segunda-feira, 7 de maio de 2018

COMBUSTO

Quero ser ribeirinho.
Quero ser marítimo.
Quero mas sou terrestre
(não tenho outro tino).


Talvez mesmo nem a terra,
que me sinto desterrado.
Não sei se sou solar
ou se sou ensolarado.

Mas sei que queima.
Sei que ardo.
Sei que ilumino de longe,
mas de perto sou incendiário.

Contente-se com ver à distância
a variação, no durar do dia,
dos matizes com que me coloro
para à noite ter alforria.

Abandonar-te completamente,
inversar-me como em translação.
Fazendo-a sentir-se fixa,
o que é uma pura ilusão.

Então aceite que sou pra ti
o que sou pra todo o resto:
um lume tolo mas feliz
que se acende através do verso.


Cabedelo, 2/6/2017.

domingo, 6 de maio de 2018

A SORTE DA FORÇA

Tenho a sensibilidade por algo tão nobre
que confessá-la seria elogiar-me.

(Elogio em boca própria é vitupério!..)

Oops!
Leonino império!

(Mas dei a sorte da força).

ATÉ LÁ!

Sempre há o dia em que a Lira cansa.
Até lá vou viver de esperança.

De lá,
de lembrança.

MAR-ME EM SINA

Eu e o mar já ficamos
muito e por toda a parte.
Acanhados,
olhares de soslaio,
e eu pensando em piscinas.

Aqui,
dois dias de namoro,
pau duro,
olhos nos olhos,
já fui logo pensando em casório.

Dizendo:
"Mar, me ensina!"

sábado, 5 de maio de 2018

UM NORTE

Na orla de Cabo Branco não se perde o Nord,
que por todo lado se demarca,
demarca-se em rede.

Não é rede que se leve à praia,
não é rede para peixes.
Apenas turistas se apanham.
Apenas turistas num apanhado
que não se permite ser traçado.

(Nem um traço de audiência
de um loiro de outro lado)

Uma variedade tanta
que não é variedade nenhuma.
Tanta gente sempre a mesma
quando a terra não é sua.

Um misto alvoroçado
entre alerta e displicência.
O homem é um bicho tão estranho
que nunca o explicou a ciência.

Ou só seu endo-funcionamento,
que é aquilo que se vê.
Não é um belo bicho esquisito?
O que não se enxerga é o que se pode entender.

Já eu digo que me enxergo,
dia-a-dia cada vez mais.
Eu também renuncio às teorias
e só quero viver em paz!



João Pessoa, 31/5/2017.

UMA SIMPLES CHUVA

Gosto de chuva
se estou ao abrigo 
e não me frustra planos.

Não gosto se me obriga,
se sou pântano.

Se em profundezas me imerge 
de que nada quero saber.
Duas faculdades e a intenção de terceira
pra saber que é simples conceber.

Tudo é o o desejo
e o que lhe permitimos.
Tudo é o desejo
e o que fazemos disso.

Os campos são a fruição
ou o percalço que nos separa da meta.
Ao que ando no agora e feliz 
ela é o acidente da festa.

Recreio-me pelo caminho em que me lancei,
escolho a alegria de marchar,
mas nunca é dado o que obterei.

É o que se chama conquista!

Não é tão complexo,
mas é uma coisa mista:
Amor e merecimento.

Podem chamar-me simplista!


30/5/2017

sexta-feira, 4 de maio de 2018

FREEDA

Quando Fridas 
Eu me calo
Num bonito intervalo
Teu sorriso vale um mando

Como eu que tanto me nado
Me passeio nesse não-largo
É outro mistério profano.

INVERSOS

Fique à vontade,
ou fique a vontade por seu lastro,
garantia da circulação de nada.
E de que valeu-me afeitar-me a navalha?

Foi uma vaidade descarada.
Um limpeza que não limpa nada.
Os resíduos são o lume que se vê ao longe.
Nada do que não se declara se esconde.

Toda luz quer brilhar-se,
mesmo a do fraco,
que só pensa em queimar-se.

Prefere o falso conforto
de não ver um palmo adiante.
Pouco se dá conta
de que nada o garante.

Porque o medo,
assim como a coragem,seu reverso,
é uma espécie de lanterna
que se irradia sobre o que se projeta.

(O que se teme
ou o que se peça).

Pouco se me dá chão ou teto!
Tome e guarde a face,
eu me liberto no verso!



João Pessoa, 30/5/2017.

terça-feira, 1 de maio de 2018

CONSENTIR

A mão recolhida.
A tinta derramada sobre a mesa.
O mata-borrão não faz nada
por pura falta de destreza.

Escrever pra quê?
A boca só diz asperezas...
Nesta espécie de estação
é melhor que a mão não se atreva.

Pra que dar-se à expressão
de uma aflição tão canhestra?
O susto é infenso à solução;
solução exige leveza.

Traz a vida seu nó górdio,
não há proveito em fingir desatá-lo.
Nada desata o ódio,
se há o que finge desbaratá-lo. 

Há quem veja suavidade no mar.
Há quem só o veja arrebentar-se.
Quem o procure pra esconder-se a chorar,
quem vá a ele desanuviar-se.

Chovam as nuvens escuras!
Dissipem-se do que são.
Novo sol, outras nuvens,
com feitio de algodão.

Dadas a se verem nelas
todas as formas de interpretação.
Monstros de muitos pés,
cavalheiro em alazão.

O Bem e o mal em tudo.
A balança é de precisão.
É vital que se reconciliem
o espírito e a razão.

APARENTE

"A curiosidade vergonhosa de um vício".
Sentia-a desde o início.
Intercalava-o com o atrevimento.
Uma ideia bipolar
do que seja o contentamento.

Do que seja só sua trajetória,
frustra,
de rotatória em rotatória.
Sempre o mesmo pedaço de estrada.
(O mesmo que não leva a nada...)

Não se pode melhorá-la
se não cumpre seu fim,
qual seja
trazê-la a mim.

Estranha escolha,
acompanhar-se de carros de só potência.
Um pode ser que a recolha.
Prefere-o à indecência.

Despir-se do que não traja
é uma impossível indigência.
As metáforas se acumulam e a garganta me trava.
Já nada digo,
que não posso vestir a mortalha.