quinta-feira, 7 de abril de 2022

GENUFLEXO

O que nos diziam
era que não sabiam
do que vinham feitos.

Como se ignorá-lo
fosse, de todos,
o pior defeito.

Mas o que me contristava
era que se desperdiçava
o real proveito:

o de perceber o reflexo
e se postar, genxuflexo,
diante do (que é) Perfeito.

quarta-feira, 16 de março de 2022

EXTRAÇÃO

Onde estivemos à noite?
Quem nos trouxe?
A noite é passada.
O Sol, mais que destrui-la,
veio depurá-la.

Nada há que da Luz se esconda.
A luz é sempre percebida.
A luz é como a onda,
que surge e desaparece mar.

A luz não se pode evitar.
Para fugir à luz só fechando os olhos.
Para fugir à luz só ignorando o mundo corpóreo.

Mas nem assim.
Se me distraio um pouco da matéria
posso fazer luz em mim.

Olhar para dentro.
Pesquisar com coragem o passado
que antes me tinha detento.

Vem outra noite,
e nela mergulharei outro.
Se soube aproveitar o dia.
Se fiz o sacrifício.
Se realizei a pesquisa.

Se encarei meu percalço.
Meu vício.
Meu porém.
Se pude procurar em mim
a forma de ir além.

Realizar a altura a que sempre estive destinado.
A desenvoltura tão leve que parecerei alado.

Não se trata bem de pressa,
mas é preciso dar mais um passo.
Vamos, que o tempo espera,
mas não conhece retardo.

Há misericórdia infinita,
mas inexiste distração.
O diamante já dentro nos brilha;
o trabalho é de extração.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

DEU A HORA

Toda arte que me toca me abraça.
Digo-o de coração!
(sem chalaça...)

A Arte que excele me excede a resistência.
E me parece um processo óbvio
(do que dispensa ciência).

Coisas que muito se sentem
e muitos querem é entender.
Matam a flor em botão
(como dá pra perceber...)

Escandir, enumerar,
ou outra fórmula qualquer.
Prefiro a inspiração legítima
ao que o fórceps trouxer. 

"Ora, ora.."
Ora nada!,
que só ora quem quiser.

Sem querer enfada!
Genuflexo sem fé.
Bainha sem espada.

A madrugada vai alta,
e eu nem tanto assim.
E o mais do que me vier
melhor guardá-lo pra mim. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

VIVE (k.22:2.Andante)

O tolo pensa ter direito a ser feliz
pelo fato simples de ter nascido.
A felicidade (desconfio)
é preciso tê-la merecido.

Há tempo para merecê-la.
Escolhas, boas e más,
esperam quem possa fazê-las.

Invista em meditar
o tempo gasto em reclamação.
É desperdício o mumúrio e,
mais que isso, prisão.

Te ergue.
Fita o horizonte.
A felicidade existe
(e não existe tão longe).

Mas é preciso caminhar
(muito) para que apareça.
É preciso caminhar sem medo
de que antes de vista feneça.

Portas a centelha.
Foi-te dada já de saída.
Sabe que o medo de buscá-la
é o próprio medo da vida. 

Do medo nada brota.
O medo é o féretro.
Só com coragem e força
se pode vencer o tédio.

Levanta.
Anda.
Desata-te
e vai.

E nunca estará sozinho
o que sabe ser filho do Pai.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

CORDIAL

O coração tem razões
e as arrasa.
O coração despeja quem quer
de sua casa.

O coração não tem de suas
só cavidades.
O coração é que tem vontades.

Quem muito pensa
não pensa
que é o coração quem sabe.

O coração tem cor.
Tem oração.
Tem profundidades.

Pulsa codiforme minha vontade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

DESBANIMENTO (Versailles)

Nem tudo assombra que volta.
Olhe ao seu redor!
(E olhara a sua volta...)

A Lua se vai e retorna.
A ausência do Sol bem pouco se nota.

Se morde.
Se assopra.
Às notas sucedem pausas.

"O passado ainda está acontecendo".
À porta do museu. Cimento.
Aquele mestre já não soube seu talento.
Foi um faminto a quem nenhum cabedal se destinava.

Agora adivinha o passo seguinte
(da estrada).
Um passo!
E já me basta.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

UMA VEZ MAIS

Muda-se tudo o que não se muda de plano.
Ou até mudar-se.
O plano era mesmo esse. 
(era de esperar-se).

Muda o mudo
e o que precisa falar-se.
Muda-se muito
do muito falhar-se.

Do já não se achar
que o mundo que se emendasse.
Ou que a culpa segue sendo dos outros.

Do já não se pensar em círculos,
ao ponto de ficar louco.
O que é bom é circular.
Outros tempos pra viver.

(não pra só esperar).

Tudo bem
visto
pensado
vivido
Melhorado.

Os anos me ultrapassam
sem deixar-me pra trás.
Os anos me jogam ao alto
(nada é tão fugaz)

E não é vão.
Viver não fica.
Viver é impulsão.

A evolução é lei.
Já vou trabalhar agora.
Pra depois trabalhar
outra vez!

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

OVER(ALL)

Sonhava.
Nada era como o cinema ditava. 
Nada ali se ostentava.
Nem se podia reproduzir.

Oníricos só a sala escura,
e uma certa aparência de fumaça.
Espécie de inconsciência
que assim se projetava.

Queria nada disso.
(nem daquilo)
Escapava-se,
espantadiço.

Queria apenas um sono sem sonhos
em que o mundo se supendesse.
Em que tudo deixasse de acontecer
(ou pelo menos não percebesse).

A vantagem grande de um vácuo
em que nem se envelhecesse.
Em que nem o mais belo violino se atrevesse.
Nem passarinhos.
(Nenhum deleite).

O avesso de tudo o que se aproveite.
Tanto faz se antecâmara do prólogo,
se contracapa em tapa ao epílogo.
Só o que quero estar...

é tranquilo!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

EXPERTO QUEM?

 Então disse a seu irmão:

- A ser esperto melhor ser bom!

Mas seu irmão não o entendeu.

(Era esperto demais pra isso!)