Amor do começo ao fim
tecem poetas
e juram moças apaixonadas
mas vejo amor do fim ao começo
que é o delírio ao avesso
de quem assim faz a vida adornada.
domingo, 6 de setembro de 2026
ADORNO
domingo, 30 de agosto de 2026
ES MUSS SEIN
Filosofando enquanto sustentava seus personagens
Kundera imaginava o eterno retorno (Nietzsche?)
e se Robespierre voltasse de novo, uma e outra vez,
guilhotinando a cabeça dos franceses?
quem já errou diante de um inspetor Javert
sabe lá o que é
mas, sabe...
a Robespierre também lhe cortaram a cabeça
e Javert...
(insustentável mesmo é o peso do ser)
sábado, 29 de agosto de 2026
INSUBSTÂNCIA
De Amor se sofre
porque se tem
amor
esse padecer
que sabemos de cor
de cor vária
infinita
a que às vezes falta beleza
e se vê tão bonita
valentia-jactância
que muito se desfila
e não sobrevive à dança
que a música sugeriu
embalou
quiçá nutriu
e não sustentou
e ficam os devaneios
crendo-se verdade
e do nada muito se vive
até que se faz muito tarde
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
PENSO LOGO DUVIDO
O gato enxerga bem no escuro
e nada no breu
como há quem perceba
o que nunca entendeu
há quem se molhe
sem se limpar
haverá quem esqueça
sem perdoar?
domingo, 23 de agosto de 2026
ASSURGENTE
O que nunca leu poesia de madrugada
viveu
e contudo nunca entendeu
o que fazia
(ou do que sangrava
quem a escrevia)
sábado, 22 de agosto de 2026
CORTEJO
Os enfermos se tratam
e quando já não
se ungem
os moribundos se despedem
os mortos se velam
enterram
rezam
e encomendam
os desaparecidos
(vivos)
caçoam
amaldiçoam
sábado, 15 de agosto de 2026
VESTIDO
Quem falou do amor sem rodeios
clamou: não há roteiros a que resista
amor só é o que se improvisa
não pode o amor ser exato
eu nele todo ato
quando não acolhido
sabe ele que me desato
não se perde
se acha
o amor é o mais Alto
e nunca está em baixa
vive em sua força imensa
lado escuro quando falto
lado claro na presença
o amor aqui e lá
todo pulsa
a toda parte se irradia
o amor resiste tanto
que no pranto
é sua própria companhia
chaga de quem não o merece
o amor, paciente,
do achado se tece
(e dele se orna
quem com ele se veste).
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
ARTE É FATO
Floresceram artistas sob todos os regimes.
Em flutuações de todos os índices.
(até sob o peso do index)
com e sem censura.
Para ressoar.
Para inaugurar um som.
Escrevendo ao gosto do povo,
ou o ilegível, o canhão lírico.
Guardados no baú.
Indo ao ar.
Menoscabando o público,
cavando seu lugar.
Pintou-se sob toda luz.
Esculpiram-se os deuses,
os demônios,
os êxtases que dão.
A abastança.
A fome.
O fruto.
O pão.
A soldo de César,
dos papas,
de Mamon-ele-mesmo.
Produz-se arte entre os solstícios.
Com sol a pino.
No escuro.
Dois dois lados do |muro|
(só aos lados...)
A arte pulsa.
A arte é imparável
sábado, 8 de agosto de 2026
MAQUINISTA
Para quem já viveu o bastante
o amor não tarda
nem vai longe
(é a véspera de ontem)
os cemitérios se parecem
mesmo os que, contando ser mais,
contam campas
(nada mais)
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
PERFECTÍVEIS (Linha férrea)
"não se ponha o sol sobre a vossa ira" - Paulo
Anos sobre anos
os marcos são nada
se um dia nos conceberam
para existir para sempre
o futuro será
também para sempre
maior que o passado
ah, o futuro
é TÃO maior
que o passado
que do passado
só nos resta
perdoá-lo
terça-feira, 28 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
EM EFÍGIE
da minha vida
não se muda
e algo segue inalterado
porque não se perfez
algo sempre o mesmo
(ainda e outra vez)
algo que não se repete
porque não se refaz
direto na alma
e não bastam semanas
para cicatrizá-la
porque não há remorso
embora em muito tenha posto reparo
(e até alguma condenação)
sexta-feira, 17 de julho de 2026
DISSE A VÓ
Coisas que são para ser e não podem?!
meu filho, isso nem existe!
