(Canudo ou não...)
nada certifica tanto
quanto deixar ali o coração impresso
e ser dali egresso sob forte impressão
VERDE LUME
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
FALE
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
ANTEMANHÃ
A manhã
tão aberta quanto seja
tão ampla quanto se veja
encerra tanto em si
símbolo diário da esperença
embora já não creia o velho
e ainda não saiba a criança
mas aos que vamos pela metade,
que presente introduz a tarde!
tarde que também tem prazer
- não tão leves quanto os da manhã -
(mas estes prefiro perder)
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
MOVIA-SE SOBRE AS ÁGUAS
Os olhos da mãe têm a cor da necessidade
do que as panelas gostariam de conter
do que as férias gostariam de ser
com ou sem deslocamento
os olhos da mãe só se traem
aos que têm olhos de entrever
a expressão do que se oculta
(sejam gozos ou lutas)
as certezas da mãe convencem
como se gravadas nas pedras
mas estão expressas nas nuvens
(e tão frágeis como aquelas)
o que me espanta na mãe é nunca escapar
desse internato em que a tenho encerrada
desde que ser mãe era projeto
e eu ainda me formava
o melhor dos olhos da mãe
não são cores nem formato
mas que nos olhando por eles
nos vejamos tão melhorados
terça-feira, 29 de setembro de 2026
BALA
(Ffdp)
Dar razão a quem perdoa
e perdão a quem perdeu.
e mais amor nesse comprometido
que não se comprometeu
trilhos sem trem
pautas sem letras
e sistemas que
de tão pessoais
são improvidos e improváveis
insistidos e insustentáveis
delírios de ressentidos
(nunca musicáveis)
ruído apenas
intestino
recôndito berço
do câncer
da vontade de crescer
estiolada pela ignorância
de que também o mal se multiplica
no seu silêncio furioso
e estuporado
que grita e baba
calado
domingo, 27 de setembro de 2026
ABRE-SE-LHE
(Ffdp)
Vigiava tão atenta
quanto o farol da barra
sonhava com aquela cadena
que segue se a música para
não lhe bastou encontrá-la
jamais conheceu sorte plena
(a apaixonada pela falta
à escassez se condena).
sábado, 26 de setembro de 2026
ABIOGRAFIA
(Ffdp)
Num xadrez de ontologias
ocultava os peões
nas torres de sua vida
e sem crer-se se dizia
à cata do rei
(ou seria da rainha?!)
atenta ao que o cavalo avance
até que o xeque a mate
(de relance)
BIENAL
NEUTRO (domínio público)
Era neutro. Não se expressava, não interferia, não se posicionava, não sabia.
Dormiu, acordou em cima de um muro. Era largo, confortável.
Viu embaixo, de um lado, anjinhos esfuziantes que lhe acenavam perseverantes, convidando-o a descer para junto deles.
Do outro lado capetinhas impassíveis o olhavam de braços cruzados.
Estranhando o fato, perguntou a um deles:
- Não vão tentar me convencer a descer para o seu lado?
Sem esboçar emoção, o capetinha respondeu:
- O muro já é nosso.
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Dich zu Töten fiel mir schwer
(Ffdp)
Maldição não acaba em morte
maldição não acaba em beijo
maldição acaba a desoras
(no momento em que percebo)
o crime contra o tempo
os golpes desferidos na estima
e que era apenas julgamento
o que antes fora vida
maldição não tem antídoto
para maldição não há polícia
mas felizmente, como para tudo,
há a porta da saída.
Heute klingt Dein Name wie ein leeres Buch
Wie ein nie erfulltes Versprechen
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
CRAVA
(Ffpd)
Por fin, vas a terapia [...]
¿pero de qué te sirve
si siempre mientes más que hablas?
Olha-se no espelho
e sem justiça
faz dele inimigo
sem anteparo para ver-se
e em si deter-se
ignora o intestino
e disfarça
o passado no passado
o passado no presente
só não retrata
o crivo
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
INEXPERTO
Sem qualquer expertise
me adivinho rio
rio intermitente
às vezes tão caudaloso
que não há o que o sustente.