sexta-feira, 29 de maio de 2026

SE ME DEIXO

A tarde é bela
e se me concentro mais nela
do que em minhas circunstâncias
consigo me colocar fora do tempo

minha mãe é viva
minha avó é viva
a juventude é pura potencialidade
não me felicita qualquer paternidade

não me sinto capaz de criar nada
nem penso nessa pretensão
todo amor é muito sentido
com a mulher nunca vista
(e nunca vivido)

aqueles eram os tempos
estes...
estes nunca são os tempos
nestes nunca se está a contento

(mas eu estou
a tarde é bela...)

gostaria de poder fazer aos outros
sentir o que sinto
não é uma esperança, não há intensidade
não é uma ilusão nem desejo de nada

é apenas um bem de se estar
uma vontade incontida de declarar:
Deus é!

e o tempo é só um instrumento
para nossa organização 
respiro fundo esse ar nem tão puro
e que invade meus pulmões como o arauto da primavera

levito
juro que levito!
o chão não tem parte comigo
a gravidade não me pesa

Estou sem ser
e sem nunca deixar de ser


domingo, 24 de maio de 2026

SAÍDA

Já tanto faz
a altura do rabo de cavalo
o banho de sol ou de piscina
as guloseimas de menina

já tanto faz
em que setor se descoordena
em que bairros investe
e a que Outro se condena

já não importam os atos de presença
que procedimentos ensaia
a distância do trabalho
o tamanho da sala

me dá igual
o prédio
a notícia propalada
a admiração não declarada

as justificativas que se deu
e as que me participou
o de que se convenceu
e o que elaborou

tanto faz por onde anda
se já a porta é só saída

(e tanta!)

sábado, 23 de maio de 2026

quinta-feira, 21 de maio de 2026

SUSTO

Quando me disse
"não prometo elegância mas impacto"

avisou-me o susto que era mulher
e eu, frágil

segunda-feira, 18 de maio de 2026

CORPO

Quebro copos ao lavá-los
e não consigo confiá-los
a outras pessoas

e não que quebrá-los me doa

como se necessários
para bombear o sangue
pelo soma

domingo, 17 de maio de 2026

LEITO

Depois de quinze anos neste espaço
sempre assustado
de um acampamento que pouco se insinuou

deixei de deitar no canto bem canto
da cama de não casal

passei a dormir no centro do leito
para evitar a queda lateral

em três lustros nunca caí
mas já vivi muito meu luto

e, no entanto,
nunca morri

sexta-feira, 15 de maio de 2026

TRANSIÇÃO

Regeneração

a alegria benfazeja
de pensar na instalação
do que talvez um dia eu veja

até lá prevejo chão
e que a gente não se esqueça
que só nos vale a intenção

que em ação se converta

MAS EU NÃO SEI TOCAR

Compreendi que para passar
de versejador a poeta
é preciso inventar

não palavras novas
mas novas formas de amar

e como serão?

formas conclusivas
como eram as da ilusão?

os que de fato são poetas
do que será que partirão?

para muitos pães e peixes
é preciso algum peixe e algum pão

mas eu só tenho memórias
e memórias só viram canção

domingo, 10 de maio de 2026

LANTERNA

Como a lanterna do andarilho
suspendo meu coração
e não me revela nada
além da própria escuridão

receio as feras
prossigo
há de haver melhores bichos

com que me comunique
sem falar
sem luta
sem fuga

tropeço
arranho as mãos
não ouso apalpar nada

pelo silêncio que ouço
reconheço esta estrada
não leva a lugar nenhum
já não promete o infinito

será mais fácil caminhá-la
que encaminhar novo destino?

sexta-feira, 8 de maio de 2026

MERA POLIDEZ

 Diante da polidez que se esmera
 eu lhes pergunto com cordura:

não é ainda má postura
a impostura?