é escolha sua ser triste
e que escolha infeliz!
o bom é que escolhas podem ser refeitas
o tempo passa, mas também se aproveita
as coisas já não podem ser perfeitas
mas tanto ainda pode ser bom!
deixa o idealismo que é escudo
abraça o enigma do futuro,
mas procura dar-lhe direção
imprima-lhe sua vontade,
nada aproveita guardado na nuvem
só se tem o que se usa
é infame viver de especulação
mesmo a filosófica
de que vale a sua lógica sem passar à ação?
filho, não me estendo muito
sei que o exagero é nulo
então deixo o proveitoso resumo:
Tudo existe para o amor
é de amar que se trata
que é amar que cura
então deixe a mina escura
e siga no rumo solar
quarta-feira, 15 de julho de 2026
BAÇA
A noite insone é branca e baça
como a paz pelo avesso
o desconforto em travesseiro
o tumulto capital
é azul como a emissão da tela
atravessa a pálpebra
aturde
confunde
retém
não fico
não vou
não sou
(salvo meu próprio refém)
me ocupa
mas não entretem
não cultiva imagem nem ação
a insônia
é o avesso da inspiração
domingo, 12 de julho de 2026
PERLUSTRO
O poeta conhece as cidades
as percorre
discorre delas
as atrai
e as canta
nunca as trai por serem tantas
a poesia é farta
o mundo não se acaba
olho tudo numa alegria
que não cabe em mim
mas me cabe muito sentir
domingo, 5 de julho de 2026
AQUI SE FAZ
Percebo que meu erro diante
do seu olhar disciplinário
foi confessar haver vivido
(o que te parecem ossos no armário)
talvez preferisse alma nova
nunca antes encarnada
simples e ignorante
assim do berço como da cova
mas tive ânsia de saber
com toda a alegria e dor
e foi indispensável nascer
e obedecer ao Criador
e assim fui errando
aprendendo com os tropeços
ainda trago raladas as mãos
e acumulo recomeços
notei não ser lícito parar
que a melhor inércia é a do movimento
e que a arte de trilhar
exige morte e nascimento
assim também nasci para você
e por um tempo para você vivi
que preferiu ver-me morrer
por confessar o quanto nasci
e aqui ainda estou
um morto que te fala
e a quem responde sem saber por quê
tentou voltar se ainda estava
quarta-feira, 1 de julho de 2026
FARSESCO
A mordaça que nos demos
no passado e no presente
é farsa em qualquer tempo
muito mais fala a mente
do que os órgãos vocais
daqueles que a ressentem
e mais rápido viaja o pensamento
na noite em que se formula
do que a luz de todos os dias
mais ganhava em externá-los
do que em fingir sepultá-los
como tudo que se adia
sábado, 27 de junho de 2026
O TAL
O amor que se supera
desmascara uma ilusão
e o amor que já não era
ainda espera (ainda em vão...)
fecha a porta sem trancá-la
e se afasta
(mas não muito)
para melhor espiá-la
esse não tem orgulho
acena quando não fala
e acaba fazendo barulho
mesmo quando se cala
o amor não se bloqueia
que é desde sempre interno
o amor é sua própria teia
para qualquer tipo de inseto
o amor sempre nunca visto
nunca dantes sentido
não pode ser morto ou evadido
desconhece cemitério
o amor intenso
imenso!
transcendental
amor que aviva o que vai dentro
esse amor é que é o tal!
sexta-feira, 26 de junho de 2026
FELIS CATUS
O nome da gratidão é Rita
a irmã é mais bonita
mas beleza só quem olha vê
a gratidão se nota
faz barulhinhos estranhos
e me espera rente à porta
a gratidão aninha-se nas pernas
a gratidão me segue ao banheiro
(a beleza já não se entrega)
beleza não é pra se fiar
sei-o já de mim
o tempo tira o que o tempo dá
gratidão não precisa ter fim
a gratidão não arromba a retina
mas repleta o coração
me enternece a gratidão
com esse olhinho torto
gratidão para sempre
e mais um pouco!
