sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

DELÍRIO

Sonhei conosco
e éramos outra gente.
Como num alvoroço
de final de expediente.

Em que se celebra
não se ter o quê nem onde.
Uma minha parte confusa
em que a alegria se esconde.

Ou sou todo confuso
e a alegria uma incerteza.
Nunca terá sido pura.
Nunca terá sido inteira.

Eu tento despertar
mas não possuo essa destreza.
(Quando o sonho é necessário
não se pode virar a mesa).

Não há saída,
nem é lugar de morar.
No sonho a vida é solta,
é de escorrer ou sublimar.

Quando acordo não é que foi nada,
é que foi "apenas".
Os símbolos já não estão lá,
não há nada que me renda.

Nem eu me rendo a nada,
na ilusão de ser livre.
E este sonho, que não lhe contei,
foi igual a outros que tive.

domingo, 6 de dezembro de 2020

ALGO RITMO

 Algo em sua maneira de falar
dispensa acordes
mas a canção soa.

Algo em sua maneira de sorrir
dispensa versos
e  o poema se entoa.

Faz meu coração trabalhar
enquanto fico à toa.

Sou rede,
brisa,
abolição do siso.

Sou uma alegria por dia
mas o dia todo nisso.

Sou Paraíba desde Minas.
Sou fogo
(mesmo depois de cinzas).

Crepito.
Ardo.
E palpito que não tardo
em banhar os pés no mar.

(a devassar a retina o Oceano!)

Imagino que a pandemia é de sabor.
É de cheiros.
Do tato do corpo inteiro!

De gozos misteriosos.
De doces mistérios gozosos.

Mas mais que adivinhar eu faço!

(E deixa a vida consentir
 procê ver se não parto!)



sábado, 5 de dezembro de 2020

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

NICHTS

Fugiu poesia.
Fugiu verso.
Eu agora não falo
o que calado converso.

Bandeira de time
sobre o caixão do poeta.
Prestes à combustão
o que antes fora atleta.

Moro nas asas do tempo,
perto da cara do meu filho.
Nunca sei o que tento.
Apenas sei se consigo.

E os dias escapam
de onde nunca estiveram presos.
Só não escapam nos calabouços,
onde prendem os dedos.

Só a imaginação é forra,
nascida livre e rica.
Faz abrir a cabeça
sobre o coração que palpita.

Há vida há esperança,
mesmo pra parede cinza.
Cores vivas e desrespeitosas
vão derramar-se-lhe em cima.

Eu com minhas cismas, Baleiro:
"Pra que os trilhos se não passa o trem?"
E este poema não diz nada,
que é só o que digo até ano que vem.

domingo, 29 de novembro de 2020

PÃO

Com Cristo conquisto labores
a que jamais me entregaria.
Com Cristo pergunto-me sempre
o que Jesus faria.

Mas não me toca fazê-lo.
Eu já muito me alegraria
se pudesse compreendê-Lo.

Se pudesse alcançá-lo.
Se um dia alcançasse vê-Lo.

A Deus não me revelo.
Conhece-me já.
A Deus os meus projetos
quisera recomendar.

Ou saber que são os Seus.
Saber que os faço Dele.
Assim nunca faria
nada que me comprometesse.

Nada que me pudesse perder.
Apenas larga abundância
do que me fizesse crescer.

Alegra-me vê-Lo dessedentá-los.
A todos os crentes sinceros
que se alegram em acompanhá-Lo.

É o pão e a vinha.
É boníssima nova!
Caminho, verdade e vida!

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

WO?

 Fecha a porta.
Abre a janela.
"Feche a porta,
esqueça o barulho".

Deus entende o mar
e entende o marulho.
Enquanto homem e mulher,
aturdidos, desconhecem o próprio som.

Na esquina de "walk" com "don't walk"
são americanos em Paris em plena Nova York.
Mas as coisas mudam, nem sempre devagar.
York ou Amsterdam às vezes tanto faz!

Até sem saber onde estamos
estamos no lugar certo.
E filtrar nosso som do ruído
é certeza de sucesso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

40 anos no deserto.

 40 anos no deserto
tropeço
na areia por cama.

40 anos no deserto
é decerto
o que a alma reclama.

Tentada
Abrasada
e resistente.

40 anos no deserto
fazem muito (observo)
à gente.

Até que sofrimento e meditação
trazem oásis.
Até que a dor traga suas lições
luminares.

Não pode trazer prejuízos
o alto sol meridiano.
Apagam-se à noite as luzes:
hora de ponderar sobre os planos.

(Não dura mais que um dia
 tudo o que falsificamos).

A areia é muita
mas o tesouro subjaz.
Cavar parece eterno
como eterna será a paz.

Paz laboriosa,
operante.
(Paz é bem melhor
do que o tumulto de antes). 

Já tendo sido satisfeitos
todos os banquetes dos sentidos,
a mente tira novas consequências
dos mesmos banquetes de signos.

Essa saciedade abre um novo tempo,
tempo de edificação do meu próprio templo.
Em que nos atendemos, os amigos em elevação.
E fica lavrado este ato com feitio de confissão.

40 anos no deserto,
a Humanidade pode tudo:
Basta o amor por projeto e material de estudo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

BAILADO

 Pressinto no que já fui bom
pelos gostos que me ficaram
na intensidade de uma saudade.

Pela impressão de que quase se chega a poder
quando todas as tentativas foram infrutíferas.
Pelo gosto de ver os feitos dos que naquilo triunfaram.

No consolo que depois assoma notando na pausa outras escolhas.
Novas dedicações.
Para conquistas inéditas ou para ultimar as começadas doutra vez.

Alguém, alhures.
Essência metida em outros acidentes.
Quiçá mais bonitos.
Talvez mais bem aceitos.

Os defeitos mais discretos.
As janelas mais cerradas.
Mas aqui respira-se muito,
mostra-se muito a cara.

Vincada de erros
e acesa de esperanças.
E a menina dos olhos...
dança!

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A(O)LADO

 A gata olhando para o céu e pra mim,
pra mim e para o céu,
como a me cobrar o sol
neste súbito dia nublado.

Coisa que talvez já não se lembrasse que existe
tantos têm sido os dias claros.

Olha-me súplice.
Olha-me indignada?
Olha-me triste
não sei ao certo!
(Não há dedos que possa por em riste)

Mas quer o sol!
Quer quiçá me atiçar
pra que faça algo fantástico,
como quando abro a janela e venta.

Neste momento abre mão do seu garbo
e vivemos um contra-Egito.

Ninguém é Deus nem endeusado.
Ninguém á amo, apenas amado.
Porque estamos
simplesmente
lado a lado.

sábado, 12 de setembro de 2020

M'USA

 Não sei o que a música faz em mim
porque não sei o que ela é.
Mas sei que seus doces efeitos
transcendem os da mulher.

A música dá-se sem peias,
é sua tão logo a ouça.
Pouco importa a quantos se dá,
aos ouvidos e às bocas.

A música transforma sem perder-se,
transmuta sem degenerar.
A música é parte do mapa.
A pista mais fácil de achar.

Porque antes de falar, canto.
Soo de uma formas imprevistas.
Nascida a música comigo
não posso chamá-la conquista.

Não faço dela o que bem quero.
Ela é que me tem feito.
Não sei explicar (bem se vê)
mas é o namoro perfeito.