sexta-feira, 23 de agosto de 2024

UM POSTO

Uma réstia de sol vale a tarde,
como uma franja de esperança resiste à infância.
A vida sempre por um fio,
não se sabe se curto ou comprido.

Não se sabe se novelo ou desalinho.
Mas tenho a curiosidade de um gato;
o mesmo vivo interesse
que ostenta o pequeno felino.

Eu nem quero, almejo.
E sinto que consigo.
Não vou ficar enganado,
a vida é muito mais que isto.

A vida não está em outro lugar,
apenas está também lá.
A vida é bem mais do que se pode divisar.
A vida não se pode represar.

Ou é vivida em intensidade
ou não está sendo vivida.
A vida não tem como não ser percebida.

A vida bate,
a vida ensina.
A gente aprende,
a vida premia. 

As asas crescendo juntas:
amor e conhecimento,
pela via da disciplina.

A vida eu aceito,
e muito mais eu queria!
Na envergadura divina.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

...TODO

Ninguém precisa entender.
Ninguém precisa aceitar.
Agitada a bandeira do "um-dó-lá-si"
não existe a do fim.

Nem quadriculada,
nem preta com caveira.
Nunca acaba a brincadeira
séria de viver.

É um constante herdar de si mesmo.
Um constante aumentar o inteiro.
Melhorá-lo.
Doá-lo.

Nada a marcar o passo.
Tudo a orientar-te.
Um dia a Júpiter,
um dia amar-te.

Observa.
Entende.
Retifica.
Faz.

Tudo que é bom, apraz.
O que não, dispara o alarme da consciência
Essa é a mais básica ciência,
que não se pode negar.

Viver exige atenção.
Viver bem exige apuro.
Sai do escuro,
acende essa luz!

domingo, 4 de agosto de 2024

UM INTEIRO

A solidão também é liberdade;
faz o que te arde!
Faz o que te pulsa,
coisa alguma precisa ser expulsa.

Tudo o que se aninha em ti
espera o momento do voo.
Escuta o que entoo
e no tempo certo abre as asas.

Nada apaga tua chama.
Clama!
O deserto é o conhecimento de si.

Volta-te pra ti;
Sê!
Ninguém precisa entender.

sábado, 3 de agosto de 2024

O SOMA

Dizia em um tom que parecia postiço:
"tudo é possível."

A paixão é indiferente
tanto a que esperem por ela
quanto a que a queiram evitar.

É uma explosão como há outras;
apenas mais envolvente
(ou louca).

A qualquer momento,
ao dobrar uma esquina,
alguém pode te apanhar
os Tilibra depois de os derrubar.

Todos saímos da escola,
mas tudo é ainda escolar.
Todos têm um grau de medo,
mesmo se dizem conformar-se.

O rebuliço é conhecido,
ou é sintoma.
Para quem não se divide
tudo se soma.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

SATÉLITE

A lua hoje está de provocar sinistros!
Ando distraído para te esbarrar. 

Eu estou.
Você parece não estar.
Estou na velocidade certa para divagar.

Vagar não é escolha,
é sina.
Já nem soa a campainha que nunca mandei instalar.

As pessoas correm muito.
Não sei onde querem chegar.
Eu já faço uma vaga ideia.
Por isso distraído (mas devagar).

quinta-feira, 4 de julho de 2024

ENQUANTO

Ninguém dá-se ao trabalho de dar-se ao trabalho.
Sobrexcitam a imaginação e chamam-no esperança.
E, no entanto,
o dia que amahece não tolera essa infância. 

Os fatos apresentam-se brutos.
Quando parece haver paz,
é só ausência de tumulto.
De sobressalto,
de conteúdo.

Um vazio expande-se,
sobretudo.
Não se acorda nem se morre,
sonha-se.

O movimento estanca.
O filme vira foto.
Desfaz-se o foco.

Estou cego 
ou isto é enfim tudo?

terça-feira, 2 de julho de 2024

NEUTRO (domínio público)

Era neutro. Não se expressava, não interferia, não se posicionava, não sabia.

Dormiu, acordou em cima de um muro. Era largo, confortável.

Viu embaixo, de um lado, anjinhos esfuziantes que lhe acenavam perseverantes, convidando-o a descer para junto deles. 

Do outro lado capetinhas impassíveis o olhavam de braços cruzados. 

Estranhando o fato, perguntou a um deles:

- Não vão tentar me convencer a descer para o seu lado?

Sem esboçar emoção, o capetinha respondeu:

- O muro já é nosso.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

PERCURSO

A escrita poética sincera
é de exercício frustro.
Como um grito praticado no escuro
sem real desesperação.

Esse exercício é cinema estático,
mudo ou falado.
É como canção só compasso,
sem melodia ou inspiração.

É um interior sem âmago.
É um bioma só pântano,
casa só assombração.

Nada se faz sem o assombrado.
Não se nada sem nado
(e ainda esperamos tradução).

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PERFEITO

Ando pelas mesmas ruas
quando os dias são oe mesmos;
nem são-joões, nem fevereiros.
Nem procuro nem vejo.

Você pervaga.
Perfaz caminhos insuspeitos.
Não ouve convites,
não aceita pleitos.

Só o desencontro sabe ser perfeito.

sábado, 1 de junho de 2024

PROMONTÓRIOS E ALMADILHAS

Algumas impressões não se dão,
só se permutam.
Assim as das coisas que tocaram fundo,
nos ensinaram, redefiniram.

Porque essas só aos recomeçados,
iniciados, 
entristecidos.

Essas só aos que se assombraram
(mesmo se esquecidos).

As coisas fundas,
em que se amorteceram as angústias.
As coisas claras,
que derrubaram as escamas dos olhos.

As estradas de Damasco,
tão caras aos renascidos.
As praças do interior,
que abrigam os inúmeros primos.