terça-feira, 23 de junho de 2026
O AMARGO (indistintamente)
Isso que os namorados se ofertam
porque em namorados se procura
não poderia nunca ser chamado amor
isso que se permuta
e é às vezes escambo
(um espelho por uma alma)
não vale um "te amo"
vende-se árvore
entrega-se ramo
do Amor viemos há muito
e para o amor rumamos
não é para hoje
mas para milhares de anos
até lá conveniências
até lá dia dos namorados
muitos arrependidos
para sempre casados
e os filhos disso
essa espécie que somos
e chega de lucidez
(mais vale o sonho!)
domingo, 21 de junho de 2026
UM QUASE
Noves fora,nada dentro
vejo que nunca tive tempo
e no entanto o perdia
o que achava que me divertia
lentamente me esvaía
e por isso não me contenho
no que o tempo me propicia
o tempo, que nem existe,
é eternamente bonito
e persisto infinito
o que quase não existo
quarta-feira, 17 de junho de 2026
domingo, 14 de junho de 2026
SIMPLES
Quem te convenceu de que
a vida pode ser completa
contou uma mentira braba!
a vida nem vai ser completada
a vida é só a estrada
insistente
acidentada
misterioso itinerário
a vida só tem remetente
não tem destinatário
não tem emprego
casa, gato, cachorro
mulher, filhos, margarina
nada!
nada que possa integrá-la
só nos resta ser íntegros
ao cruzá-la
quinta-feira, 11 de junho de 2026
QUASE VIVOS
O amor não tem medo
é coragem dar-se o degredo
de habitar outro coração
isso que hesita
isso que receia
essa coisa esquisita
não vale palmilhar
não se dá asas
é coisa estanque
que não ousa decolar
o amor arremete
abrange e avista
como quem nunca pousa
o amor é bem outra coisa
os fanáticos da segurança
estão ancorados nos portos
em que matrículas os retêm
ou escondem-nos muros
limitam-nos cercas
ninguém sai ou entra
não é bem vida
mas ainda assim se morre
e morre-se mais ainda
segunda-feira, 1 de junho de 2026
QUAL SONHO
Pensei em memórias tão potentes
que, à falta de papel,
arrepiei e chorei
por isso lhes peço que entendam
a falta desse poema
(que talvez até me agradeçam)
mas algo resta evidente
e me faz falta declará-lo:
feliz o homem por poder sentir
o que antes só havia sonhado
sexta-feira, 29 de maio de 2026
SE ME DEIXO
A tarde é bela
e se me concentro mais nela
do que em minhas circunstâncias
consigo me colocar fora do tempo
minha mãe é viva
minha avó é viva
a juventude é pura potencialidade
não me felicita qualquer paternidade
não me sinto capaz de criar nada
nem penso nessa pretensão
todo amor é muito sentido
com a mulher nunca vista
(e nunca vivido)
aqueles eram os tempos
estes...
estes nunca são os tempos
nestes nunca se está a contento
(mas eu estou
a tarde é bela...)
gostaria de poder fazer aos outros
sentir o que sinto
não é uma esperança, não há intensidade
não é uma ilusão nem desejo de nada
é apenas um bem de se estar
uma vontade incontida de declarar:
Deus é!
e o tempo é só um instrumento
para nossa organização
respiro fundo esse ar nem tão puro
e que invade meus pulmões como o arauto da primavera
levito
juro que levito!
o chão não tem parte comigo
a gravidade não me pesa
Estou sem ser
e sem nunca deixar de ser
domingo, 24 de maio de 2026
SAÍDA
Já tanto faz
a altura do rabo de cavalo
o banho de sol ou de piscina
as guloseimas de menina
já tanto faz
em que setor se descoordena
em que bairros investe
e a que Outro se condena
já não importam os atos de presença
que procedimentos ensaia
a distância do trabalho
o tamanho da sala
me dá igual
o prédio
a notícia propalada
a admiração não declarada
as justificativas que se deu
e as que me participou
o de que se convenceu
e o que elaborou
tanto faz por onde anda
se já a porta é só saída
(e tanta!)
