sábado, 23 de fevereiro de 2013

O despronome



Trafico meu coração,
inclemente.
Perde quem compra,
perde o que vende.

Perde quem tende
a o procurar;
perde quem o entende,
por o declarar.

Fechado mistério,
não há o aclarar:
sou bala perdida
em quem me achar!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Amor em esperanto




Triste destino, de muita dor,
viver sempre a véspera do amor!

Duro caminho, de mau augúrio,
deixá-lo sempre para o futuro!

Não há claros tempos, não há bonança,
em relegá-lo à esperança!

Vive agora o amor, que o tempo tarda!
E que a alegria lhe arda!

De que me adianta soprar este canto?
O amor só sabe falar esperanto!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Louca



Querer-se a vida do outro
é coisa que me dá calafrios!
É um estranho errar-se afora
desejando-se feitiços!

Cada um que se enfeitice!
Que se enfeite, que
o fogo da vida atice!
No jogo só há campeões,
não se admitem vices!

Chorar-se alto na noite
sem que ninguém a ouvisse
foi o ardil encontrado
pra que em outra se visse.

E vendo-se assim tão outra,
vagando na noite, solta,
convenceu-se sem remédio
de que era mesmo uma louca!

E foi-se, livrando-se...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Gangorra





Do amor só se diz o sincero
dizendo-se o irado ou o terno.
Depende do lado da gangorra:
de um lado ela é jardim,
do outro, masmorra!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Outro Açoite


No meio da noite o açoite
de uma vontade de ser pleno!
Mas como obtê-lo jungido ao plano terreno?

Quero vivências sem portas,
existir-me em outras órbitas!
Roubar com Rita os anéis de Saturno;
deixar de mim o que houver soturno.

A sorte surge, é saber aproveitá-la!
Que me surja na forma
de passagens compradas!

As férias me trazem as horas vagas,
e é melhor invadi-las do que entorná-las!
O tempo, esse escorre lento;
esculpi-lo, orná-lo, difícil talento!

Derrotados os que não assumem a intenção
de conduzi-lo a prazeres, pegando-lhe a mão!

Despeço-me agora, que já se faz tarde!
E exercito a esperança, 
que o fogo me arde!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poeira



Sou poeira que gruda a janela
pela face de dentro.
Não adianta querer me alijar,
é inútil tão nobre intento!

Um vampiro não cessa a porfia,
abertas as portas da casa,
é companhia pra vida!

Vampiro em sentido inverso:
a alegria que emana de mim
acha-te sem recesso...

Não sou, portanto, abcesso;
tua tristeza não me extirpa!
Consente em que sempre eu esteja,
far-se-á alegria excessiva!

Deixo-te com este recado:
manda cessar o réquiem 
e terás alegria que ninguém
poderia ter provocado!






"...mas nada disso importa,
    vou abrir a porta
    pra você entrar..."

sábado, 2 de fevereiro de 2013

De-Solado


Vi, numa noite torta,
sair do meu país a moça,
fechando atrás de si a porta.
Faço estandarte da tristeza,
que nem nota!

Nota a mim de despejo;
morto, despojado do desejo,
saio pela rua sem norte,
a ver se me toca a sorte.
A sorte sei que não me socorre;
o azar pode ser que adorne.

O azar de quem erra e não dorme,
aflito da moça calada,
a antes tão desejada.
Deixa-me a alma inflamada;
é a deixa: não há nada!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Flecha Preta



O brando Zéfiro, 
matéria imaterial a outros poetas tão cara,
afaga-me na tarde sem fechar-me as chagas.

Onde achou o ciúme lança 
que pudesse empunhar tão firme?
Não acho ciência ou devaneios
que o determinem.

Arrombam-me a tarde
canhões de arrufo e,
absorto, vejo-a encerrar-se
em soluços...

                    ...água e sal.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Da 241 (um chamado)



Se tivesse mais do que me revestir,
revestia-me!
Mas só tenho a tarde...
(e enfastia-me!)

Vendo a chuva cair adivinho,
no Rio, o estio!
Por que só mandar-me a chuva
estando por lá o que mais aprecio?!

Manda-me, Rio, a moça!
Não vês que é o envio correto
pra não ser mais a tarde tão insossa?!

É inútil demandar!
A Maravilhosa é-me surda às exigências!
Pouco lhe importa a tristeza!
Pouco lhe importa a carência!

Mas e se mais firmo a voz,
e faço soá-la em urgência?
Não me fio do resultado,
mas a alegria compensa:

Pois agora, moça! Agora!