quinta-feira, 4 de julho de 2024

ENQUANTO

Ninguém dá-se ao trabalho de dar-se ao trabalho.
Sobrexcitam a imaginação e chamam-no esperança.
E, no entanto,
o dia que amahece não tolera essa infância. 

Os fatos apresentam-se brutos.
Quando parece haver paz,
é só ausência de tumulto.
De sobressalto,
de conteúdo.

Um vazio expande-se,
sobretudo.
Não se acorda nem se morre,
sonha-se.

O movimento estanca.
O filme vira foto.
Desfaz-se o foco.

Estou cego 
ou isto é enfim tudo?

terça-feira, 2 de julho de 2024

NEUTRO (domínio público)

Era neutro. Não se expressava, não interferia, não se posicionava, não sabia.

Dormiu, acordou em cima de um muro. Era largo, confortável.

Viu embaixo, de um lado, anjinhos esfuziantes que lhe acenavam perseverantes, convidando-o a descer para junto deles. 

Do outro lado capetinhas impassíveis o olhavam de braços cruzados. 

Estranhando o fato, perguntou a um deles:

- Não vão tentar me convencer a descer para o seu lado?

Sem esboçar emoção, o capetinha respondeu:

- O muro já é nosso.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

PERCURSO

A escrita poética sincera
é de exercício frustro.
Como um grito praticado no escuro
sem real desesperação.

Esse exercício é cinema estático,
mudo ou falado.
É como canção só compasso,
sem melodia ou inspiração.

É um interior sem âmago.
É um bioma só pântano,
casa só assombração.

Nada se faz sem o assombrado.
Não se nada sem nado
(e ainda esperamos tradução).

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PERFEITO

Ando pelas mesmas ruas
quando os dias são oe mesmos;
nem são-joões, nem fevereiros.
Nem procuro nem vejo.

Você pervaga.
Perfaz caminhos insuspeitos.
Não ouve convites,
não aceita pleitos.

Só o desencontro sabe ser perfeito.

sábado, 1 de junho de 2024

PROMONTÓRIOS E ALMADILHAS

Algumas impressões não se dão,
só se permutam.
Assim as das coisas que tocaram fundo,
nos ensinaram, redefiniram.

Porque essas só aos recomeçados,
iniciados, 
entristecidos.

Essas só aos que se assombraram
(mesmo se esquecidos).

As coisas fundas,
em que se amorteceram as angústias.
As coisas claras,
que derrubaram as escamas dos olhos.

As estradas de Damasco,
tão caras aos renascidos.
As praças do interior,
que abrigam os inúmeros primos.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

CENAS

Cenas urbanas. 
Bonitas mas estrangeiras. 
Eu não as entenderia nem se as escrevera.

Mas as olho com avidez indiscreta.
Não sei se tão bem as vejo,
ou se o foco é o meu desejo. 

Tudo está calmo.
É uma estação propícia.
A chuva refresca, mas será interrompida.

Fertiliza possibilidades.
Mesmo as de quem acha que é cedo,
ou acha que se faz tarde.

Muito me ocorre.
O tempo estanca. 
Há muito material para urdir a esperança.  

segunda-feira, 29 de abril de 2024

MERITOCRACIA

O Sol nasce para todos,
e para todos dura o mesmo o dia começado.


Mas alguns apreciam a vista,
enquanto outros seguram sombrinhas
para os que podem desfrutá-lo.

NULLE PART

Esta caderneta é tão pequena;
caberá nela o poema?
Ou talvez até seja grande
pruma inspiração que se ausenta. 

domingo, 14 de abril de 2024

SER E ESTAR

A vida é chama e consome tudo
sem que o distraído o tenha dado por existido.


A vida chamou para outro lado
os amigos que casaram e os com filhos.
Levou longe os amigos que se ordenaram
e as amigas que tomaram o hábito.

A vida age sempre,
quase sempre sem espalhafato.

Num dia os programas abundam,
e precisam ser sorteados.
Noutro dia você gosta 
quando nota que está isolado.

Por um tempo parece reversível,
mas uma estranha vertigem impede o gesto.
Depois parece impossível,
ou que provoca tédio.

Mas a vida que foi, isso é lógico,
não pode seguir sendo.
Nem a musculatura poderia sustentar o aceno.

Parece que não sigo sendo,
mas me sinto dilatar.
Até preencho o recinto com o meu jeito de estar.

Mas a vida segue tramando e,
num susto, esta já é outra coisa.
Tudo, tudo cansa
e quem muito voa também muito pousa.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

GALOS

O Cabral que não descobriu mas fundou um mundo
disse que um galo sozinho não tece uma manhã. 
Acompanhado, tece.

Bem acompanhdo é alvoradeiro, 
traz o dia feito em seu celeiro. 
Não precisa de carro,
não precisa de mitologia.

Só precisa essa forma tão pura de alegria chamada encontro,
ou ponto de partida.

E canta toda madrugada.
Canta quando a noite já está cansada,
mas segue sempre dedicada.

A noite. O canto. O ponto. A vida.