Se a mulher da minha vida
queria da minha vida além
era a mulher da vida
de quem?
Pernambuco dá
Pernambuco toma
meu Capibaribe
corta Pamplona
nunca fui Guilherme
nunca foi laranja
será que no Recife
eu já fui Holanda?
qual o quê!
Limoeiro
e em qualquer parte do mundo
Pernambuco inteiro
As abelhas bebem e partem
o sol raia o dia e deixa a noite
governos se malsucedem
na lavoura do arrependimento
nada disso semelha o amor
o amor é uma estação
em que o que embarca
nunca parte ao jamais
as estações só não são infinitas
porque antes são eternas
e o amor, como elas
é intrínseco a esta terra
A vida é bonita como está
incompleta e aflita
a vida quer se realizar
enquanto é infinita
se a coragem receia
o tempo grita
não há receita
(acredita!)
erra!
errar é dos mundos como este
ao fim e ao cabo
não há erro que não se aproveite
usa este acorde
ou aquele
nota!
canta!
samba!
esperança!
e anota:
a vida em espera não existe
só a havida é nossa
O livro se lê até o fim
ou se deita
abri-lo e fechá-lo
fechá-lo e abri-lo
obriga a relê-lo sempre
para emendar o sentido
e àquele que padece
o indiferente sempre
parece trazer intenção
ou proposta de destino
com esses trechos
já não me arrumo
a traça roeu o "eterno"
e deixou apenas "minuto"
as cartas já se devolveram
e os poemas, outro tanto
acabada a música
acabou-se o canto
para que recompor
episódios esgotados
se guardamos o vigor
de vermos novos criados?
o presente nos convida
para que remontar do efeito
à causa já perdida?
(é deixá-la res derelicta)
a vida só vai
não pode ser restaurada
e ademais o juízo prevento
já sabe da coisa julgada
isso é litigância de má fé
e deixa a vida interrompida
não há perseverança
na insistência inifinita
há tantas boas causas
de que a gente anda esquecida
recompõe-se!
revitaliza-se!
faz!
a árvore que não dá bons frutos
é melhor deixada atrás
d'aprés Machado de Assis
Sei que não vemos
essas coisas
só de olhar
coisíssima nenhuma
espuma
bruma
chuva
e
não era
mesmo
qualquer uma
Sonhei com a festa da cumeeira
a exaltação da completude
que entrega seus feitos
a outros inícios
mas acordei sem edifício
num terreno baldio
com muitos planos espalhados
que entravam em conflito
Vivo no seu trem
na portinhola da locomotiva
não adentro os vagões
que deles não te vejo
neles há muita gente
daqueles outros vilarejos
não apeio
gosto do vento no rosto
gosto de ver teu caminho
e gosto de que me aproximo
mas andar na linha
não me revela a jornada
não construí a estrada
nada sei de ferros e encruzilhadas
interessa-me entender
o que na poesia da vida desperta o seu sorriso
talvez mais raro que sua gargalhada
não o sorriso público
à gente a ser evitada
o seu sorriso mais puro
a este que quer adivinhá-la
e você nos conduz
por pontes sobre rios
com essa sua certeza
que destrói meus desatinos
e não sei o que me embrulha o estômago
se é certo o destino
(é que é incerto chegar contigo...)
- por favor, sem solavancos, maquinista!
O guarda-sol recolhido tem um quê de frustração
de piscina vazia
de crianças portas adentro
e tem também um ar de esperança
para quem traz um sol por dentro
pleno de alegria
que dissipa as nuvens
dá calibre à réstia
e restaura o dia
Decesso de excesso existe,
do que dá prova o clube dos 27
mas...percebe...
ainda aí é a falta que nos perde
Depois do abacaxi
só o abacaxi
não há o que possa
suceder sua doçura
abacaxi não é problema
mas textura
o coroado abacaxi!
"a gente chega
a achar que é feliz"
A notícia
fictícia
sobressalta
seu advento
sublinha
a falta
concretiza a despedida
desembrulha o estômago
abre vagas de
escassa procura
difícil aprovação
impossível investidura
o golpe
que desarma
a armadura
cessa o duelo
nos foros
da loucura
Como um livro quando faltam páginas
some do epílogo a explicação
Eu não preciso de provas
nunca precisei de provas
eu experimento, oras!
