atributo
que tudo isso se debela
arrastamentos, atavismos, prejuízos
contra tudo
num posto a cada esquina
e até vindos em contramão:
disciplina e decisão.
O poema é redundante
o poeta leu no mundo o sofrimento
em assombro
viu no mundo a euforia
em sobressalto
a retina é frágil
a invasão parece uma procissão
o poeta acredita fervorosamente no que o adentra
mas eis que tudo contata
a matéria ígnea de si
as sombras
as assombrações
tudo combinado o poeta é o mundo
agora basta a rotação em demanda de sol
e a translação
para que primaveras sucedam invernos
Para Duzu
Nada tinham a que os homens
as mulheres
e os comerciais
chamassem riqueza
viviam de forma diferente
os minutos
os institutos
os atributos
neles era frequente o sonho
e esse traço encontradiço
viviam os que o tinham
ou morriam enfermiços
e à sua maneira
à revelia dos cartórios
legavam uns aos outros os sonhos
e alguns poucos petitórios
e assim estabelecidos
viviam do aprendido:
o sonho não é delírio
é apenas outro caminho.
Fui tão longe por ti
que leste ou oeste me voltavam para casa
(de 10 em 10 quilômetros meio mundo
de repente contados em milhas náuticas)
estou em terra firme
e reafirmado nesta latitude
noto quanto essa corda bamba era distante
o distante mais ao rés do chão
mas como é bom cair em si
(e é trabalho solo a evolução)
Onde há seu rastro
passou a cobra
onde suas pegadas
a fera
o trilho atesta o trem
(o que foi ou o que vem)
mas mais convém ao poema
o vestígio do amor
vestígio rimado
não é dor
é estrago!