Não havia assim tanto sangue
tratando de fazer o corpo funcionar
quanto havia quando caía.
Quando me machucava
e o sangue se esvaía.
sábado, 29 de abril de 2023
BANCO
segunda-feira, 24 de abril de 2023
domingo, 23 de abril de 2023
DECERTO
Morrer ao sol nascente.
Ver apagar-se a luz,
e a luz irradiar-se a outros.
Que vivam seus clubes e parques.
Tudo isso é distração.
Eu mergulho na eternidade.
quarta-feira, 19 de abril de 2023
LÍRIOS
Nos meus delírios
o Sepultura está reunido,
os Beatles estão vivos,
a arte está nos cimos.
Nos meus delírios estou reunido
(não estou desconjuntado).
Nos meus delírios estou vivo
(nada em mim está sepultado).
Nos meus delírios estou nos cimos
(vejo tudo de cima a baixo).
Eu gosto mas são delírios.
Não gosto e são outros os fatos.
domingo, 2 de abril de 2023
NÃO SE TOCAM
Aos suicidas não se tocam os sinos.
A menos que tenham matado a própria alegria e continuado a sorrir.
A menos que tenham matado a própria luz e sigam tateando.
A menos que tenham matado a própria língua e sigam falando esperanto, em um salão sem melodias e sem cantos.
Aos suicidas não se tocam os sinos, mas o tango argentino pode ajudar.
Bem mais que um blues, como disse o Zaratrusta à mão.
E os roqueiros seguem fazendo a revolução desencarnada,
mais velhos do que matar Cristo nas cruzadas.
Aos suicidas não se tocam os sinos porque não podem entender a alegria alcoolica, pela muito simples razão de que ela não existe.
Ela é uma prótese, mas uma prótese que só engana os sentidos dos que também a usam.
Aos suicidas não se tocam os sinos porque estão fartos.
Envenenados, em queda livre, enforcados, e não têm pulsos.
Aos suicidas não se tocam os sinos porque sinos estão em desuso.
sábado, 1 de abril de 2023
AMOSTRA
Se expresse.
Se é o jeito, incompletamente.
Se precisar, seja indireto.
Também existe essa transitividade.
As coisas estão sempre por se completar.
As pessoas estão sempre por se perfazer.
As frases se fazem de umas e outras,
até se não são orações.
(Se são melhor serem fervorosas.)
Tire de si e já tudo está no mundo.
E o mundo, você sabe,
é uma pirueta por dia.
domingo, 26 de março de 2023
NOITE ADENTRO DIA AFORA
a lição da persistência
é muita vez toda a ciência
necessária a estarmos.
Outras é bom a completarmos
com a da noite, que o cobre,
doce, e dá descanso ao nosso
"tentativas e erros".
ÀS vezes é bom nos determos,
olhar pela janela.
Ver se o trajeto é mesmo
o que se desejava.
Pois o trajeto é tudo,
esta estrada.
Não vamos chegar a lugar algum.
Pouco importa o que dizem
os sábios da consumação,
que não são sábios consumados
(não é possível ser um sábio consumado).
mas não é preciso suportá-los.
É preciso nos formarmos,
forjados na dor e na alegria.
Na comunhão.
Na atenção.
Na respiração.
Contemplar.
Buscar entender.
Integrar
e crescer.
sábado, 25 de março de 2023
SE PUDER, MORRA SORRINDO
As alegrias não se requentam
tão bem quanto as pizzas.
E quem quiser insistir, bem,
quase iludirá os sentidos
que, distraídos,
famintos de satisfação,
vão receber o golpe
como se fosse nutrição.
O passado não nutre.
De passado só vive o abutre.
Mas há um ciclo, todos dizem,
sem que haja forma de o negar.
Morrer, nascer,
colher, plantar.
Com muito mais detalhes
do que qualquer fórmula abrigaria
(E nem posso verter em regra
o que é experiência minha).
Que já vivi,
revivi.
Fingi que não vivia
e fingi que não morri.
E que ainda creio estar lá,
quando nunca saí daqui.
sexta-feira, 24 de março de 2023
FRIAGEM
À junção de água e sede
não devia faltar nada.
Mas o leito do rio secou
e a sede já vem saciada.
Vivo com cuidado:
Um bruto delicado,
com medo de se quebrar.
Enquanto poetas cantam a febre,
levo três dias com frio
sonhando a hora de deitar.
Entoo graças a Deus
pela cama, a coberta,
pelo gato ao pé de mim.
Esta hora é tão conforável
que quisera viver assim.
Noite adentro,
dengo do meu próprio calor.
Gymnopedie nº1 tocando em looping,
que o resto o corpo rejeita.
Nem tenho forças pra esta caneta
(quanto mais mexo, menos se ajeita)
terça-feira, 21 de março de 2023
NÃO TEM DIA
A poesia não tem dia.
A poesia fulgurante,
ou a poesia insípida.
A poesia já não será
como antes acontecia.
À margem das efemérides
e das coisas conhecidas.
A poesia que se gritava,
a poesia que se cifrava
a poesia que arrefecia.
A poesia soturna,
a poesia noturna.
A poesia não tem dia.