Aquilo já não era
o que ainda se ama
nem peixes
nem escamas
nem imensidão oceânica.
No aquário
a luz e a luta
são mecânicas.
Aquilo já não era
o que ainda se ama
nem peixes
nem escamas
nem imensidão oceânica.
No aquário
a luz e a luta
são mecânicas.
Estou sozinho nesta sala.
Nada me impele.
Nada me cala.
A liberdade chegar a dar-me
a impressão de asas.
E ainda o voo solitário parece invasão.
Ninguém pode ser, sozinho,
dono de uma imensidão.
Por isso existe o eco
e o vácuo é só impressão.
Nada valem as horas que não terei
pelas que desperdicei.
Nada vale o tempo que não será.
Em seu âmbito nada se opera.
O seu âmago é o avesso da espera.
Querer é uma certeza bruta
que sabe ser delicada.
Quem não sabe o que quer
não quer nada.
Talvez queira querer,
queira saber o que é isso;
que é algo que não se transmite,
nem ao saudável nem ao enfermiço.
Não se decide estar arrebatado.
Quem sabe o contrário disso
pode certamente saber-se errado.
Pode haver abertura,
mas também se abrem buracos
(e a própria sepultura).
Primeiro se é tomado.
Depois a tessitura.
Amar é a inflamada
incandescência da ternura.
Mas o amor não é teorizado
(é experiência pura).
Não minto para você,
mas você ouve as mentiras que me conto.
Jamais demandaria altares
nem toleraria ser o último ponto.
Se essa verdade me desfavorece,
é nessa verdade que me reencontro.
E reunido a mim trafego melhor,
e se incandesço me vejo brilhar.
E a noite é sempre a infinita
noite em que você nunca está.
Acabou janeiro, sem pedidos de prorrogação.
E muitos até lamentavam a sua extensão.
Ô mês quente!
Tão quente que impulsiona.
E de modorra
(tanta que estanca).
O céu desaba obrigado pela estação.
O céu desaba porque não é habitação.
Há quem veja em janeiro o posfácio do Natal.
Também há quem veja nele o prelúdio do carnaval.
Neste ano não tem função:
o carnaval é em março, e o prelúdio, em fevereiro.
Restou-lhe ser interlúdio
(passageiro).
Navios naufragam e o mar segue lindo.
E os portos não ficam mais interessantes por isso.
Os portos são o necessário abrigo,
o refazimento.
Sua excitação mora na espera.
Dos portos se parte.
Esses ventos favoráveis ainda nos levam a Marte;
nos levam a Vênus.
Praza a Deus que os portos não nos faltem,
nem neles nos demoremos.
Nenhum medo pode ser tão grande
que faça o mundo pequeno.
Quem tem medo da própria altura não cai.
E não cai porque rasteja.
Não vê a copa que viceja
e nem por isso vê raiz.
Quem tem medo da própria altura
decretrou que será infeliz.
Não consegue porque não tenta.
Não soluciona porque não inventa.
Quem tem medo da própria altura
está em prisão de insegurança máxima.
Confunde coragem com empáfia.
Não procura e tampouco acha.
Falta entender-se e estender-se.
Conquistar a dimensão, habitar essa altura.
Uma voz que o repercuta.
(É preciso esse pouco de loucura).
Cai a noite na razão
e o dia não raia sobre o juízo.
Nada parece sob controle
neste mecanismo.
A madrugada não é alta
nem se rebaixa.
Tudo é solto nesta engrenagem
(como se feita de graxa).
Os olhos não veem,
mas parecem ouvir.
Como se fossem de lá,
embora estejam aqui.
Nada se remete,
nem há quem o receba.
Como se não houvesse em mim
quem o perceba.
São coisas de sonho,
mas sem categorias de inconsciente.
Nada se entende
(mas tudo se sente).
Mundos colidem.
E se colidem, explodem.
E se explodem, há luz?
Quero luz.
Tenho luz nos olhos.
Que sejam bons!
Meus olhos estão com você.
Deles vejo a paisagem,
e é por eles também que se entra.
Não digo porque os brilho:
Você está convidada.
Não sou vampiro de capa
e me antecipo ao convite pressentido.
Eis que estou à porta e bato;
sou esse outro senhor.
Esta vida não pode ser eterna,
mas pode ser eterno o amor.
É o que de melhor se pode fazer dela:
Bela!...e de amor.