domingo, 1 de novembro de 2026

A VÉSPERA

Na véspera da morte
sem aviso
planejei o dia seguinte

sem alarde
sem requinte
sem pretensão

meus livros, minhas notas, minha escrituração

fiz minha refeição numa confeitaria
cujos fundadores há muito desapareceram

faria exames e marcaria o médico
que os examinaria

em casa, tarde,
um conto sobre algo que nunca poderia ter vivido
insipirou-me versos que pareciam trair o que sinto sobre essa não experiência

encontrei um sujeito que se espantou de algo em mim
talvez das roupas, talvez da pele

não de eu estar vivo
ainda não
(era cedo para isso)

e se ele soubesse que cemitério algum me abrigaria?
nem se me quisessem o São João Batista, o da Recoleta, o Père-Lachaise

que nem têm por quê
nem vivo me visitavam
ou me interpretavam
(não bem, em todo caso...)

 e, de mais a mais, sempre fui inflamado
pois vou inflamado

tem alguma ironia
eu sempre à francesa
eu que nunca me despedia
ora, se eu soubesse...

fazia que não sabia

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

ANELAR

Todas as alianças que o mar cospe à praia
são de casamentos consumados

nos tempos da vovó a situação estava posta
em 2026 nada é irremediável

(a quem interessar possa)

essas coisas têm um valor de venda
um valor de superfície
multiplicado na oferenda

só Iemanjá sabe há quanto nadam

quiçá desde a lua de mel na praia
quiçá desde a primeira decepção furiosa
quiçá já fossem
 res furtivae

(de ação ignominiosa)

todas detctáveis pela geringonça
do lavrador litoral

o que literalmente não se detecta
é o tempo enfeixado nas peças

mas algo tortura a minha mente:
também as haverá lançadas

preventivamente?

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

DE QUANDO

Deus me livre de quando
é triste dentro
Deus me livre de quando
o incômodo é imenso

Deus me livre de quando
o Sol castiga e a chuva irrita
Deus me livre de quando
é insuportável qualquer visita

Deus me livre de quando
não se é pau para obra alguma
Deus me livre de quando
nenhuma bagunça se arruma

Deus me livre de quando
as mãos que se estendem solícitas
parecem curtas

Deus me livre de quando
tanta gente parece nenhuma

Deus me livre de eu voltar
a minhas terras tais
em que eu assim seja

Deus me livre de que
nem eu mesmo perceba

Deus nos livre
mas porque responde a nossa busca
e nunca nos falte a força
para essa alta procura

Deus abençoe o broto
da fé, da força e da esperança

Deus nos sustente pelas misteriosas mudanças

que Caminho, Verdade e Vida nunca nos faltem
e que a porta(mesmo estreita)nos comporte


terça-feira, 27 de outubro de 2026

PRONTO ALÍVIO (Quanto dão?!)

Sejam estes embora
os tempos mais velozes já vistos
as gazetas sempre foram urgentes

apenas agradavam aos donos de cachorros
as notícias de anteontem nos jornais de ontem

a leitura dos jornais matinais à noite
sempre induziu espirros ou impôs pesadelos

obituários, negócios, avisos

os herdeiros são desrespeitosos
(misturar gente morta e dinheiro vivo!)

metade salas mobiliadas à elegância
metade cemitérios de ex-culturas

previnam-se:
as batatas que não se plantam
não morrem

e quem precisa de tubérculos substanciais?
"tubérculo" até já se lê com suspeita
(parece que o Rosa inventou...)

em tubérculos alguém já investiu,
mas jazem sob a terra

as batatas se comem.

sábado, 24 de outubro de 2026

NATALINA

Muito havia de querer vir ao mundo
uma filha para ir-lhe dentro
e quantas vezes antes jogara 
o aventado projeto ao vento?

e se a ideia fosse má?
as consequências inesperadas?
e se ajuda ficasse aquém
da que tornasse a filha amada?

essas coisas não se deviam matutar
que matutá-las fatiga
deviam apenas brotar
e assustar por dentro a barriga

e se a decisão se tivesse tomado
num tempo já recuado
num espaço já esquecido
e com alguém ignorado?

na vida nem tudo é certeza
mas tudo na vida é empenho
e quem não puder concordar
que espere a prova do tempo.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

ˈSĪFƏR

Com os dedos cruzados
na torcida por algo melhor
não dava a mão a ninguém

assim se passou um ano
(e depois se passaram cem)


domingo, 18 de outubro de 2026

DESENCADERNADO

Taborda o diagnosticou:
o papel que tinhas na minha vida
eu o perdi

já não é tempo de papelada
os documentos são mais profundos
e mais etéreos

tempo de nuvem
de reconhecer a telepatia
de afinidades que não travestem
antipatias

que não encobrem a anestesia do tempo
a cilada do acerto de contas

o indesejado novo intento
(pacto nunca firmado)

mais vale que um se firme
no em que de verdade acredita
no que o faz crescer
e lhe embeleza a vida

bela vida a todos
é o que entrevejo
(e que terão o dobro
de tudo que me desejam)

sábado, 17 de outubro de 2026

VALES

No Cais de San Blas


Bons aqueles tempos cantados
em que ao som de "amor" rosas nasciam
(nos mesmos lugares em que mais tarde
as solidões feneciam)

estranhos tempos da Aurora
em que ao som de "Amor"
mártires desciam ébrios aos circos

(os circos não eram brincadeira
eram a dura arena da fé mais verdadeira)

hoje, por força do Procon,
a fé tem validade
o amor jurado eterno tem validade

e tudo vale muito pouco

(e aqueles que discordarem
são encerrados nos vales dos loucos)


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

SEIS SENTIDOS NA MESMA DIREÇÃO

Dizia o Bruxo que a ocasião faz o furto, 
e o ladrão nasce feito.

nasce nada!
nasce para muito melhores feitos

como eu
como ela

todos sob um sério risco:
livre-arbítrio

e pagando um muito pesado tributo
ao orgulho

e agravando este mecanismo:
egoísmo

mas nada disso tem de ser atributo
que tudo isso se debela

arrastamentos, atavismos, prejuízos

contra tudo 
num posto a cada esquina
e até vindos em contramão:

disciplina e decisão.


segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MISCÍVEL

O poema é redundante

o poeta leu no mundo o sofrimento
em assombro

viu no mundo a euforia
em sobressalto

a retina é frágil
a invasão parece uma procissão

o poeta acredita fervorosamente no que o adentra

mas eis que tudo contata
a matéria ígnea de si
as sombras
as assombrações

tudo combinado o poeta é o mundo

agora basta a rotação em demanda de sol
e a translação
para que primaveras sucedam invernos