sábado, 23 de maio de 2026
quinta-feira, 21 de maio de 2026
SUSTO
Quando me disse
"não prometo elegância mas impacto"
avisou-me o susto que era mulher
e eu, frágil
segunda-feira, 18 de maio de 2026
CORPO
Quebro copos ao lavá-los
e não consigo confiá-los
a outras pessoas
e não que quebrá-los me doa
como se necessários
para bombear o sangue
pelo soma
domingo, 17 de maio de 2026
LEITO
Depois de quinze anos neste espaço
sempre assustado
de um acampamento que pouco se insinuou
deixei de deitar no canto bem canto
da cama de não casal
passei a dormir no centro do leito
para evitar a queda lateral
em três lustros nunca caí
mas já vivi muito meu luto
e, no entanto,
nunca morri
sexta-feira, 15 de maio de 2026
TRANSIÇÃO
Regeneração
a alegria benfazeja
de pensar na instalação
do que talvez um dia eu veja
até lá prevejo chão
e que a gente não se esqueça
que só nos vale a intenção
que em ação se converta
MAS EU NÃO SEI TOCAR
Compreendi que para passar
de versejador a poeta
é preciso inventar
não palavras novas
mas novas formas de amar
e como serão?
formas conclusivas
como eram as da ilusão?
os que de fato são poetas
do que será que partirão?
para muitos pães e peixes
é preciso algum peixe e algum pão
mas eu só tenho memórias
e memórias só viram canção
domingo, 10 de maio de 2026
LANTERNA
Como a lanterna do andarilho
suspendo meu coração
e não me revela nada
além da própria escuridão
receio as feras
prossigo
há de haver melhores bichos
com que me comunique
sem falar
sem luta
sem fuga
tropeço
arranho as mãos
não ouso apalpar nada
pelo silêncio que ouço
reconheço esta estrada
não leva a lugar nenhum
já não promete o infinito
será mais fácil caminhá-la
que encaminhar novo destino?
sexta-feira, 8 de maio de 2026
MERA POLIDEZ
Diante da polidez que se esmera
eu lhes pergunto com cordura:
não é ainda má postura
a impostura?
quarta-feira, 6 de maio de 2026
ALTEADO
Altar, mas tão alto
que de vales não se divisa
e a bênção se improvisa
para muito além da visão
nenhuma praga se insinua
coisa alguma tranca a rua
e nem mau-olhado alcança
o de que não se está à altura
só sonhos e desdobramentos
para conseguir o intento
de tão alta posição
não que haja desculpa
mas ainda assim se estrutura
o perdão
sábado, 2 de maio de 2026
LICANTROPIA
Sobre a terra
sobre você:
nada é alvissareiro
se a enfermidade
é o enfermeiro
nem pode haver descanso
se o despertador
é o travesseiro
Tudo se refaz
sem refazimento
"pesa mais a raiva que o cimento"
sexta-feira, 1 de maio de 2026
O FEITIÇO DE ÁQUILA
Saudade dá
e passa
dá e passa
dá e passa
saudade dá e passa
mas não mata
(como mata a fome...)
ser um lobo em tempo de dama
em tempos de águia, homem
saudade não mata
(mas consome)
terça-feira, 28 de abril de 2026
domingo, 26 de abril de 2026
PASSAGEM
Consterna-me a força do Sol nascente
poderoso, luminescente
ousado e ascendente
(e no entanto com poucas horas
dá-se o poente)
em que beleza deveria
o que vive pela ótica do lucro
da pressa e do preço do atributo
investir o dom da visão?
