quarta-feira, 16 de setembro de 2026

DERIVA

O que se vive é irrepresentável
salvo o desejo
impossível e intenso
de retê-lo

quanto mais me dabato
mais o percebo

assomar-se uma sede
que é só o que bebo.

domingo, 13 de setembro de 2026

Nem isósceles nem escalenos

Vales mais que o amor
que na morte pressente a vida
a vida inequilátera
mais medida que cumprida

que pode valer o amor
tão contido nessa vida
se a vida tão expansiva
pode ser interrompida?

talvez contrariado consinta
que vale sempre o seu tanto
cada sorriso e cada pranto
que nada vale o que dura

tudo vale o que me faz
e vale mais se a bem me muda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O DIA CLARO

Há noites em que se quer,
mas não são de dormir

Num tal caso é inútil prosseguir
para prosseguir é preciso estar

(Vou repetir, donzel:
para prosseguir é preciso estar!)

Levanta daí!

Mete o Manoel de Barros!
Vá ouvir os passarinhos

(E, claro, atender os gatos)

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CIFRÃO NEM CEP

Para HH


Porque era poeta
aquilo em que punha os sentidos
não podia ser cobrado
porque pouco era medido

nem a varanda
nem a roseira
nem a fonte
na clareira

nem os ruídos
em que via graça
nem a luz tímida
das manhãs baças

muito menos os abraços
que na verdade habitava

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

domingo, 6 de setembro de 2026

ADORNO

Amor do começo ao fim
tecem poetas
e juram moças apaixonadas

mas vejo amor do fim ao começo
que é o delírio ao avesso
de quem assim faz a vida adornada.

domingo, 30 de agosto de 2026

ES MUSS SEIN

Filosofando enquanto sustentava seus personagens
Kundera imaginava o eterno retorno (Nietzsche?)

e se Robespierre voltasse de novo, uma e outra vez,
guilhotinando a cabeça dos franceses?

quem já errou diante de um inspetor Javert
sabe lá o que é

mas, sabe...
a Robespierre também lhe cortaram a cabeça

e Javert...


(insustentável mesmo é o peso do ser)



sábado, 29 de agosto de 2026

INSUBSTÂNCIA

De Amor se sofre
porque se tem
amor

esse padecer
que sabemos de cor

de cor vária
infinita
a que às vezes falta beleza
e se vê tão bonita

valentia-jactância
que muito se desfila
e não sobrevive à dança

que a música sugeriu
embalou
quiçá nutriu
e não sustentou

e ficam os devaneios
crendo-se verdade
e do nada muito se vive

até que se faz muito tarde

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

PENSO LOGO DUVIDO

O gato enxerga bem no escuro
e nada no breu

como há quem perceba
o que nunca entendeu

há quem se molhe
sem se limpar

haverá quem esqueça
sem perdoar?


domingo, 23 de agosto de 2026

ASSURGENTE

O que nunca leu poesia de madrugada
viveu
e contudo nunca entendeu
o que fazia

(ou do que sangrava
quem a escrevia)

sábado, 22 de agosto de 2026

CORTEJO

Os enfermos se tratam
e quando já não
se ungem

os moribundos se despedem

os mortos se velam
enterram
rezam
e encomendam

os desaparecidos
(vivos)
caçoam

amaldiçoam

sábado, 15 de agosto de 2026

VESTIDO

Quem falou do amor sem rodeios
clamou: não há roteiros a que resista
amor só é o que se improvisa

não pode o amor ser exato
eu nele todo ato
quando não acolhido
sabe ele que me desato

não se perde
se acha
o amor é o mais Alto
e nunca está em baixa

vive em sua força imensa
lado escuro quando falto
lado claro na presença

o amor aqui e lá
todo pulsa
a toda parte se irradia

o amor resiste tanto
que no pranto
é sua própria companhia

chaga de quem não o merece
o amor, paciente,
do achado se tece

(e dele se orna
quem com ele se veste).

  


 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

ARTE É FATO

Floresceram artistas sob todos os regimes.
Em flutuações de todos os índices.
(até sob o peso do index)
com e sem censura.

Para ressoar.
Para inaugurar um som. 
Escrevendo ao gosto do povo,
ou o ilegível, o canhão lírico.

Guardados no baú.
Indo ao ar.
Menoscabando o público,
cavando seu lugar.

Pintou-se sob toda luz.
Esculpiram-se os deuses, 
os demônios,
os êxtases que dão.

A abastança.
A fome.
O fruto.
O pão.

A soldo de César,
dos papas,
de Mamon-ele-mesmo.

Produz-se arte entre os solstícios.
Com sol a pino.
No escuro.
Dos dois lados do |muro|
(só aos lados...)

A arte pulsa.
A arte é imparável


sábado, 8 de agosto de 2026

MAQUINISTA

Para quem já viveu o bastante
o amor não tarda
nem vai longe

(é a véspera de ontem)

os cemitérios se parecem
mesmo os que, contando ser mais,
contam campas

(nada mais)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

PERFECTÍVEIS (Linha férrea)

"não se ponha o sol sobre a vossa ira" - Paulo


Anos sobre anos
os marcos são nada

se um dia nos conceberam
para existir para sempre
o futuro será
também para sempre
maior que o passado

ah, o futuro
é TÃO maior 
que o passado

que do passado
só nos resta
perdoá-lo

terça-feira, 28 de julho de 2026

NATAIS PASSADOS

Fantasmas
são velhas ideias
repercutidas

deixados ao que são
não atrapalham a vida

quinta-feira, 23 de julho de 2026

EM EFÍGIE

(FFdeP)


A personagem muda
    da minha vida
não se muda
e algo segue inalterado

algo inacabado
porque não se perfez
algo sempre o mesmo
(ainda e outra vez)

algo que não fere nem satifaz
algo que não se repete
porque não se refaz

é já ferida sem corpo
direto na alma
e não bastam semanas
para cicatrizá-la

não se recompõe
porque não há remorso
talvez nem arrependimento

e assim adia a reparação
embora em muito tenha posto reparo
(e até alguma condenação)

não me absolvo porque não tenho juízo
mas sigo vivendo

(não me faltam motivos)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

DISSE A VÓ

Coisas que são para ser e não podem?!
meu filho, isso nem existe!
é escolha sua ser triste

e que escolha infeliz!

o bom é que escolhas podem ser refeitas
o tempo passa, mas também se aproveita

as coisas já não podem ser perfeitas
mas tanto ainda pode ser bom!

deixa o idealismo que é escudo
abraça o enigma do futuro,
mas procura dar-lhe direção

imprima-lhe sua vontade,
nada aproveita guardado na nuvem
só se tem o que se usa

é infame viver de especulação
mesmo a filosófica
de que vale a sua lógica sem passar à ação?

filho, não me estendo muito
sei que o exagero é nulo
então deixo o proveitoso resumo:

Tudo existe para o amor
é de amar que se trata
que é amar que cura

então deixe a mina escura
e siga no rumo solar


quarta-feira, 15 de julho de 2026

BAÇA

A noite insone é branca e baça
como a paz pelo avesso
o desconforto em travesseiro
o tumulto capital

é azul como a emissão da tela
atravessa a pálpebra
aturde
confunde
retém

não fico
não vou
não sou

(salvo meu próprio refém)

me ocupa
mas não entretem
não cultiva imagem nem ação

a insônia
é o avesso da inspiração