segunda-feira, 2 de março de 2026

HAVIDA

A vida é bonita como está
incompleta e aflita

a vida quer se realizar
enquanto é infinita

se a coragem receia
o tempo grita

não há receita
(acredita!)

erra!
errar é dos mundos como este

ao fim e ao cabo
não há erro que não se aproveite

usa este acorde
ou aquele

nota!

canta!
samba!
esperança!

e anota:

a vida em espera não existe
só a havida é nossa

domingo, 1 de março de 2026

VELHOS PAPEIS

O livro se lê até o fim
ou se deita

abri-lo e fechá-lo
fechá-lo e abri-lo
obriga a relê-lo sempre
para emendar o sentido

e àquele que padece
o indiferente sempre
parece trazer intenção
ou proposta de destino

com esses trechos
já não me arrumo
a traça roeu o "eterno"
e deixou apenas "minuto"

as cartas já se devolveram
e os poemas, outro tanto
acabada a música
acabou-se o canto

para que recompor
episódios esgotados
se guardamos o vigor
de vermos novos criados?

o presente nos convida
para que remontar do efeito
à causa já perdida?
(é deixá-la res derelicta)

a vida só vai
não pode ser restaurada
e ademais o juízo prevento
já sabe da coisa julgada

isso é litigância de má fé
e deixa a vida interrompida
não há perseverança
na insistência inifinita

há tantas boas causas
de que a gente anda esquecida
recompõe-se!
revitaliza-se!

faz!

a árvore que não dá bons frutos
é melhor deixada atrás


d'aprés Machado de Assis

sábado, 28 de fevereiro de 2026

AMAZONA

Desejo que seja feliz
(mas dispenso a notícia)

não a quero movediça
mas removida

morrediça

como uma estrela
raiado o dia

REVISSE

qualquer uma
não era
qualquer uma

quando o olhar se turva

chuva
bruma
espuma

sábado, 21 de fevereiro de 2026

VISSE

Sei que não vemos 
essas coisas
só de olhar
coisíssima nenhuma

espuma
bruma
chuva

e
não era
mesmo
qualquer uma

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

FEVEREIRO

Paetês e plumas
toda gente
gente nenhuma

é fevereiro

o risco
supera
o proveito

domingo, 15 de fevereiro de 2026

é um pouco sozinho

Sonhei com a festa da cumeeira
a exaltação da completude
que entrega seus feitos
a outros inícios

mas acordei sem edifício
num terreno baldio
com muitos planos espalhados
que entravam em conflito


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

LINHA (trenzim)

Vivo no seu trem
na portinhola da locomotiva

não adentro os vagões
que deles não te vejo
neles há muita gente
daqueles outros vilarejos

não apeio
gosto do vento no rosto
gosto de ver teu caminho
e gosto de que me aproximo

mas andar na linha
não  me revela a jornada
não construí a estrada
nada sei de ferros e encruzilhadas

interessa-me entender
o que na poesia da vida desperta o seu sorriso
talvez mais raro que sua gargalhada

não o sorriso público
à gente a ser evitada
o seu sorriso mais puro
a este que quer adivinhá-la

e você nos conduz
por pontes sobre rios
com essa sua certeza
que destrói meus desatinos

e não sei o que me embrulha o estômago
se é certo o destino
(é que é incerto chegar contigo...)

- por favor, sem solavancos, maquinista!

domingo, 8 de fevereiro de 2026

PINTURA

O guarda-sol recolhido tem um quê de frustração
de piscina vazia
de crianças portas adentro

e tem também um ar de esperança
para quem traz um sol por dentro
pleno de alegria

que dissipa as nuvens
dá calibre à réstia
e restaura o dia

sábado, 31 de janeiro de 2026

LAUDO

Decesso de excesso existe,
do que dá prova o clube dos 27

mas...percebe...

ainda aí é a falta que nos perde