domingo, 19 de abril de 2026
CAUSA E EFEITO
Quando a bala se alojou em mim
entendi imediatamente que tinha meu nome
ela me estava destinada
desde que a disparara
esse projétil eu o projetara
por ter deixado vencer-me
minha parte mais bárbara
eu que tanto tinha errado
jamais perdoara
nem nunca pedira perdão
agora já penso em outra chace
ainda dentro deste caixão
oblongo
escuro
prematuro para o que planejara
com minhas pequenas asas
do amor nunca voara
fora sempre intelecto
ora fértil, ora abjeto
mas bons ventos me embalem
da Misericórdia divina
e me deem forças para a retificação
que agora se me destina
mas sempre haverá amanhã
pois Deus é Amor
e esse Amor não limita
sexta-feira, 17 de abril de 2026
REVESGUÊ
Para todo trem chega o fim da linha
e a fumaça é para o bala perdida
e de mais a mais
prefiro voar
por aeroportos
gosto
sem sair do lugar
porto
tudo de que me distraio
e para o passado: revesguê de olho
(que é soslaio)
quinta-feira, 16 de abril de 2026
ANTELUCANO
Esta certeza:
as estrelas só são o que são
porque estão distantes
se estivessem próximas
seriam o que serão:
poeira
domingo, 12 de abril de 2026
MEMBRANIA
Crio listas de músicas
e as ouço como se por acaso
e por acaso, como se não,
vislumbro uma multidão
toda uma gente
que esteve à vista e desapareceu
que esteve íntima
e cuja lembrança me estranha
que esteve em mim
mas está de fora da membrana
sábado, 11 de abril de 2026
domingo, 5 de abril de 2026
GÉRMEN
Escrevo versos nesta vida
para ser poeta na vindoura
(empreendo esforços
não deixo obra)
a Lei é de trabalho
não existe outro dom
mas o de cultivar
a inspiração
sexta-feira, 3 de abril de 2026
É
A suposta abolição de Deus
é a tentiva, tola e frustra,
de alforriar a consciência
mas Deus está
invocado ou não
e o alarme da consciência ninguém desarma
suprime o sono
o sonho
semeia o alcoolismo
para o erro enterrado não há remissão
e Deus é
(eis a questão)
quarta-feira, 1 de abril de 2026
EU TAMBÉM SEI
"Fecha a porta do seu quarto
porque se toca o telefone..."
Grazadeus!
telefones já não tocam
e se tocam já não tocam
perturbam
(só dê linha
para se enforcarem...)
domingo, 29 de março de 2026
SEM DIA "D" NEM HORA "H"
O dia da sua morte só existe
na recatada apreensão
dos seus herdeiros
(e na aflição
das testemunhas
do fato)
no mais é apenas uma dia
em cujo longo quadro de horas
você acaso desapareceu
sábado, 28 de março de 2026
DESORBITA
O Soares tinha razão
sabe lá alguém
o que é certo ou justo?
o belo é um uso de época,
construto do tempo e do lugar
nem em se conservando tal qual
haveria de seguir belo
dois amigos brigados
contando-me cada um sua versão
estão certos um quanto outro
(nem justifica recomposição)
nenhuma filosofia pode
justificar grandes afastamentos
porque nenhuma é necessária
os astros, assim que puderem
se olharão de soslaio
se desorbitarão
a tangente
(entrevejo)
é sua grande aspiração
e você (o Freitas, o Paulo)
que podem tomar
catetos quanto hipotenusa
repetem
num sorriso cheio de dentes
o mesmo caminho
(e sonham encurtá-lo)
domingo, 22 de março de 2026
sexta-feira, 20 de março de 2026
terça-feira, 17 de março de 2026
CABRAL
Pernambuco dá
Pernambuco toma
meu Capibaribe
corta Pamplona
nunca fui Guilherme
nunca foi laranja
será que no Recife
eu já fui Holanda?
qual o quê!
Limoeiro
e em qualquer parte do mundo
Pernambuco inteiro
domingo, 15 de março de 2026
sábado, 7 de março de 2026
TELÚRICO
As abelhas bebem e partem
o sol raia o dia e deixa a noite
governos se malsucedem
na lavoura do arrependimento
nada disso semelha o amor
o amor é uma estação
em que o que embarca
nunca parte ao jamais
as estações só não são infinitas
porque antes são eternas
e o amor, como elas
é intrínseco a esta terra
quinta-feira, 5 de março de 2026
segunda-feira, 2 de março de 2026
HAVIDA
A vida é bonita como está
incompleta e aflita
a vida quer se realizar
enquanto é infinita
se a coragem receia
o tempo grita
não há receita
(acredita!)
erra!
errar é dos mundos como este
ao fim e ao cabo
não há erro que não se aproveite
usa este acorde
ou aquele
nota!
canta!
samba!
esperança!
e anota:
a vida em espera não existe
só a havida é nossa
domingo, 1 de março de 2026
VELHOS PAPEIS
O livro se lê até o fim
ou se deita
abri-lo e fechá-lo
fechá-lo e abri-lo
obriga a relê-lo sempre
para emendar o sentido
e àquele que padece
o indiferente sempre
parece trazer intenção
ou proposta de destino
com esses trechos
já não me arrumo
a traça roeu o "eterno"
e deixou apenas "minuto"
as cartas já se devolveram
e os poemas, outro tanto
acabada a música
acabou-se o canto
para que recompor
episódios esgotados
se guardamos o vigor
de vermos novos criados?
o presente nos convida
para que remontar do efeito
à causa já perdida?
