Fantasmas
são velhas ideias
repercutidas
deixados ao que são
não atrapalham a vida
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
Coisas que são para ser e não podem?!
meu filho, isso nem existe!
é escolha sua ser triste
e que escolha infeliz!
o bom é que escolhas podem ser refeitas
o tempo passa, mas também se aproveita
as coisas já não podem ser perfeitas
mas tanto ainda pode ser bom!
deixa o idealismo que é escudo
abraça o enigma do futuro,
mas procura dar-lhe direção
imprima-lhe sua vontade,
nada aproveita guardado na nuvem
só se tem o que se usa
é infame viver de especulação
mesmo a filosófica
de que vale a sua lógica sem passar à ação?
filho, não me estendo muito
sei que o exagero é nulo
então deixo o proveitoso resumo:
Tudo existe para o amor
é de amar que se trata
que é amar que cura
então deixe a mina escura
e siga no rumo solar
A noite insone é branca e baça
como a paz pelo avesso
o desconforto em travesseiro
o tumulto capital
é azul como a emissão da tela
atravessa a pálpebra
aturde
confunde
retém
não fico
não vou
não sou
(salvo meu próprio refém)
me ocupa
mas não entretem
não cultiva imagem nem ação
a insônia
é o avesso da inspiração
O poeta conhece as cidades
as percorre
discorre delas
as atrai
e as canta
nunca as trai por serem tantas
a poesia é farta
o mundo não se acaba
olho tudo numa alegria
que não cabe em mim
mas me cabe muito sentir
Percebo que meu erro diante
do seu olhar disciplinário
foi confessar haver vivido
(o que te parecem ossos no armário)
talvez preferisse alma nova
nunca antes encarnada
simples e ignorante
assim do berço como da cova
mas tive ânsia de saber
com toda a alegria e dor
e foi indispensável nascer
e obedecer ao Criador
e assim fui errando
aprendendo com os tropeços
ainda trago raladas as mãos
e acumulo recomeços
notei não ser lícito parar
que a melhor inércia é a do movimento
e que a arte de trilhar
exige morte e nascimento
assim também nasci para você
e por um tempo para você vivi
que preferiu ver-me morrer
por confessar o quento nasci
e aqui ainda estou
um morto que te fala
e a quem responde sem saber por quê
tentou voltar se ainda estava
A mordaça que nos demos
no passado e no presente
é farsa em qualquer tempo
muito mais fala a mente
do que os órgãos vocais
daqueles que a ressentem
e mais rápido viaja o pensamento
na noite em que se formula
do que a luz de todos os dias
mais ganhava em externá-los
do que em fingir sepultá-los
como tudo que se adia
O amor que se supera
desmascara uma ilusão
e o amor que já não era
ainda espera (ainda em vão...)
fecha a porta sem trancá-la
e se afasta
(mas não muito)
para melhor espiá-la
esse não tem orgulho
acena quando não fala
e acaba fazendo barulho
mesmo quando se cala
o amor não se bloqueia
que é desde sempre interno
o amor é sua própria teia
para qualquer tipo de inseto
o amor sempre nunca visto
nunca dantes sentido
não pode ser morto ou evadido
desconhece cemitério
o amor intenso
imenso!
transcendental
amor que aviva o que vai dentro
esse amor é que é o tal!
O nome da gratidão é Rita
a irmã é mais bonita
mas beleza só quem olha vê
a gratidão se nota
faz barulhinhos estranhos
e me espera rente à porta
a gratidão aninha-se nas pernas
a gratidão me segue ao banheiro
(a beleza já não se entrega)
beleza não é pra se fiar
sei-o já de mim
o tempo tira o que o tempo dá
gratidão não precisa ter fim
a gratidão não arromba a retina
mas repleta o coração
me enternece a gratidão
com esse olhinho torto
gratidão para sempre
e mais um pouco!
Isso que os namorados se ofertam
porque em namorados se procura
não poderia nunca ser chamado amor
isso que se permuta
e é às vezes escambo
(um espelho por uma alma)
não vale um "te amo"
vende-se árvore
entrega-se ramo
do Amor viemos há muito
e para o amor rumamos
não é para hoje
mas para milhares de anos
até lá conveniências
até lá dia dos namorados
muitos arrependidos
para sempre casados
e os filhos disso
essa espécie que somos
e chega de lucidez
(mais vale o sonho!)