A noite se dá espontânea.
É tão natural quanto é momentânea.
Erra o olho que lhe vê trevas.
A noite está descoberta.
Há estrelas.
Estão mortas algumas,
mas o brilho nos alcança
(como o do Sol, pela Lua).
A noite mais escura
é a que mais se habilita a ser cintilante.
Só o que não entendo
é não o ter visto antes.
domingo, 17 de setembro de 2023
SE ATREVA
sábado, 16 de setembro de 2023
DE ONDE?
Penso em você, pela proposta mesmo de não pensar,
de não penar, de não dar pena.
Penso em você e a imagem é plena.
Nada deve a sua figura sob o sol,
a seu rosto resplandecente, fulgurante.
Penso em você e a vida perde outro instante.
Mas esse instante é o motivo
(embora o professor não o divisasse...)
Ah, se meu coração se desse novos ares,
respirasse, partisse de novo em viagem.
Ah, quem me dera!
Mas é ancorado na saudade;
saudade, que é melhor que mágoa.
A saudade às vezes se reparte,
interage, cria.
A saudade pulsa, mas não pode ser minha guia.
O cego (mesmo o por escolha)guia-o melhor um cão,
fiel na indigência como na abastança.
Fiel em moto-contínuo, que nunca se cansa.
Sim, cão-guia é melhor, mas adotei um gato.
Enxergo o melhor que posso,
e esses são os fatos.
"Esse papo meu tá qualquer coisa
e você tá pra lá de Teerã..."
sábado, 9 de setembro de 2023
FICA SABENDO
A morte não doi.
Já morri milhares de vezes e não me lembro.
O medo da morte não mata, mas impede de viver.
A volúpia de viver não ressuscita.
O tempo não volta.
Nada se desfaz.
E não há nada natural em se tentar o frankenstein.
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
HÁ SETE VIDAS
Sempre que me banho, minha gata se posta
diante da porta aberta do banheiro
e contempla o que lhe parece coragem.
Ela sabe que criança eu fui.
Ela me acha um sucesso,
e eu aspiro à sua perfeição.
domingo, 9 de julho de 2023
JUST NAU
Mareado sem barco nem passeio,
atravesso este dia inteiro,
que poderia ser apenas uma hora
(ou o tempo de um recreio de escola).
Nauseado,
cogitabundo;
sinto-me mal em mim
e intruso no mundo.
Quisera tudo limpar (há água).
Expugir os pensamentos,
os ressentimentos,
as mágoas.
Quem dera ser filtrado,
decantado da aflição.
Quem dera estar deitado,
distraído em ilusão.
sábado, 24 de junho de 2023
PAUSA DE MIL COMPASSOS
Desce agora o pano
como sobre qualquer carnaval.
E recolhe-se o dos confetes
(a quarta-feira é fatal...).
Viveu bem o Pierrot-Arlequim?
Viveu bem a Colombina.
E mesmo aos que não (se) viveram:
Bem-vindos de volta à sina.
sábado, 10 de junho de 2023
PLAYLIST
De um lado um denuncia dores que ninguém nunca sentiu.
Do outro um pede socorro por não sentir nada.
O problema do mundo é o egosímo.
Essa é a grande chaga!
Se as dores se somassem e dividessem,
nem muitas,
nem nada!
quinta-feira, 8 de junho de 2023
MUDA
Ela escreve o meu nome sem ternura.
Ela me esquce, a minha namorada muda.
A minha namorada muda.
Toda notícia é boa.
Vale muito o que se sente
e mais um sentimento que se entoa.
O sentimento declamado participa
o que se saiba, o que se viva.
E do que se sabe e vive extrai-se
o que possa ser poesia.
O que se tem a ensinar,
com o que se tem de viver.
Conviver é que é amar
(e amar não é esquecer).
Caro Torquato,
é preciso não dar comida aos urubus.
Não sponte propria; aos urubus
só à minha revelia a glória.
Vou desinfestar o céu
para fazer-lhe festa.
A minha alegria esta à espreita
(e tenho alegria... à beça!)
quinta-feira, 1 de junho de 2023
VENTANAS
A vida tem portas e janelas
muito mais abertas que se pensa
(ou que se mostram).
Janelas estreitas e largas,
como há gente estreita e larga.
Janelas baixas e altas
(mas nenhuma gente tem asas).
Outras portas parecem travadas,
e já ninguém lembra para que se atravessam.
Ou estão mesmo emperradas,
e só arrombadas se revelam.
Há janelas de correr.
e janelas de empurrar.
Há janelas por que descer
(se o desespero o solicitar).
Não há janelas, se altas, por que subir.
É muito mais fácil cair do que seria escalar.
É então impossível a invadir
aos que somos fáceis de defenestrar.