O que se vive é irrepresentável
salvo o desejo
impossível e intenso
de retê-lo
quanto mais me dabato
mais o percebo
assomar-se uma sede
que é só o que bebo.
Vêm-me e, se a bem, vão-lhes.
O que se vive é irrepresentável
salvo o desejo
impossível e intenso
de retê-lo
quanto mais me dabato
mais o percebo
assomar-se uma sede
que é só o que bebo.
Vales mais que o amor
que na morte pressente a vida
a vida inequilátera
mais medida que cumprida
que pode valer o amor
tão contido nessa vida
se a vida tão expansiva
pode ser interrompida?
talvez contrariado consinta
que vale sempre o seu tanto
cada sorriso e cada pranto
que nada vale o que dura
tudo vale o que me faz
e vale mais se a bem me muda.
Há noites em que se quer,
mas não são de dormir
Num tal caso é inútil prosseguir
para prosseguir é preciso estar
(Vou repetir, donzel:
para prosseguir é preciso estar!)
Levanta daí!
Mete o Manoel de Barros!
Vá ouvir os passarinhos
(E, claro, atender os gatos)
Para HH
Porque era poeta
aquilo em que punha os sentidos
não podia ser cobrado
porque pouco era medido
nem a varanda
nem a roseira
nem a fonte
na clareira
nem os ruídos
em que via graça
nem a luz tímida
das manhãs baças
muito menos os abraços
que na verdade habitava
Amor do começo ao fim
tecem poetas
e juram moças apaixonadas
mas vejo amor do fim ao começo
que é o delírio ao avesso
de quem assim faz a vida adornada.
Filosofando enquanto sustentava seus personagens
Kundera imaginava o eterno retorno (Nietzsche?)
e se Robespierre voltasse de novo, uma e outra vez,
guilhotinando a cabeça dos franceses?
quem já errou diante de um inspetor Javert
sabe lá o que é
mas, sabe...
a Robespierre também lhe cortaram a cabeça
e Javert...
(insustentável mesmo é o peso do ser)
De Amor se sofre
porque se tem
amor
esse padecer
que sabemos de cor
de cor vária
infinita
a que às vezes falta beleza
e se vê tão bonita
valentia-jactância
que muito se desfila
e não sobrevive à dança
que a música sugeriu
embalou
quiçá nutriu
e não sustentou
e ficam os devaneios
crendo-se verdade
e do nada muito se vive
até que se faz muito tarde
O gato enxerga bem no escuro
e nada no breu
como há quem perceba
o que nunca entendeu
há quem se molhe
sem se limpar
haverá quem esqueça
sem perdoar?
O que nunca leu poesia de madrugada
viveu
e contudo nunca entendeu
o que fazia
(ou do que sangrava
quem a escrevia)