Estou muitas vezes às portas do choro
como se o desconsolo
fosse a porta não se abrir.
Desamparado,
sem aldraba ou maçaneta,
sem campainha
e pior... sem voz!
Quisera lançar um grito atroz,
mas é interdito ao privilegiado.
Quem pode falar sem peias
não pode bradar "socorro!".
Então um pouco me morro,
num paradoxo crepuscular.
E nesse perdido solto
a nada me entrego
(desespero ou outro),
que conheço o sestro da aurora.
Se recolhe,
empurrado o dia,
mas horas depois que o Sol se retira
já é de novo sua hora.
domingo, 3 de janeiro de 2021
INSISTÊNCIA
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
REVER
Os derrotados do parque, por serem tantos, com seus jornais a forrar os bancos, sabem o que é a derrota, não conhecem a solidão. O que os cobre já não cobre as notícias, que são adornos de telas, que surgem subreptícias, mas com brilho regulável.
Eu, triunfante, não conheço pódio. Conheço as podas. A flora que quando vai florescer se acanha, adentra, encasmurra. Meus crimes não posso imputá-los a ninguém. Sou meu próprio refém, carcereiro, habeas corpus. Enquanto outros brandem copos e bridam, brindo-me com tempo para reflexão de uma luz que não é minha. Decerto me ilumina, mas é emprestada a juros, juras.
O filho que eu quero ter eu já tive, minha vida é declive. Não distingue planaltos de planícies. Ao nível do mar ou muito acima o Sol sempre me abrasa, queima, e não extingue o frio. Eu me rio. Sorriso de santo, riso de louco. Nada em mim é pouco! Tudo quer-se explodir.
Quisera espalhar-me em fagulhas. Incendiar a rua de um fogo purificador. Mas este tempo em que nascido macula a pureza. Todo tempo é incerteza. E se é incerto, nada é claro.
Não faz sentido fazer sentido. Basta verter e aliviar-se. E se alguém quiser esforçar-se, o jogo é bom e não dá azar. O que tenho é instrasmissível. Um dia foi falta de siso, ornada de falta de pudor.
Hoje tudo se mistura, a doença e a cura, a lucidez e a ilusão. Mas a desistência a Esperança a sobrepuja. Essa a verdadeira ventura, saber que sempre se pode mais. Daqui nunca se parte sem retorno e toda guerra reviu a paz.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
domingo, 27 de dezembro de 2020
UTOPIA
Para Tom.
Dei chance ao azar
e deu sorte.
De onde eu sou não é tão sul,
pra onde fui não é bem norte.
(Umas zonas intermédias
bem mais vida do que morte).
A vida encerra seu fim,
e seu fim torna-a outra.
São coisas tão metafísicas
que não será da minha boca...
Mas o velho tema do amor ressurge
do âmago de si mesmo.
Brotando de onde havia
ou implantando o desvelo.
Nada como parecia,
e muito bom de todo jeito.
Como toda e qualquer companhia
vai-nos tornando perfeitos.
Aquele destino que nunca chega
mas aponta a direção.
E não passo mesmo disso,
que me falta muito chão.
sábado, 26 de dezembro de 2020
À FRANCESA
Não havia canhões
TÊM MEDO
O medo os alcança, súbito.
Têm medo de dormir
e já não acordar.
Têm medo de, dormindo,
acabarem acordando.
E de tanto medo já não dormem...
E nunca acordam!
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
FOMENTO
Não é sem motivo
o abrigo que te dou.
E nunca te contei
o que seu riso confessou.
Nem temores.
Nem avisos.
Nem nunca um riso frouxo
foi vitrine de algum siso.
O riso é um estandarte plúrimo.
Flâmula da insânia.
Painel da alegria.
(Nem percebeu sua dor
o que morreu porque ria).
Nada de boca às escâncaras,
que num arco se continha.
Mas aqueles olhos num brilho
capaz de acender o dia.
Isso tudo ia eu pensando,
atravessando a pandemia.
E pensando em qualquer plano
que nos adiantasse a vacina.
Mas nem apenas dela se trata
num mundo ainda pejado do mal.
Num país desgovernado
sob um mentecapto, um boçal.
A realidade não tem modos,
não tem respeito pelo sonho.
Nem pelo que sonho acordado
nem pelo que vejo em outro plano.
Mas ao Amor tudo é possível.
(Foi o Amor que falou)
Difícil é disseminá-lo
sob essa espécie de torpor
que é nevoeiro para os homens
mas não chega a iludir o tempo
de nos dedicarmos aos homens,
que só precisam de fomento.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
À TOA
Não domino métodos
mas escrevo versos
(como vivemos sem saber).
Prescindo assim de licença
quando cismo de escrever.
Se a ideia me parece boa, divido,
o que resulta em multiplicar.
E isso me parece bastante
à liberdade de criar.
LUSCÍNIA
Na madrugada,
sem sono,
choro de felicidade.
Choro em louvor da oportunidade.
Inclusive da de saber enxergá-la.
Quem passa pela vida sem vê-la
vela-a, quando deveria criá-la.
Um sol por dia,
e cada posição é única.
Não vale mais a da túnica,
nem a do escritório,
nem a do pincel.
Vale tanto quanto outro
qualquer trabalho sob o céu.
Todos são chance pro autotrabalho
e pro trabalho em prol.
Não canta menos a formiguinha
porque audível o rouxinol.
Onde estão seus ouvidos de ouvir?
Há pernas de ir-se,
pernas de vir.
A oportunidade sagrada da deambulação,
do movimento.
Há chances imperceptíveis
como há chances de portento.
Amigo, eu só aviso:
Não deixe passar o tempo!
sábado, 19 de dezembro de 2020
SÁBADO
mas a pura chuva a deslumbra.
Esconde-se.
Arruma-se.
Não se agasta a gata
mais do que precisa.
É voltar a brisa
e ela já se espalha.
A música é a musa da festa,
que a espia pela freta
de uma pequena grande alegria.
A de também ser leonino
e poder ver nascer o dia