domingo, 1 de novembro de 2026

A VÉSPERA

Na véspera da morte
sem aviso
planejei o dia seguinte

sem alarde
sem requinte
sem pretensão

meus livros, minhas notas, minha escrituração

fiz minha refeição numa confeitaria
cujos fundadores há muito desapareceram

faria exames e marcaria o médico
que os examinaria

em casa, tarde,
um conto sobre algo que nunca poderia ter vivido
insipirou-me versos que pareciam trair o que sinto sobre essa não experiência

encontrei um sujeito que se espantou de algo em mim
talvez das roupas, talvez da pele

não de eu estar vivo
ainda não
(era cedo para isso)

e se ele soubesse que cemitério algum me abrigaria?
nem se me quisessem o São João Batista, o da Recoleta, o Père-Lachaise

que nem têm por quê
nem vivo me visitavam
ou me interpretavam
(não bem, em todo caso...)

 e, de mais a mais, sempre fui inflamado
pois vou inflamado

tem alguma ironia
eu sempre à francesa
eu que nunca me despedia
ora, se eu soubesse...

fazia que não sabia