(é deixá-la res derelicta)
a vida só vai
não pode ser restaurada
e ademais o juízo prevento
já sabe da coisa julgada
isso é litigância de má fé
e deixa a vida interrompida
não há perseverança
na insistência inifinita
há tantas boas causas
de que a gente anda esquecida
recompõe-se!
revitaliza-se!
faz!
a árvore que não dá bons frutos
é melhor deixada atrás
d'aprés Machado de Assis
sábado, 28 de fevereiro de 2026
sábado, 21 de fevereiro de 2026
VISSE
Sei que não vemos
essas coisas
só de olhar
coisíssima nenhuma
espuma
bruma
chuva
e
não era
mesmo
qualquer uma
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
domingo, 15 de fevereiro de 2026
é um pouco sozinho
Sonhei com a festa da cumeeira
a exaltação da completude
que entrega seus feitos
a outros inícios
mas acordei sem edifício
num terreno baldio
com muitos planos espalhados
que entravam em conflito
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
LINHA (trenzim)
Vivo no seu trem
na portinhola da locomotiva
não adentro os vagões
que deles não te vejo
neles há muita gente
daqueles outros vilarejos
não apeio
gosto do vento no rosto
gosto de ver teu caminho
e gosto de que me aproximo
mas andar na linha
não me revela a jornada
não construí a estrada
nada sei de ferros e encruzilhadas
interessa-me entender
o que na poesia da vida desperta o seu sorriso
talvez mais raro que sua gargalhada
não o sorriso público
à gente a ser evitada
o seu sorriso mais puro
a este que quer adivinhá-la
e você nos conduz
por pontes sobre rios
com essa sua certeza
que destrói meus desatinos
e não sei o que me embrulha o estômago
se é certo o destino
(é que é incerto chegar contigo...)
- por favor, sem solavancos, maquinista!
domingo, 8 de fevereiro de 2026
PINTURA
O guarda-sol recolhido tem um quê de frustração
de piscina vazia
de crianças portas adentro
e tem também um ar de esperança
para quem traz um sol por dentro
pleno de alegria
que dissipa as nuvens
dá calibre à réstia
e restaura o dia
sábado, 31 de janeiro de 2026
LAUDO
Decesso de excesso existe,
do que dá prova o clube dos 27
mas...percebe...
ainda aí é a falta que nos perde
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
sábado, 24 de janeiro de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
OUTRA LEI DE NILTON
Depois do abacaxi
só o abacaxi
não há o que possa
suceder sua doçura
abacaxi não é problema
mas textura
o coroado abacaxi!
"a gente chega
a achar que é feliz"
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
VENTILADO
A notícia
fictícia
sobressalta
seu advento
sublinha
a falta
concretiza a despedida
desembrulha o estômago
abre vagas de
escassa procura
difícil aprovação
impossível investidura
o golpe
que desarma
a armadura
cessa o duelo
nos foros
da loucura
Como um livro quando faltam páginas
some do epílogo a explicação
sábado, 17 de janeiro de 2026
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
MINEIRO E SOLIDÁRIO
Eu não preciso de provas
nunca precisei de provas
eu experimento, oras!