Eu sinto
perscruto
intuo
tudo que é bonito
vívido
pulsante
Só preciso de provas
se diagnóstico de câncer
Nunca antes
até tão depois
Nunca antes
partir ficado
Nunca antes...
mas e o depois projetado?
Quisera escrever um poema
a cada vez que não lhe posso falar
mas os projetos excederiam de muito
minha capacidade de os realizar
e eu poderia passar sem essa ansiedade
afinal sempre disse, de mim para mim,
que não sofro desse mal
eufórico, deprimido, eufórico, deprimido
mas sem pressa de ir de uma a outro
(não é assim que sou de lua)
querer falar-lhe é recorrente
(mais do que diário)
mas talvez não seja nada para versos
e como destacado nas nuvens
não tenho o diploma de onde se estudam
nem ninguém me outorgou essa dignidade
a não ser por alguns afeiçoados, em epíteto:
Bom dia, senhor poeta!
como aos poetas oficiais das cidades de novela
uma distinção carinhosa que
de uma forma vexada
afaga
eu prefiro filmes a novelas e sou roteirista
o passado quase como havido
o futuro como desejado
neste ainda estou ao seu lado
os problemas se superaram
teceu-se o modus vivendi
a vivenda é qualquer uma
de qualquer patamar
em qualquer localização
os presentes se dão sem medo
dos excessos não se espanta e foge
os passados ainda existem e seguem passados
para frente se olha além das décadas
do decesso
da decendência
às vezes acho que era até fácil
que se podia
que se pode
espero que estes caracteres
encontrem-na bem
Desejar-te desde sempre
Ter-te agora, uma dia, é sempre
A Bahia não me deu
(e nem eu queria)
régua e compasso
mas aquele abraço
tem
pintura no braço
tem
orla, largo, confissão
na Bahia nada
atravanca a expansão
Talvez não goste de viajar sozinho
nem acompanhado
mas para encontrar
a linguagem do encontro é o abraço,
que faz a impressão do espisódio
na parede do coração
não entope
acolchoa
(de amor não se morre
à toa)
Perambular como um estrangeiro
em um país um pouco seu
mas só um pouco
que nunca lhe pertenceu
o que ali se tece
com os olhos certos
é de uma felicidade!
que também um pouco entristece
A onda é efêmera
mas as ondas são eternas
como eternamente o carvão
se pressiona em diamantes
que se dão a quem impressiona
(mas não eternamente)
Quem nunca soube brincar
não sabe ser sério
sabe imitar a morte
e incidir como um imposto
mas não vê a vida
em todos os seus contornos
falta-lhe um sentido
e o sentido de estar
(disposto)
Já fui cego
e torturado pela escuridão
já fui cego
e orgulhoso de sê-lo
fascinado por aquela tortura
até o dia em que te dirigem o
"que queres que te faça?"
que cura
Ecoando de dentro da minha primeira escolha musical
um bardo dizia que o último dia de dezembro
é sempre igual ao primeiro de janeiro.
Mas os separa uma obsessão.
O último de dezembro é apenas o cúmulo
do que os de dezembro todos portam:
a hora do novo cantada e decantada.
Tanto e de tal modo pronunciada
que chega a ser esperada.
Uns passam o café e arrumam a casa.
Outros fazem a contagem regressiva para a contagem regressiva,
que mesmo tão curta se faz em roupa de ver Deus
(e talvez a preços exorbitantes...)
3,2,1 e SCATAPUM!
Primeiro de janeiro não tem obsessão.
O novo ficou para trás (ou foi o velho?)
É impressionante seu poder de sentir-se o mesmo:
pós-praia, pós-clube, pós-casa-da-sogra, pós-nada.
É como chegar ao pé do arco-íris:
João não vira Maria,
não tem pote de ouro,
não houve o sorteio bilionário da Caixa.
Tanto faz cada cor, todas as cores, ou cor nenhuma.
O tolo está de ressaca?
Ou o tolo está orgulhoso de que,
este ano, ainda não mandou aquela famigerada mensagem?
Outros têm agora 365 dias para tomar coragem
"até o fim do ano".
Ou para manter a coragem desde esta hora
para não repetir o de outrora.
Um ano limpo, até segunda ordem.
E se a barra sujar:
"...tenho discos e livros".
O núcleo. Indivisível.