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quinta-feira, 20 de junho de 2013

MALDIÇÕES

 

Tenho uma paixão da palavra,
cantada ou versada,
que minha vida, eu sei,
não irá suprir.

Talvez eu já tenha errado
estas ruas alguma vez,
e a poesia já fosse tanta,
já fosse trova, estorva.

Tentar subtrair à vida sua essência
até Sua Excelência
dela me subtrair.

E a que adições me lanço
se as somas que assomam
não aumentam meu quinhão?

Não, ao menos,
quinhão que importe.
O quinhão que, tendo eu menos,
do coração, sem pausa, sorve.

Lei da reação, apanham
quando batem os corações.
E fazendo eu seu apanhado,
saindo ainda atordoado,
não me alcançam

maldições.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

META FÍSICO



A palavra grafada
me lança numa comoção!
Mais do que à falada,
dou-lhe laivos de religião.

Não há seita,
mas há, contudo, fiéis.
E é de simples receita:
lápis, canetas, papéis.

Tampouco há sacerdotes,
ministros de qualquer jaez;
embora haja, de porte,
artífices do português.

Não há relíquias,
nem se dão espórtulas.
É transpiração líquida
e mãos à obra!

sábado, 25 de maio de 2013

JACTÂNCIA



Minha poesia é jactância,
não conheço outras instâncias,
ou procedimentos diversos.

Só sei fazê-la com constância,
e o que a pena lança,
lança sem recesso.

E a pena é lápis, caneta,
e não há bebês de proveta,
nasce do amor pro papel.

sábado, 4 de agosto de 2012

Tinteiro



                                                                                                                        É preciso estar atento e forte.
                                                                                                                       Não temos tempo  de temer a morte.
Não há tempo
de fingir-se a  vida.
O perigo assoma e
nos arromba; ferida.


Baldado o esforço
de proteger-se;
os caminhos se cruzando,
é perder-se!


Sei do conforto de casa,
como sei!
Mas mais cresce (é da Lei!)
o que à estrada se larga!


Não se tema a solidão,
se for a condição andar sozinho.
Seguir picada pronta é vão!
Dê-se asas! Ao caminho!


A vida me suja,
me lanço ao chuveiro.
A tinta recolho,
alimento o tinteiro.


Corpo e alma limpos,
mergulho-lhe a pena.
E a alma, vertida,
só assim se faz plena.




(147)

sábado, 28 de julho de 2012

Copas Subterrâneas


Queria folga.
Preciso inspiração.
Mas o trabalho assoma,
inundação.


Sei! Eu sei, Minas,
Beagá é o lugar!
Mas, ossos do ofício,
tenho andado Sabará.


Tudo cheira a mofo.
O gatilho soçobra.
Só sombra de alvoroço.
Liberdade 'inda demora.


Igrejas esquecidas,
arrefecido turismo.
Fé esmaecida, 
presente sem futurismo.


Aqui tudo é pretérito,
apetite esquálido.
Na maternidade não se dá à luz.


O vento não infla.
A pluma não apruma.
Lugar em que só se plantam
tumbas.


Fogo fátuo.
Falta de ar.
Raízes sem terra:
Sabará!




(146)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Apenado



Ai, Carlos!
Ai, Drummond!
Se ao menos eu te seguisse a lição,
e pelo caminho deixasse
os versos que ali vão,
sem volição ou remissão!


Que mania a de salvador!
Que atração pelo caído!
É que serve à expressão da dor
o verso (como o poeta) combalido!


E se não os posso harmonizar,
não penetrasse o reino das palavras!
E deixasse estar em dicionário
o que, extraído, não me extirpa 
o "solitário".


Mas a pena, parece,
foi-me imposta.
E não parecer haver juiz que possa
dar indulto, perdão, alforria;
ou prestidigitador que mova
a dor em alegria.


O que aceito é minha condição.
E, executada, nem me dou à escansão.
Não conto versos
ou metrifico o que desponta, 
que torturados não se prestam contas!




(56)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Campos Abranjo


Não há como, na vida,
aproveitar as cabeçadas de outros,
que me vão passando seus chapéus?


Se também minhas cabeçadas,
humildemente e contanto que queiram,
vão servir a outros, e talvez até
melhor pro que de nada serve!?


Vévi, dotô,
a dor na pele!
E escreve o de chorar ou de rir!


O campônio,
não leia ainda o que escreves,
vale-lhe, ainda é-lhe graça,
haja sensíveis!


E que errem!






(58)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

In verso


Já me é tão difícil
A esta altura
Quando da escrita me inverso!


Como me dói!
E dói-me a fundo!


Ter de avaliar o verso...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Palavra! (Ok, nevermind!)


Todos pensamos palavras
Ideias não têm outro esteio
Mas tenho em conta que é mais corrente
Pensarem bem mais em dinheiro!


Por que por dinheiro labuto
Se de palavras me  nutro?
Se facilmente percebo
Que lhes dou melhor emprego?


Nunca financiei, estou certo
A felicidade alheia
Mas por palavras prefiro
Que haja quem me bem-queira!


É com palavras que invisto
Contra alguma tristeza
E com elas travisto
O que deparo de beleza!


São palavras que mais rendem
Se com palavras as rendo!
Mesmo se (tenho notado)
Às vezes me arrependo...

As palavras são lucro certo!

Capitais pro coração!
E com elas dou-me ao sestro

De crescê-las em orações!


Palavras, frases, parágrafos!
Textos, coletâneas!
Tanta letra misturando
Minha vida em miscelânea!


Palavra que me detenho!
Palavra que o tempo urge!
E que não desperdiço seu tempo
Palavreando o que me aturde!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Do Cantão (Quem me aviso amigo sou)



Tente ser poeta!
Tente em vão, pateta!
Não é matéria de opção.


Mas há palavras que o invadem!
E as que não cospe lhe ardem
A lhe inflamarem o coração!


Mas só o que há são meninas
Não há em toda a medicina
O que o livre da aflição.


Então dê-se alívio em pena
Ou senão a alma empena
E já não tem conserto, não!


Desconcertado coração!
Bate desritmado 
Da razão alienado
E o que canta
Canta em vão!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Fia


Trabalha, amigo!
E confia!


Já dizia Hilda Hilst,
reclamando, dedo em riste:
Poesia não dá camisa!


Trabalha!
E confia!


Trabalha, mas não esquece:
Poesia não dá camisa!
Não dá camisa
mas aquece!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Eu Poço


Não peço ser Chico
Não posso ser Gilberto
Não peço ser Pessoa
Nem posso ser Herberto


Só peço
(Poço humilde)
Não me falte o verso

sábado, 16 de junho de 2012

Nogueirículo (poema curto)


             
                                                                                                                             


                                                                                                                                                                                            
                                                                                                                            Meta 1
E por que vai-me ler um estranho
com tanto Pessoa por aí?
E se lerem-no tanto
os distingue
como a ele de mim?


Poema curto e "curto!"
Poema escrito
e entregue já!
Do contrário,
quem mo lerá?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Acostados


                                                                                              
                                                                                                                             Meninos à beira da estrada
                                                                                                                            Escrevem mensagens com lápis de luz


Sou poeta de acostamento.
E quem contesta o contentamento
do da estrada marginal?


Essa estrada que te leva,
mas não te conduz!
Que te apaga em poeira!
Te ceifa a luz!
Te pavimenta a ferida
em pus!


Pus os pés fora da margem
e já me socorre a imagem
de sedutora alegria!
Te acostarás conmigo!