Eu sinto
perscruto
intuo
tudo que é bonito
vívido
pulsante
Só preciso de provas
se diagnóstico de câncer
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
MEU TEMPO TAMBÉM É QUANDO
Nunca antes
até tão depois
Nunca antes
partir ficado
Nunca antes...
mas e o depois projetado?
sábado, 10 de janeiro de 2026
DEDICADO MENTALMENTE
Quisera escrever um poema
a cada vez que não lhe posso falar
mas os projetos excederiam de muito
minha capacidade de os realizar
e eu poderia passar sem essa ansiedade
afinal sempre disse, de mim para mim,
que não sofro desse mal
eufórico, deprimido, eufórico, deprimido
mas sem pressa de ir de uma a outro
(não é assim que sou de lua)
querer falar-lhe é recorrente
(mais do que diário)
mas talvez não seja nada para versos
e como destacado nas nuvens
não tenho o diploma de onde se estudam
nem ninguém me outorgou essa dignidade
a não ser por alguns afeiçoados, em epíteto:
Bom dia, senhor poeta!
como aos poetas oficiais das cidades de novela
uma distinção carinhosa que
de uma forma vexada
afaga
eu prefiro filmes a novelas e sou roteirista
o passado quase como havido
o futuro como desejado
neste ainda estou ao seu lado
os problemas se superaram
teceu-se o modus vivendi
a vivenda é qualquer uma
de qualquer patamar
em qualquer localização
os presentes se dão sem medo
dos excessos não se espanta e foge
os passados ainda existem e seguem passados
para frente se olha além das décadas
do decesso
da decendência
às vezes acho que era até fácil
que se podia
que se pode
espero que estes caracteres
encontrem-na bem
Desejar-te desde sempre
Ter-te agora, uma dia, é sempre
DIÁRIO DE BORDO (Gil)
A Bahia não me deu
(e nem eu queria)
régua e compasso
mas aquele abraço
tem
pintura no braço
tem
orla, largo, confissão
na Bahia nada
atravanca a expansão
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
DIÁRIO DE BORDO
Talvez não goste de viajar sozinho
nem acompanhado
mas para encontrar
a linguagem do encontro é o abraço,
que faz a impressão do espisódio
na parede do coração
não entope
acolchoa
(de amor não se morre
à toa)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
DIÁRIO DE BORDO
Perambular como um estrangeiro
em um país um pouco seu
mas só um pouco
que nunca lhe pertenceu
o que ali se tece
com os olhos certos
é de uma felicidade!
que também um pouco entristece
domingo, 4 de janeiro de 2026
ETERNO
A onda é efêmera
mas as ondas são eternas
como eternamente o carvão
se pressiona em diamantes
que se dão a quem impressiona
(mas não eternamente)
TEOREMINHAS
Quem nunca soube brincar
não sabe ser sério
sabe imitar a morte
e incidir como um imposto
mas não vê a vida
em todos os seus contornos
falta-lhe um sentido
e o sentido de estar
(disposto)
sábado, 3 de janeiro de 2026
O VOLUNTÁRIO
Já fui cego
e torturado pela escuridão
já fui cego
e orgulhoso de sê-lo
fascinado por aquela tortura
até o dia em que te dirigem o
"que queres que te faça?"
que cura
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
NÚCLEO
Ecoando de dentro da minha primeira escolha musical
um bardo dizia que o último dia de dezembro
é sempre igual ao primeiro de janeiro.
Mas os separa uma obsessão.
O último de dezembro é apenas o cúmulo
do que os de dezembro todos portam:
a hora do novo cantada e decantada.
Tanto e de tal modo pronunciada
que chega a ser esperada.
Uns passam o café e arrumam a casa.
Outros fazem a contagem regressiva para a contagem regressiva,
que mesmo tão curta se faz em roupa de ver Deus
(e talvez a preços exorbitantes...)
3,2,1 e SCATAPUM!
Primeiro de janeiro não tem obsessão.
O novo ficou para trás (ou foi o velho?)
É impressionante seu poder de sentir-se o mesmo:
pós-praia, pós-clube, pós-casa-da-sogra, pós-nada.
É como chegar ao pé do arco-íris:
João não vira Maria,
não tem pote de ouro,
não houve o sorteio bilionário da Caixa.
Tanto faz cada cor, todas as cores, ou cor nenhuma.
O tolo está de ressaca?
Ou o tolo está orgulhoso de que,
este ano, ainda não mandou aquela famigerada mensagem?
Outros têm agora 365 dias para tomar coragem
"até o fim do ano".
Ou para manter a coragem desde esta hora
para não repetir o de outrora.
Um ano limpo, até segunda ordem.
E se a barra sujar:
"...tenho discos e livros".
O núcleo. Indivisível.
