terça-feira, 20 de outubro de 2015

LÁGRIMA

Abri os braços
na imensidão azul algodoada.
Não sei que vento me levava,
se o que soprou Deus,
se o que o homem fiz.

Abri os braços,
eu era um abraço.
Ela não quis...

Eu era um beijo,
um peito aberto,
um olhar sempiterno.
Ela não quis...

Sou rosto,
sou sal e água,
sou escorrendo

sou lágrima!


SCL-GRU, 16/10/15

domingo, 18 de outubro de 2015

JUSTO EU

A roupa com que me veste o mundo
não foi feita sob medida.
A costureira mal me conhece
e já está de mim esquecida.

Estou todo desajustado,
vê-se que não fui feito a mão.
E que ajustes, neste mundo,
são matéria de ilusão.


Santiago, 8/10/15.

sábado, 17 de outubro de 2015

SANTIAGO

Santiago, já te trago
insculpida na memória.
Tanta gente transitando
e a cordilheira nem nota.


Elas sabem
(está nos registros)

que nos liberta uma Alameda.
Mesmo que as árvores de então
não sejam coisa que se veja.

Santiago, tanto tumulto
diferente das ruas sangrentas
cantadas por Milanés,

publicadas em nossa imprensa.

Ouve-se um eco da voz

esperançosa de Allende,
a mesma esperança vermelha 
que meu peito ainda acende.

Mas errantes são os mesmos,
haja salvadores ou reis.
Vou errar de novo em minha terra,

mas jamais te esquecerei.


Santiago, 15/10/15.

domingo, 11 de outubro de 2015

FALTA

Se ela soubesse
a falta que ela me faz, 
não me fazia.


Santiago, 11/10/15.

domingo, 4 de outubro de 2015

FIGURAS

Dizem que não importam as palavras,
apenas atitudes e gestos.
Não sei se concordo com isso, 
caiu-me meio indigesto.

Não adianta cantar alegrias
e fazer na vida triste figura,
mas a palavra alivia
muita dura contratura.

E sempre podemos proferir
e depois preferir o que dissemos.
E assim fazemos melhor figura
enquanto vagando no plano terreno.

Melhor figura na essência,
aqui não se trata de pose.
Então o digo bonito:
encha a alma de flores!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

DESBERNARDO

Eu converso com o Pessoa
todos os dias de manhã.
Eu também sofro desassossegos,
e sabê-lo não é coisa vã.

Ele me diz, às vezes,
coisas bem tristes,
mas minha alegria resiste,
quando é tempo de se instaurar.

E quando ela não existe
gosto de saber dos tristes
como o que nele há.

Não concorda que consola
saber que não é o dono da bola
no jogo da inquietude?
Vendo como portou-se o outro
posso mudar minha atitude.

(e dependendo de como me porto
é bom propósito que eu mude)

Eu não tenho receio,
me pego no enleio,
e leio toda a manhã.

Às vezes sinto consumir-me uma febre
que o Jobim não descreve,
a tal febre terçã.

Tá tudo tão bem colocado,
o mundo explanado
com tanta beleza!

Não há só belezas alegres,
sabe-o bem quem escreve:
há "tintas da melancolia".

Nem só da "pena da galhofa" se vive.
Aliás, alegria ensaiada deprime,
porque comprime o meu desdobrar-me.

Não importa no que a vibração consiste,
hoje é "fixe" declarar-me.
Talvez fixe o achasse o Pessoa
se vivesse no mundo de hoje.

Mas vivendo pulsante,
experimentante,
e não como então ele pôde.

Como pôde ainda pode:
existido escrito,
remédio ou combustível
para a minha aflição.

E vou aprender com seu erro,
que também vivo o desmantelo,
mas dou carne à encarnação.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CABO FRIO

Cabo Frio,
eu já me fio
em que tu também me amas!

Eu já amo a gaivota,
nas voltas que sempre adorei.
Se molho os pés ganho a costa
de um estrangeiro em que sempre fui rei.

200 milhas, 
não me humilhem!
Eu as desconhecerei.

"Tanto céu e mar num beijo azul"
que ouvira cantada e agora eu sei.
Cabo Frio, nem pelas costas
tu apostes que te esquecerei.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

PEDACINHO DE PAPEL

Que desfaçatez!
Ela disfarça a tez
de alva em clara.

(ou a disfarça em morena,
se há tempo de ir à praia)

E o marido tampando o umbigo
com o chapéu que não vem a nada,
disfarça-lhe a calva!

Que casal mais esquisito!
Devem ser de outro planeta,
e astronautas!

Queria invetar a estória,
mas deu-se o ocaso,
e falta pauta!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

SERVENTIAS

É descendo a escada que se torce o pé,
mas quem vive só de subidas?
Quem só deseja ascendências
desconhece a substância da vida.

Quem quer só sombra e água fresca
não sabe, acho, que empobrece
vivendo sem a vitamina
D, que o Sol lhe fornece.

E a falta que faz a água,
em rota de ebulição,
pra fazer a alegria do banho,
no frio, até que venha o roupão.

Quem quer viver sem chuva
duvido que se hidrata,
e talvez não se dê conta
de que a falta de água o mata!

A dualidade está instalada,
e, pra gente inconformada,
a velha porta da rua
ainda é a serventia da casa!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

EM TRÂNSITO

Ela diz "há lento",
e esse lento sou eu.
À lentidão sou propenso,
é como um fomento a minha duração.

Não vejo motivos pra pressa,
as peças serão as que estão.
Não vejo motivo pra pressa
nem preciso dela para a imperfeição.

Os dias também "correm lentos",
contraditória expressão,
como é também contraditório
este transitório coração.